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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

“Síntese argumentativa sobre o longa-metragem americano de Michael Bortam de 1979: And your name is Jonah”.


E seu nome é Jonas.

And your name is Jonah (E seu nome é Jonas) é um longa-metragem americano produzido em 1979, a partir da autoria e roteiro de Michael Bortam e dirigido por Richards Michaels. O filme é estrelado pelo famoso ator James Woods que interpreta o pai de Jonas, que é interpretado pelo jovem ator Jeremy Licht que conta hoje com 43 anos de idade e Erica Yohn que interpreta sua mãe.

O drama conta a história de um menino surdo de sete anos de idade que passou a metade de sua vida internado em um hospital psiquiátrico junto a crianças diagnosticadas com deficiência mental, quando na verdade era uma criança surda sem nenhum comprometimento de suas capacidades cognitivas que deveriam ter sido estimuladas pelo desenvolvimento e aquisição de uma língua natural, cuja surdez impossibilitava que fosse a língua falada de seus pais.

A trama tem início quando tem lugar no hospital o emocionante reencontro de Jonas com seus pais, que o levam para casa depois de obter seu diagnóstico correto, mas não sabem como lidar com toda a angústia e o sofrimento que acarreta o obstáculo da falta de comunicação que obsta a aquisição da linguagem, essencial na construção da identidade, no conhecimento da alteridade, no equilíbrio e na mesurada vazão das paixões, cuja ausência para o ser social por natureza precipita a alma no martírio da prisão sem muros e sem voz do solipcismo.

Em algum tempo e lugar neste mundo já foi dito que o inferno é solitário. Intenso é a palavra que nós da tradição oral, utilizaríamos para nos referirmos ao drama de Jonas, que sem poder conhecer as palavras, e tendo o desejo e a inclinação natural para conhecer que todos têm, age e sofre nesta vida, sempre aguilhoado pela ausência do sentido no qual os seus iguais edificaram a sua volta uma comunidade multissecular para viver em conúbio no qual ele não tem acesso para ser e existir senão de modo mutilado que o exclui da igualdade muito mais do que política, o excluem de uma igualdade ética, porque sem se dar conta, uma tradição oralista se constituiu enquanto hegemônica por um vetor inconsciente na comunidade dos sons. Algo demasiado humano.

A ética que para os helenos abrangia e era pensada pelos filósofos como teoria que comtempla todo o fazer e agir humano em comunidade, cujo zênite é as virtudes e a política, fez a comunidade dos homens refletir muitas concepções de justiça ao longo de muitos séculos no ocidente para em conjunto operar uma conscientização de que a sociedade justa é aquela que estabelece relações de equidade política e social com seus cidadãos se estendendo não a poucos privilegiados, mas na medida dos esforços e possibilidades da cidade à totalidade de seus viventes.

As sociedades primitivas estabeleciam costumes e leis grosseiras sobre a hegemonia dos mais fortes e a estratificação em castas mais fracas, as sociedades que o grego chamava de bárbaras, e que volta e meia vêm ameaçar a liberdade tão cara ao ocidente e a civilização; até mesmo hoje em nossos dias, com a barbárie.

O fator da força e da necessidade é um eixo no qual agonizam todos os homens, do princípio até o fim dos tempos, em conflitos e guerra e jamais poderão ser ignorados, mas os esforços benéficos cívicos buscaram sublimar essas pulsões sociais, e a bestialidade constituinte do homem por meio da justiça, e fazer com que o forte seja justo, e não a justiça seja a vontade do mais forte.

A história entendida como movimento de uma natureza dada, mas perfectível é prova de que não há um absurdo da existência, só para aqueles que advogam que o homem se faz só, sem a comunicação e interação vitais que lhe sobrevêm por natureza, não obstante as convenções que lhes atribua tonalidades e idiossincrasias pertinentes, mas, com efeito, há uma racionalidade inalienável na natureza do qual todos têm acesso e são parte, não havendo nenhum lugar para acaso.

