As idéias são reais, objetivas e universais.Verdadeiramente o único inteligível. Acessíveis, pois, pela transcendência do pensamento.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

“Protreptikós – Convite a Filosofia - Aristóteles” - Relação entre a exortação à Filosofia e a Virtude da Simplicidade


Proêmio

Buscamos compreender se há alguma relação da simplicidade enquanto virtude com a exortação que Aristóteles faz à Filosofia em seu texto Protreptikós. Tema que nos foi proposto a partir da aproximação de dois textos que nos serviram de base para o estudo da metodologia do ensino da Filosofia, a saber, o Protreptikós de Aristóteles, e o Petit traité des grand vertu de André Comte-Sponville. Com efeito, da apreciação de um texto filosófico da antiguidade e um contemporâneo, emerge nossa pequena investigação como uma síntese filosófica entre o passado e o presente, na lógica universal da prosa filosófica tendo por corolário esta virtude.

Simplicidade no contexto da Grécia antiga.

Quanto ao tema, a princípio, parece que ele não é possível. Simplicidade no grego contemporâneo απλότητα, e simples no grego antigo, a palavra απλοί, era um termo usado para designar o homem comum, em detrimento da nobreza belicosa como em Homero na figura dos πρόμαχοι, os primeiros na linha de batalha, e no conselho de guerra; na Ilíada diz respeito principalmente aos heróis, como distintos dentre a multidão dos homens comuns.

 “Mas se porventura via um homem do povo metido numa rixa, batia-lhe com o cetro, repreendendo-o com estas palavras: Desvairado! Senta-te sossegado e ouve o que dizem outros, melhores que tu! Não passas de um covarde, de um fraco! Não contas para nada, nem na guerra, nem pelo conselho. Não penses que, aqui, nós aqueus somos todos reis! Não é bom serem todos a mandar. É um que manda; um é o rei, a quem deu o Crônida de retorcidos conselhos o cetro e o direito de legislar, para que decida por todos”.     Homero, Ilíada, II, 198-277 [trad. Haroldo de Campos]

 

No contexto da pólis talvez, para designar o hoplita simples, isto é o cidadão não abastado, mas que podia dispor de recursos suficientes para equipar-se com a panóplia básica para a guerra, a maneira, por exemplo, como Sócrates poderia equipar-se como hoplita, pois sabemos que lutou como hoplita em batalhas da guerra do Peloponeso como relata Platão pela boca de Alcibíades acerca das batalhas de Potidéia e Délio no diálogo do Simpósio, e sabemos também por meio da literatura antiga que pregava uma vida frugal e moderada, como relata Diógenes Laêrtios:

“Ele era capaz de desdenhar quem o ridicularizasse, e se orgulhava de sua vida simples e de jamais haver aceito recompensa de ninguém; costumava dizer que apreciava principalmente o alimento que requeria o mínimo de temperos que considerava mais agradável a bebida que não lhe despertava a vontade de beber mais, e que estava mais próximo dos deuses pelo fato de ter o mínimo de necessidades.”

Diógenes Laêrtios, Vida e doutrina dos filósofos ilustres, (27) pg.54 trad. Mário da Gama Kury.

O modo de vida de Sócrates é em alguma parte eco do caráter de seu tempo e dos valores helênicos de moderação e constância que em muito se assemelham a virtude da simplicidade a título de virtude dos sábios. Por meio de fontes antigas, nos textos de Platão, Xenofontes, e Diógenes Laêrtios, sabemos da relação de Sócrates com o templo de Apolo em Delfos e o oráculo da Pítia que o declarou o mais sábio dos homens. Templo no qual os lendários sete sábios, Tales, Sólon, Períandros, Cleóbulos, Quílon, Bias e Pítacos legaram os famosos aforismos que lá foram inscritos: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”.

Em Diógenes Laêrtios lemos:

“Atribui-se a Sólon a máxima ‘Nada em excesso’.”

Diógenes Laêrtios, Vida e doutrina dos filósofos ilustres, (63) pg.29 trad. Mário da Gama Kury.

A moderação seria a virtude de permanecer na exata medida, com comedimento se afastando de todo e qualquer excesso, é a vida na razão. A razão, na palavra grega Λογος quer dizer a um só tempo fala, proporção e medida.

