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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Resenha sobre : A Metafísica em Questão – Henrique Cláudio de Lima Vaz


Capítulo 6 do Livro - Raízes da Modernidade
Há duas vertentes especulativas acerca da metafísica do ato de existir, caracterizado pelo verbo latino esse, cunhado por Cícero a partir do pensamento grego dos termos on e ousía, esse e essentia.
A reflexão primeiramente se aplica ao que o padre Lima Vaz chama de Esse absoluto, (ápice deste pensamento em Santo Tomás de Aquino) e posteriormente aos entes relativos, ou seja, o ser determinado nos objetos intuídos pela experiência.
Do ponto de vista metodológico, o padre Lima Vaz propõe um roteiro que se inicia pela via compositionis, isto é, do simples ao complexo como na metodologia de Tomás de Aquino no opúsculo Do Ente e da essência. O próprio Tomás de Aquino declara ser uma metodologia empregada pelo filósofo; “um pequeno erro no início gera um grande erro no final”.
A via compositionis é a via dos juízos sintéticos em oposição à via resolutionis dos juízos analíticos, como é elucidado na nota n°1 é uma metodologia medieval, mas pertinente à questão da inteligibilidade e da metafísica, como por exemplo, nos conceitos de juízo sintético e analítico da Crítica da Razão Pura de Kant na filosofia moderna.
No início do texto, o padre Lima Vaz antecipa o itinerário de sua reflexão que se inicia com a intuição originária do ato de existir, desenvolve-se em suas implicações lógicas e dialéticas, finalizando-se no retorno a este princípio do esse absoluto.
Este itinerário compreende-se dentro de uma totalidade de estrutura dialética, pois a abertura existente dessas duas vertentes especulativas, a do esse absoluto e a dos entes relativos, ao mesmo tempo as separa para posteriormente as reunir por meio do conceito de causalidade.
Ele percorre quatro estágios conceituais onde o primeiro é denominado de noético-metafísico.
Em nossa intuição (noésis) manifesta-se a inteligibilidade primordial, o ato de existir como perfeição (energéia). Não tendo nada que o preceda ou condicione, no ato de existir, para nós, encontra-se o princípio de toda inteligibilidade afirmada inicialmente como infinita e absoluta.
O esse, manifesto para nós, é assim o próton noéton, o primeiro inteligível que não pode ser limitado ou relativizado por algo exterior ao seu conceito.
O padre Lima Vaz considera uma perversão profunda e auto-contraditória da inteligência o não reconhecimento desta manifestação do ato de existir como o primeiro inteligível evidente, atribuindo-se a manifestação do ser ou do ato de existir a uma iniciativa paradoxal de nossa imaginação.
A distinção das duas vertentes especulativas está presente já neste primeiro inteligível. Os entes finitos e relativos que se manifestam em nossa experiência, só são pensáveis, a partir do esse infinito e absoluto que permanece imutável em sua plenitude inteligível.
Todavia, metodologicamente o padre Lima Vaz distingue a intuição do ato de existir, do esse que dá início ao caminho metafísico da via sintética, isto é da via da composição, da noção do ser enquanto ser, que é o ser como ens comumne, termo de procedimento metódico da Metafísica por via analítica, da resolução.
A distinção reside no seguinte:
O ser enquanto ser é a noção atingida por Aristóteles pela via analítica, que por meio de abstrações avança até a essência (ousía), enquanto noção universal do ser característica das matemáticas e da física.
Em Tomás de Aquino o esse se encontra como o “objeto próprio da metafísica” afirmado como a inteligibilidade irradiante própria do ato de existir, intuído na separatio judicativa, e não ao termo de um processo abstrativo do intelecto. Ele é constituído na dialética entre a forma do juízo e a perfeição do ato de existir (esse).
Para o padre Lima Vaz, Tomás de Aquino avançou para além do limite essencialista da tradição grega, pondo desta maneira o problema da Razão e Existência legado à filosofia moderna.
Isto porque Tomás de Aquino afirmou essa inteligibilidade irradiadora do ato de existir, perfeição suprema, energéia aristotélica, que até então para o padre Lima Vaz  foi “a mais audaciosa dilatação tentada do mundo inteligível aberto para a razão humana.”
Para reconstruir as fontes deste problema, o padre Lima Vaz pretende no texto um retorno às origens da filosofia metafísica ocidental, quando três tarefas teóricas se apresentaram ao homem no caminho do Logos:
A crítica do mito, a racionalização do Destino e a interpretação racional da natureza.
Estendendo-se pelos séculos no pensamento antigo, estabeleceu-se um paradigma desde Platão, que postula a Ideia como Forma (eidos) que circunscreve a inteligibilidade dos entes ao contorno da definição de sua essência, no que culmina naquela tradição essencialista grega a que nos referimos há pouco.
O encontro do pensamento antigo e a revelação bíblica crista, mais propriamente conhecido na história da Filosofia pelo encontro das ideias aristotélicas com Tomas de Aquino, produziu uma ruptura neste paradigma da antiguidade. A inteligibilidade da existência em Tomas de Aquino representou  a transcrição conceitual mais abrangente no domínio da inteligibilidade que a tradição clássica legara ao domínio limitado da essência.
O padre Lima Vaz crê que esse conhecimento da metafísica de Tomás de Aquino seja uma chave hermenêutica por excelência para a compreensão do problema da Razão e da Existência do projeto filosófico da modernidade pós-cartesiana.