Ou a natureza é uma totalidade ordenada ou ela não é nada. O problema é que o homem como parte da natureza, tenta volta e meia, não apenas dela fazer sua leitura nas coisas inteligíveis, mas esgotá-la; e tomando o todo pela parte, a falseiam, enrijecendo a realidade em pura convenção, e lançando na exclusão e no absurdo, aqueles herdeiros do agir conforme a natureza, capazes da humanidade, do direito e o amor cívico que nos une e edifica a cidade e o Estado, e que tão somente como o jovem Jonas, anseiam naturalmente por seu lugar ao mundo que constroem os homens, em sua contínua relação com a natureza.

Assim lançado ao absurdo Jonas por natureza quer falar e ser ouvido, sem falar e sem poder ouvir; sofrendo por isso, tornando-se um conflito vivo, uma nota dissonante que desafina a música aparentemente bem orquestrada da sociedade oralista. Objeto de compaixão para os compassivos, de escárnio para os cruéis e de reflexão para os justos.

Vez ou outra ele decai no desespero, essa paixão tão conhecida daqueles que já sentiram o que sentiu o escorpião no círculo de fogo. Mas ele não assentiu ao desespero porque o elege como o melhor, mas porque se vê vetado à via da continuidade que o enleva das pulsões aos pensamentos letrados, sentindo assim o abismo sob seus pés, pela falta da ponte que o conduz em contato com os outros à sua própria humanidade, acede ao desespero como se lhe roubassem sem saber quem é o ladrão e o que foi roubado.

A fúria lhe toma não pela frustração de querer comer um cachorro-quente e não poder, mas pela constatação da falta de meios que sabe por natureza existirem para poder objetiva-los e referir-se de modo futuro, contingencial e imediato ao que não é presente ou ao que foi, ou de modo genérico, abstrato, universal e necessário do que sempre é:

“Tenho fome!”

 Seu irmão pode formular sua angústia com relação ao irmão e perguntar à mãe antes de dormir:

“Porque ele não gosta do Homem-Aranha?”

Mas o que faz Jonas se a privação da linguagem remete sua alma ao imediatismo animal corpóreo do aqui e agora, cujo fato se perde como a carrocinha de cachorro-quente, tão logo se vai?

Jonas é lançado no contínuo devir do sol que morre todos os dias para o nascer de um novo e inesperado sol depois, pois se vê impossibilitado de referenciar objetos ausentes. Ele chora a lágrima de Heráclito continuamente por não banhar-se duas vezes no mesmo rio, não sendo nem ele mesmo no rio, nem o rio, nem as águas. Ele é obrigado a fazer de sua conduta um aqui e agora ininteligível para quem não se desdobrar em uma abertura para alcançar sua leitura do mundo o resgatando para a esfera celeste e sublime das ideias. Jonas range os dentes sozinho nas trevas. E é atribulado pelo flagelo daqueles que querem sem saber o que querem, daqueles que sentem a dor, sem poder dizer que dói, sem saber o que é dor, e que gostaria que não doesse.

Como que marcado a ferro pela natureza por um selo de necessidade, o menino encarna sentindo na pele, algo que por intersubjetividade torna-se simbólico para todos os surdos e para a história da surdez.

Primeiro confundem-no com um deficiente mental, excluem-no do convívio social, não pode jogar beisebol, não participa de festas, os parentes desconcertam-se em indignação e compaixão quando o pai lhes diz que não compreende palavras; é tomado como um pária onde convive. Passa pelas tentativas educacionais e corretoras de treinamento oralista, até paulatinamente progredir em meio a frustrações, dissabores e fracassos a língua de sinais que o recoloca no mundo.