O oposto da moderação do “nada em excesso”, seria o vitupério; o próprio excesso expresso pelos gregos no conceito de húbris. O excesso que comete àquele que excede seu lugar de direito na partilha do Cosmos realizada por Zeus.

Υβρις é uma transgressão, portanto desmedida, cujo excesso faz o herói trágico sentir na carne o abalo quase cósmico devido à condição humana esmagada pelo peso da finitude que se torna dissonante na harmonia da Φισις, o que cede lugar a fatalidade. Também no âmbito da transcendência o herói expia um juízo terrível do Destino, da vontade fixada acima dos deuses em uma ordem que inclui limites para todos os mortais, em dignidade, glória e sofrimento. Um metro divino de determinações que separa o quinhão de tudo o que existe.

Assim, a própria força do herói tornava-se húbris, eis a tragédia humana, eis o eterno horror que não pode ser evitado; viver é agir e sofrer; viver é ter bem e mal juntos em oposição inconciliável perpetrado pelo próprio agir humano.

 Aquiles: Assim falou a águia, ao perceber as penas na flecha que a perfurava: Então somos abatidas por nossas próprias asas? Ésquilo[1]

O conceito de moderação, de vida na razão e de sabedoria, muito se aproxima do que podemos entender da simplicidade enquanto virtude. Em Aristóteles a própria virtude é pensada como moderação e nada em excesso. Como uma medida equidistante entre dois extremos, um de excesso e outro de falta.

Para uma primeira aproximação da virtude da simplicidade com relação aos gregos antigos e Aristóteles, bastará o que dissemos até aqui.

 

 

 

 

 

 

Simplicidade como virtude em André Comte-Sponville

Em seu pequeno tratado das grandes virtudes[2], André Comte-Sponville diz que a simplicidade é a virtude dos sábios. Ela não é uma virtude que se some à existência, mas é a própria existência enquanto nada a ela se soma.  A simplicidade é a verdade de todas as virtudes, pois as virtudes só são virtudes, enquanto que livres da preocupação de parecer virtuosas, na medida mesma em que superaram a polidez, que é a mera aparência de virtude, sua imitação, e seu início.

A simplicidade é uma retidão da alma que corta qualquer volta inútil sobre si mesma e sobre suas ações, que não é composta em arte, é despreocupada, ocupando-se antes do real do que de si mesma. Sponville diz que a simplicidade é um repouso.

Simples é ser sem desvio ou afetação, sem o desejo de atrair admiração por meio de artificialidade em detrimento do que lhe é natural. O simples faz o que faz naturalmente. A virtude da simplicidade visa tornar excelente o existir; tornando-o existir bem. Existir bem em unidade de si mesmo, sem duplicidade, espontâneo e com naturalidade. O contrário do ser é o duplo e não o nada, o simples não se duplica, seja se conhecendo, julgando ou pensando sobre si. O simples faz o que faz como respira, não nega o pensamento, mas se reconhece, em não o negando, ir para além dele, libertando-se sem deixar-se enganar.

Existir na verdade, tendo na simplicidade um remédio contra a refletividade e intencionalidade da consciência, para que como antídoto da reflexão e da inteligência, essas não se percam lhe atribuindo muito valor, perdendo de vista o próprio real que pretendem conhecer, a própria contemplação da verdade. A consciência é por natureza um duplo, a intencionalidade enquanto consciência de um objeto e refletividade enquanto consciência que toma dele.

A simplicidade se relaciona com a humildade devido a um aspecto seu de transparência; a humildade pensada como amor a verdade em detrimento de si, ser de algum modo uma virtude que se conhece em sua própria ausência, no sentido de que o primeiro passo, em direção à humildade, é o reconhecimento de que ela nos falta. Isso a faz parecer de algum modo como um paradoxo, o que implica uma duplicidade devido a um constante julgamento de si, levando-se muito a serio; e nada é mais contrário à simplicidade, do que a gravidade e a duplicação de si, por meio de tal reflexão. Agora veremos como esses pontos podem estar presentes no texto de Aristóteles entendido de maneira fiel, pois de nada vale uma relação abstrata em uma universalidade formal, onde tudo se relaciona com tudo, e não saímos da onde estamos. A universalidade e a lógica do discurso filosófico supõe por essa razão, fidelidade ao pensamento do filósofo, rigor e precisão.

 

 

 

Simplicidade no Protreptikós de Aristóteles.