É a Razão cartesiana a primeira realização histórica deste projeto, se encontrando com os desafios teóricos presentes na origem da filosofia antiga.
Na Razão cartesiana, ou melhor, em suas raízes históricas estão presentes aquelas três tarefas que se apresentaram no caminho do Logos.
Em correspondência com a crítica do mito, o padre Lima Vaz observa na filosofia moderna uma crítica da tradição teológica cristã, que é igualmente a procura pela descoberta de uma nova forma de razão, capaz de submeter o destino aos desígnios humanos e interpretar a natureza com a intenção de estabelecer um domínio sobre a natureza para transformá-la em benefício do homem.
Para o padre Lima Vaz as raízes históricas do projeto da filosofia moderna, identificam-se justamente com a questão da transformação medieval da razão antiga como pensamento das essências, pela afirmação da inteligibilidade do ato de existir.
O núcleo teórico deste projeto da modernidade é a reinscrição do universo e da conduta humana nos códigos operacionais e científicos da razão, encontrada no devir imanente da história, projeto avesso ao ideal da filosofia antiga de vida na razão (bíos theoretikós). Consequentemente pensar o absoluto no interior do devir histórico. Contraditoriamente constitui-se o problema fonte de toda filosofia moderna para o padre Lima Vaz.
Essa questão remonta às indagações pré-socráticas na história da filosofia, em Heráclito e Parmênides, os olhos esquerdo e direito da Filosofia.
No texto o padre Lima Vaz cita Parmênides como o iniciador da ontologia, com a sua afirmação tautológica acerca do ser, e toda a dificuldade que ela encerra para a filosofia antiga reconstruindo seus passos na História da Filosofia até atingir o esse absoluto.
“Como introduzir a diferença da identidade sem relativizar o ser uno e absoluto na pluralidade do múltiplo?”
Elencam-se no texto três respostas da filosofia antiga: a metafísica do Bem como princípio do mundo das Ideias em Platão, a teologia aristotélica do livro lambda e a metafísica do Uno-Bem do neoplatonismo.
O médio neoplatonismo efetua um passo decisivo que é a descoberta da identidade absoluta da Inteligência na diferença dos inteligíveis.
Na teologia cristã o existir no espaço da inteligibilidade enquanto esse absoluto manifesta em sua identidade a diferença ad intra das relações trinitárias e a diferença ad extra dos entes criados.
Identidade e diferença compatibilizam-se com Uno e Múltiplo e para o padre Lima Vaz, um traço comum entre a filosofia antiga e a medieval se esboça traduzido na oposição do Absoluto e do relativo; a intuição da transcendência do ser como primeiro inteligível posto com anterioridade e incondicionado sobre toda a limitação das essências dos entes finitos.
A inteligência finita, não contém na sua condição de finitude, a razão última de possibilidade da intuição do esse absoluto. Do contrário, o existir permaneceria relativo e circunscrito às possibilidades do sujeito finito em contradição com a própria intuição de natureza absoluta que o caracteriza.
Por essas razões, para o padre Lima Vaz, a existência dos entes finitos é portanto participada, tanto em seu existir concreto, quanto no ato de sua inteligibilidade.
A existência manifesta assim sua total transcendência tanto em sua expressão na inteligência finita como ao existir relativo dos entes finitos da experiência.
Voltando ao problema moderno da Razão e da Existência, é possível enquadrar a existência, desde o simples ato de existir até os cânones explicativos da razão humana como a fonte de toda inteligibilidade?
O “estar no mundo” do sujeito racional, seu existir enquanto dado a si mesmo, em meio às coisas que igualmente lhe são dadas, é tido na forma de um postulado, denominado de situação ôntico-primária, ficando assim impensada e impensável para a razão científico operacional, a razão moderna.
“Como recuperar para o universo luminoso da razão o fundo obscuro do simples existir?”
A metafísica de Tomas de Aquino responde a esta pergunta com a intuição da inteligibilidade do Esse absoluto como ato de infinita perfeição, assumindo a forma de uma pré-compreensão fundadora da própria atividade da razão em sua objetividade transcendente capaz de elevar-se à teoria desinteressada do ser.
As duas vertentes especulativas citadas no começo do texto convergem neste ponto, uma primeira direção aponta a transcendência absoluta do existir, a segunda aponta a imanência da representação.
O padre Lima Vaz conclui que a existência, no seu simples ato de existir, é irredutível aos procedimentos operacionais da razão, mesmo estendendo seu poder para uma gigantesca operação de racionalização de todas as manifestações da vida humana e de todos os fenômenos do universo, a pressuposição da imanência absoluta da razão finita deve conviver com a sem-razão do simples existir.
Eis o homem! Que tenta viver refugiando-se em atitudes que aprofundam a sem-razão que as gerou, desde o cauteloso ceticismo ao niilismo, diz o padre Lima Vaz.
Mesmo na filosofia moderna encontra-se presente mesmo em sua expressão na inteligência finita. Descartes encontra a ideia de perfeição na alma, uma ideia de infinitude refletida na finitude e sua resposta é a perplexidade. Deve ser a marca do artista deixada em sua obra.
Kant examina na critica em sua dialética transcendental, aquilo que irá chamar de princípios reguladores da razão. O complemento que a razão anseia e coloca no conhecimento racional o orientado, mas sem poder atingi-lo de fato, sendo guiado por ele:
Um pendor da Razão para a infinitude. Prossegue assim a filosofia e homem, negando-se a assumir o absurdo da existência, se isto lhe custar abrir mão de seu atributo mais precioso, a razão.

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