Na educação que seus pais anseiam oferecer-lhe este bem impreterível e inalienável do ser humano, que lhe forma no corpo, nos pés, nas mãos e no espírito ele se defronta com os sábios célebres de suas áreas, behavioristas que lhe recompensam o comportamento desejado com doces se ele aperta botões em resposta a estímulos auditivos. Acadêmicos que aderiram à visão da educação oralista que lhe constrangem a ler lábios, usar pendurado ao pescoço um aparelho auditivo que amplia frequências sonoras ainda que ininteligíveis. Os pais munidos de esperanças e discursos da visão oralista da educação dos surdos, lançam o pequeno Jonas a um convívio com crianças menores que ele, que se esforçam por ler lábios e responder a estímulos aos seus desejos, como querer uma bola, um avião, pagando por isso o preço de se esforçar por ler lábios de professores ouvintes, alheios a sua visão de mundo.

Como no congresso de Milão de 1880, onde a educação oralista foi desafortunadamente eleita mais adequada para os surdos, em detrimento da língua de sinais, o jovem Jonas vai à escola assim, sem poder utilizar sinais para compreender as lições e sem ter professores surdos mais experientes no drama que vive, ao lado de crianças igualmente inexperientes e vedadas à comunicação devido às mesmas razões no qual ele se encontra.

A especialista faz um discurso à mãe de Jonas interditando-lhe até mesmo o uso de sinais em casa, para comunicar-se de qualquer maneira que não seja tentando falar a pretexto de que tal prática seria prejudicial à aquisição da fala devido à indolência que despertaria em relação ao esforço de tentar falar e ler lábios.

Malgrado o saber e o conhecimento sejam o melhor que temos, é isso que o Jovem Jonas experimenta ao consultar os sábios com sua mãe.

Mesmo seus pais se digladiam e se angustiam com a frustração da impossibilidade de se comunicar com o jovem Jonas.

O discurso dos sábios registrado nas bibliotecas que a mãe recorre por auxílio da amiga não passam de antinomias:

Defendem opiniões racionalmente justificáveis de ambos os lados, e o filme reascende o embate das concepções do século XVIII francesa e alemã de L’Epée e Heinicke , de sinais e oralista; como em tudo na vida no qual os sábios sempre divergem e nunca atingem uma resposta única no que quer que seja não importando a necessidade e a gravidade da questão.

A mãe persiste pelo afeto e pelas emoções pelo menino. O pai busca recorrer à opinião dos outros tentando não se iludir quanto a uma possível realidade do garoto. Ele se mostra mais furioso e intransigente com o menino, e com essas mesmas opiniões ao qual dá crédito, ora rejeitando, ora aquiescendo a uma espécie de fatalismo com relação a Jonas:

“Assim é. Ele jamais deveria ter saído daquele maldito hospital.”

O pai não consegue suportar a pressão do problema conjugal agravado pela incapacidade dele e da esposa de lidar com o menino e assim o pai de Jonas abandona a mulher e os filhos.

O apogeu do drama é quando a pessoa que Jonas mais ama, por de alguma forma ser seu melhor amigo, Francesco o feirante, morre e Jonas presencia.

Ele vê o avô desfalecer após carregar caixas de frutas com ele, ser levado de ambulância, vê pessoas chorar, vai ao velório, o vê no caixão. E ainda a mãe tem dúvidas sobre se ele sabe realmente o que aconteceu. Dúvida que se comprova pertinente, pois Jonas no seu aqui e agora tem necessidade de ir sozinho até onde costuma se encontrar com o avô e novamente busca-lo com os olhos para poder compreender que ele não é mais presente, e assim Jonas apreende a dor morte; o luto, essa ferida profunda e inflamada que nunca se fecha naqueles que perderam um dia uma pessoa amada.