De fato, Aristóteles não fala no Protreptikós[3] diretamente da virtude da simplicidade ou de algo que se assemelhe a ela com o que entendemos, sobretudo naquilo em que ela poderia se relacionar com a humildade e com o que pensa André Comte-Sponville. Parece inclusive, que a humildade pensada como virtude, era até mesmo inexistente para o grego antigo; ao menos como a entendemos nos dias de hoje.

Entretanto, no sentido em que a simplicidade condiz com o existir bem, sendo a virtude própria do sábio, então se abre para nós, todo um novo entendimento sobre esta virtude.

No Protreptikós a sabedoria é a virtude própria da alma racional em sua parte mais nobre, aquela que exerce a inteligência e contempla a verdade dos seres. A inteligência é uma operação que se assemelha a visão com os objetos visíveis, mas com os objetos inteligíveis. Isso porque a alma também possui uma parte irracional que se relaciona enquanto princípio de movimento com outras partes que constituem o homem como um todo, bem como seus nove sentidos (cinco externos e quatro internos) e suas potencias de nutrição e crescimento.

Aristóteles diz que quando o todo é verdadeiro, a parte é falsa, quando a parte é verdadeira o todo o é, com isso queremos significar que a divisão da alma é uma intelecção, o é para a nossa compreensão. A alma do homem, enquanto princípio de movimento é a sua unidade e própria integridade, entendida como forma do corpo.

Um homem é uma substância que tem o corpo como causa material e a alma como causa formal, seus pais como causa eficiente, e a virtude como a sua causa final.

A virtude é causa final do homem, pois constitui a perfeição da coisa naquilo que é.

Essa noção já é presente no texto do Protreptikós, ainda que no texto, Aristóteles não faça uso explícito das quatro causas que lemos nos livros da Metafísica ou das divisões que enuncia no livro sobre a alma, mas não obstante, no convite à Filosofia, a natureza já é teleológica, isto é, já obra gerando as coisas com vistas a um fim, como a arte que sempre age visando um objetivo nada produzindo ao acaso, e no texto, Aristóteles diz que é a arte que imita a natureza e não o contrário.

“A natureza como um todo como se fosse dotada de razão, nada produz ao acaso. Pelo contrário, produz tudo com vistas a um objetivo: banindo o acaso, ela se preocupou mais com o objetivo do que as artes, pois estas, todos sabem, são imitações da natureza.” Protreptikós pg.155

O bem de uma coisa é aquilo para o qual a coisa tende, constituindo sua finalidade única e perfeita, que é determinada quando a coisa é engendrada pela natureza, a fim de exprimir a excelência das qualidades próprias dessa sua natureza. Todas as artes e todas as ciências agem visando um objetivo que é bom. São dirigidas para o bem, pois a vontade racional do homem tem o bem como seu objeto primeiro. O bem como essa finalidade única e perfeita, constitui para o homem a felicidade que deve ser buscada por si mesma, consistindo sua especificidade na atividade de sua alma de acordo com a virtude; que é no homem viver em conformidade com sua parte mais perfeita.

A virtude, portanto, não é uma disposição natural, é uma excelência, um esforço, por ser disposição adquirida voluntariamente. É o estado de disposição contínuo de agir moralmente. A virtude é um hábito adquirido, uma qualidade que aperfeiçoa uma potência natural da alma humana para que ela possa realizar de maneira exitosa aquilo para o qual foi disposta por natureza. As virtudes são o dever ser do homem:

“O objetivo pelo qual uma coisa foi engendrada é, portanto o mesmo que aquele pelo qual ela deveria ser engendrada: por exemplo, se um navio devesse ser engendrado com vistas a um transporte marítimo, é também por essa razão que ele foi engendrado.” Protreptikós pg. 153

Com efeito, o bem é causa final das coisas, e as virtudes, essas qualidades específicas, estão na natureza enquanto finalidade natural das operações da alma. São engendradas pela natureza que age determinando fins e sentido a tudo o que existe. Ora se as virtudes são a excelência das operações naturais, e são desejadas por si mesmas, isto é, são causa final do homem, e sua felicidade, os valores têm seu fundamento na natureza.

Não são causa eficiente que conduzem ao bem, são o próprio bem do homem na medida em que a operação ou sua atividade identifica-se com sua felicidade. Por isso mesmo os valores não podem ser obra do acaso. E é precisamente nessa simplicidade que reside o fim último do homem e sua felicidade; o bom uso e a atividade de sua melhor parte, a simplicidade é para o homem uma virtude, na medida em que ele vive na unidade de si em sua melhor parte:

“Ocorre que são múltiplas e diversas as operações daquilo que é composto e constituído de partes, ao passo que, daquilo que é simples por natureza e cuja substância não consiste numa relação com qualquer outra coisa, só há, necessariamente, uma única virtude soberana. (...) Se, portanto, o homem é um animal simples e se sua substância é ordenada em conformidade com a razão e com a inteligência, sua obra é nada mais nada menos do que a mais exata verdade e o verdadeiro julgamento sobre os seres. E se é composto de capacidades múltiplas, está claro que para aquele que realiza naturalmente várias coisas, é sempre a melhor delas que é sua própria obra: por exemplo, a obra do médico é a saúde, e a do timoneiro a preservação [do navio].” Protreptikós pg. 167

O acaso para Aristóteles, Τυχε, é o produto de um encadeamento de causas eficientes de finalidade alheia, portanto não pode ser fim determinado de coisa alguma, em outras palavras não é bom; e se é bom, não é tão bom quanto aquilo que é engendrado em conformidade com a natureza.

“Pois, mesmo que possa acontecer de algo bom vir também do acaso, em conformidade com o acaso e na medida em que vem do acaso, não é bom (o que é engendrado em conformidade com o acaso é sempre indeterminado).” Protreptikós pg. 152

A vida na razão e o exercício da sabedoria pressupõem a simplicidade, como unidade na razão e como veracidade de todas as outras virtudes das potências humanas. A simplicidade consiste também na vida conforme a natureza, e vivendo em conformidade com a natureza, é que o homem se dá conta do que consiste a sua realização de acordo com aquilo para o qual foi ordenado.

 “É, portanto, uma certa sabedoria que é, em conformidade com a natureza, nossa realização, e exercer a sabedoria é o objetivo último pelo qual fomos engendrados. Por conseguinte, se fomos engendrados, é claro que existimos também para exercer a sabedoria e para nos instruir.” Protreptikós pg. 154

O repouso que implica a virtude da simplicidade pode ser entendido como aquilo que devemos buscar em si mesmo, em nosso dever ser, na medida em que não nos esvaímos e nos perdemos na multiplicidade das coisas úteis e causas auxiliares de outras coisas.

A inteligência e a consciência como demonstramos mais acima, ao nos confundirem em função do excesso próprio de seu exercício, quando operam sem a simplicidade, perdem de seu horizonte aquilo mesmo que constitui o objetivo de seu exercício, que é soberanamente bom e desejável em si mesmo, perdem de vista a simplicidade do real, isto é a própria verdade. O simples amará aquilo que é um bem desejável em si mesmo, pois de fato aquilo que só se adquire em função de outra coisa, se constitui para o homem na aparência de bem, ou afetação de bem e, portanto não é bom e belo.

“Mas esforçar-se para ver que toda ciência engendra outra coisa [que não seja ela], bem como para ver que ela é necessariamente útil, isso é coisa de gente que ignora por completo a que ponto o bem e o necessário estão separados desde o princípio. Pois eles diferem o máximo possível. Efetivamente, entre as coisas sem as quais é impossível viver, aquelas que amamos por outras coisas devem ser chamadas de coisas necessárias e causas auxiliares, ao passo que aquelas que amamos por si mesmas, quando realmente nada mais delas sairiam, é preciso chamar de coisas soberanamente boas. Porque isto não é digno de ser escolhido por aquilo e assim sucessivamente (progredindo assim, vamos ao infinito!), mas paramos em alguma parte.” Protreptikós pg. 160

Nesse sentido a simplicidade como virtude poderia se constituir em Aristóteles na vida boa, isto é na própria existência enquanto nada a ela se soma, conquanto esta simplicidade nos permita viver em conformidade com a parte mais perfeita de nós mesmos que é princípio divino da razão contemplativa, o exercício da sabedoria, a ciência que tem por objeto as primeiras causas e os primeiros princípios com leremos na metafísica (livro A, 1, 982ª), sendo o que há de mais elevado no conjunto das ciências e dificilmente acessível à maioria dos homens. O sábio, este hábil e intelectual, na medida em que na simplicidade de sua vida centrar-se na atividade de sua melhor parte e realizando uma existência boa, amando aquilo que é passível de ser amado por si mesmo, existirá no maior grau possível quando viver a contemplar o sumo bem que é o objeto primeiro da vontade racional e fim ultimo da sabedoria; a contemplação do primeiro motor, o ser necessário e princípio do pensamento autônomo, o ato subsistente que é Deus. Se toda a ciência e arte obram visando o bem, o objeto da sabedoria que é o conhecimento das primeiras causas e princípios é a contemplação do Princípio de tudo quanto há.