Perdendo o ônibus para retornar para casa, o menino parte errante pelas ruas quase sendo atropelado por um policial que o persegue tentando estabelecer interação com ele. É um dos momentos mais dramáticos e intensos do filme, pois mostra como a inflexível impassibilidade da razão social mói em suas engrenagens, a nota dissonante que não se harmoniza na música orquestrada pelo todo, aparando arestas em sua abstração como no crime contra as diferenças do olhar que nos revela o intenso azul do mar Egeu em Atenas, e o tom cinza de um litoral pedregoso do atlântico que a razão mutila severamente em sua conceituação chamando e igualando as duas coisas na palavra “mar”.

Deste modo Jonas é moído e abstraído pelas boas intenções de policiais e médicos que não o compreendendo terminam por amordaça-lo quase que o pondo a ferros em uma maca até ser afortunadamente reencontrado pela mãe que sente o nojo e a indignação com o tratamento dado a uma criança que é apenas surda, na sociedade da melhor das intenções.

A mãe exasperada com os desatinos do menino resolve então pedir ajuda ao marido veleidoso; mas a ajuda mesmo vem do contato que a mãe de Jonas estabelece sofregamente com a comunidade surda, através de uma família de surdos que frequentava com seu filho a mesma terapeuta oralista que cuidava de Jonas recomendando a proibição da língua de sinais.

A decidida mãe rompe com a filosofia oralista encarnada na personagem da terapeuta, e resolve-se em um embate com ela onde não há e não pode haver meio termo, não há dialética no diálogo das duas; pois não há o que guardar, ou negar para conciliar, é o embate da überwindung; aonde a mãe destrói a antiga concepção defendida pela oralista e diz “agora vai ser assim”!

Somente assim Jonas atinge uma superação. Efetivada pelo contato com um novo mentor, esse sim que pode ser chamado de professor, pois eis que é ele o Virgílio que conduz o menino das profundezas do tártaro solipcista, daquele Hades sombrio cuja bigorna de Hesíodo cai nove dias e nove noites para tocar; que o pai covarde o enviou como Cronos ao engolir os filhos por medo; pois é este Virgílio com seus sinais alados que conduz o menino para os campos Elísios e as portas do Céu, deixando para trás com um luminoso sorriso o Tártaro tenebroso.

O professor que quando se engaja assim na formação humana e total do aluno, forma o discípulo, torna-se não mais professor, mas condutor de almas!

Esse herói é quem realiza a Paidéia do menino, esse herói surdo, fornecendo-lhe sinais, acompanhado sua experiência e seu desenvolvimento, preenchendo o caos que havia em sua alma com humanidade e saber, possibilitando-lhe a aquisição de uma língua.

Os filósofos não erraram ao dizer que uma língua é indispensável na construção da pessoa humana e da razão, apenas aqueles que tomando literalmente uma metáfora, entenderam por língua, apenas aquilo que emite sons, caso assim fosse, os papagaios seriam capazes da integração cívica que nos humanos se opera antes pelo amor do que pelas palavras.

Quando duas pessoas, um eu e um tu, entabulam comunicação, ela é antes como aquela comunicação que na gloriosa Roma eram pensadas como estradas e pontes, pois são somente aquelas pontes que conectam, e interligam; somente as pontes são os arco-íris e os vapores coloridos que perfazem o eixo e o anelo saturnal que ligam a alma humana umas às outras se reconhecendo e se fazendo pelo olhar do outro.

Ah! Como errou feio o poeta[1] ao dizer que as almas não se compreendem que somente os corpos se compreendem. Bem disseram os filósofos que os poetas mentem demais[2]!

Quando por essas pontes e esses olhos são trocados ensinamentos de virtude e de conhecimento que tudo acrescentam para a nossa excelência, isso é puro, e é somente esse amor que pode nos conduzir da bestialidade à nossa humanidade acendendo em nossos corações a chama cívica que nos tira da mediocridade e nos salva da barbárie.

E é esse o amor; o amor que pode construir na justiça a cidade e o Estado.



[1] Manoel Bandeira a Arte de Amar.
[2] Platão e Nietzsche respectivamente na República e Genealogia da Moral.

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