O primeiro movente imóvel, que no Protreptikós se nos monstra como o ser mais passível de conhecimento:

“Todavia, se para todo animal a vida é exatamente o mesmo que a existência, então é óbvio que é o sábio que, dentre todos, existirá no mais alto grau e o mais soberanamente, e , mais do que em qualquer outro momento, quando estiver com as mãos à obra e quando estiver contemplando o ser mais passível de conhecimento.” Protreptikós pg. 173

Aquele que existir no mais alto grau e soberanamente entre os homens, chamar-se-á feliz, e não o poderá realizar sem uma vida simples, na medida mesma em que essa simplicidade implica em uma vida sábia, moderada, pois tem a razão como medida e proporção de alinhamento de toda sua alma em todas as partes que é composta. E tampouco sem o exercício daquela que Aristóteles chama de a mais sublime das atividades humanas no qual todas as outras lhe poderão ser mais úteis mais de modo algum superior, a Filosofia e que embora não é causa auxiliar nem produtora de nada é por isso mesmo soberanamente boa e desejável entre as ciências por si mesma identificando-se com a virtude da sabedoria, pois consiste na vida em seu percalço e amor, e em nossa felicidade:

“Esta ciência [a sabedoria] é, portanto, contemplativa, mas nos permite ser artesãos de tudo em conformidade com ela. É como a visão: não é produtora de nada, nem artesã de coisa alguma (pois seu único trabalho é julgar e mostrar todas as coisas visíveis), mas nos permite agir graças a ela e nos ajuda enormemente em nossas atividades (pois, sem elas, estaríamos quase totalmente imobilizados... Pois não ficamos sãos aprendendo a conhecer as coisas que produzem a saúde, mas aplicando-as ao nosso corpo. Do mesmo modo, não ficamos ricos conhecendo a riqueza, mas adquirindo uma grande fortuna. E o que é mais importante de tudo:  não levamos uma vida boa conhecendo alguns seres, mas agindo bem. Pois nisso consiste ser verdadeiramente feliz. Por conseguinte, também a Filosofia, se é verdade que ela é vantajosa, deve ser ou exercício de boas atividades, ou uma coisa útil para essas atividades.”

Protreptikós pg. 164

Assim no convite à Filosofia de Aristóteles a vida do sábio é simples e prazerosa, pois para ele o próprio fato de viver é prazeroso, pois eis que vive simplesmente bem, e somente ele entre os homens realiza a felicidade da vida, pois tudo para ele é na medida da razão, e nada é em excesso, portanto somente o sábio é feliz, e o filósofo é aquele que mais concorre para essa felicidade. Seu próprio filosofar é exercício de reproduzir a felicidade em sua alma e também por essa razão, em Aristóteles a simplicidade é a virtude dos sábios.

“Do mesmo modo ainda, diremos que é prazerosa a vida cuja presença é prazerosa para aqueles que a possuem, e que vivem prazerosamente, não para todos aos quais há simples coincidência entre viver e gozar, mas sim para aqueles aos quais o próprio fato de viver é prazeroso e que gozam do prazer da vida.” Protreptikós pg. 174
Acerca da simplicidade em Aristóteles e a relação que pretendíamos estabelecer, é o bastante o que dissemos até aqui.


[1] Szondi, Peter, Ensaio sobre o trágico, tradução Pedro Sussekind, Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 2004 pg. 88
[2] Comte-Sponville, André, Pequeno tratado das grandes virtudes, tradução Eduardo Brandão, São Paulo, Martins Fontes, 2002.
[3] Aristóteles, “Da geração e da corrupção – Convite à Filosofia”, tradução Renata Maria Pereira Cordeiro, São Paulo, Ed. Landy, 2001.

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