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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

“Pequeno tratado das grandes virtudes – André Comte-Sponville” - Exposição sobre a Virtude da Simplicidade


Que é virtude para André Comte-Sponville?
André Comte-Sponville aceita o conceito de virtude, pensada pela tradição filosófica ocidental como excelência; arethé pelos gregos e virtus pelos latinos. Tomando na história da Filosofia conceitos de Espinoza, Montaigne e Aristóteles.
Desse modo a virtude é uma força que age ou pode agir; e o virtuoso é aquele que possui uma maneira de ser, adquirida e duradoura, excelente; uma disposição adquirida de fazer o bem. A virtude de um ser é então aquilo que constitui o seu valor.
 Entretanto em sua definição, Sponville pensará a virtude como um poder no sentido geral e o poder e o esforço de agir humanamente, onde o ser humano nos parece mais excelente e transbordante de humanidade. É a excelência própria do homem, enquanto poder específico que tem de afirmar pelo seu agir essa sua excelência, isto é, sua humanidade.
A virtude é o esforço de se portar bem, que define o bem em seu próprio esforço.  O bem não é para se contemplar é para ser feito, o bem absoluto ou em si, não existe, existem os bens plurais que sempre estão para ser feitos e a isso damos o nome de virtudes.
As virtudes são sempre singulares como cada um de nós e sempre plurais como nossos valores morais encarnados quando em ato, nas fraquezas que combatem, as virtudes como cruzamento da “hominização” e humanização, isto é, cruzamento entre o natural biológico e o cultural na história humana.
A virtude é a própria essência do homem enquanto tem o poder de fazer certas coisas que se podem conhecer pelas leis da natureza.
As virtudes então supõem em seu estudo, objetos no qual o agir humano seja excelente e possam definir como bens dotados de valor.
A virtude da Simplicidade:
A virtude da simplicidade possui um conceito nada simples, mas não obstante o trabalho da inteligência para Sponville é tornar simples aquilo que por sua própria natureza é complexo, e é deste modo que ele tributa bom senso aos cientistas que apostam na simplicidade do real. É o que pensa também Albert Einstein quando diz ter aprendido no escritório de registro de patentes, que coisas imensamente complexas podem ser reduzidas sem serem traídas, a proposições mais simples, e também foi ele que nos disse que a solução inteligente é sempre a mais simples. Disse-nos, e provou suas palavras, legando-nos uma expressão inconteste de simplicidade e beleza acerca de um assunto sumamente complexo. A complexidade do real em uma simples fórmula. A equivalência de massa e energia na relatividade especial. A equação física que tornando-nos tangível a relação da luz com a matéria, transcende na história da ciência a ação imorredoura do gênio científico humano, assinalando-a na eternidade. Eis a beleza da simplicidade, comportando a complexidade do real, a descoberta de um pensamento de Deus; E=MC².
 
 
Sua relação com a humildade:
A simplicidade se relaciona com a humildade devido a um aspecto seu de transparência; a humildade pensada como amor a verdade em detrimento de si, ser de algum modo uma virtude que se conhece em sua própria ausência, no sentido de que o primeiro passo em direção a humildade é o reconhecimento de que ela nos falta, isso a faz parecer de algum modo contraditória, o que implica uma duplicidade em um constante julgamento de si levando-se muito a serio; e nada é mais contrário a simplicidade do que a gravidade e a duplicação de si por meio da reflexão.
Como definiríamos a simplicidade?
A simplicidade diz Sponville, não é uma virtude que se some à existência, mas é a própria existência enquanto nada a ela se soma. Pg.163
A simplicidade é a verdade de todas as virtudes, pois as virtudes só são virtudes enquanto que livres da preocupação de parecer virtuosas, na medida mesma em que superaram a polidez, que é aparência de virtude, imitação e seu início.
A simplicidade é uma retidão da alma que corta qualquer volta inútil sobre si mesma e sobre suas ações, que não é composta em arte, é despreocupada, ocupando-se antes do real do que de si mesma. A simplicidade é um esquecimento de si em oposição ao narcisismo.
A simplicidade é o esquecimento do orgulho e do medo, alegria e leveza espontânea contra preocupação e reflexão grave. Sponville a chama de infância como virtude, infância do espírito onde a inocência faz às vezes da misericórdia. Julgar-se é dar perpétuas voltas sobre si mesmo.
E o contrário do ser não é o nada, mas sim o duplo. Simples é ser sem desvio ou afetação, Isto é sem o pedantismo ou o desejo de atrair admiração por meio de artificialidade em detrimento do que lhe é natural. Pureza e candura própria que não é composta com o que lhe é externo.
A simplicidade medeia o simplório e o sofisticado. Medeia em justa medida a ingenuidade daquele que em sua inconsciência olvida a complexidade do real em vão tentando anulá-la com sua misologia; e aquele que é intelectualmente rebuscado, que tem o espírito adulterado com sutilezas e o requinte de sofismas acerca de si e as coisas que são.
Sponville nos diz que o contrário do simples não é o complexo, mas sim o falso. De fato ele argumenta que o real é de uma profunda simplicidade na medida mesma em que possui uma infinita complexidade. A simplicidade de algum modo é pareada pelo complexo.
Falar a língua materna é como que jogar cartas no veludo negro onde toda a mágica é possível, aprender a gramática e adquirir fluência em uma língua estrangeira é de uma complexidade inefável.
Que contrário do simples seja o falso não decorre que o simples seja o verdadeiro, muito menos a verdade, é até mesmo a verdade das virtudes, mas com isso Sponville quer dizer que a simplicidade nos dá a impressão de que dela só podemos nos aproximar indiretamente, pois ela não é a pureza, nem a sinceridade, nem a retidão.
É possível ser sincero sem, no entanto ser simples. Basta querer ser simples e conseguimos nos afastar da simplicidade. Estudando-nos e nos medindo, nos afastamos dela. E mais, a simplicidade também não implica que seja necessário impedir-se de pensar em si.
Os princípios muito simples e evidentes em detrimento de um obscurantismo que nos impede de ser refutados fazem da simplicidade uma virtude também intelectual.
Schopenhauer fala daqueles que buscando esconder ideias tolas e mesquinhas por meio de racionalizações e rebuscamentos, são semelhantes aqueles que se empanam com ornamentos e lantejoulas bárbaras, a fim de dissimular a própria fealdade, e quando comparados a pensamentos belos e munidos de simplicidade e clareza, opõem-se a estes que são antes como a beleza do corpo nu levemente coberto da antiguidade.
Toda virtude sem simplicidade torna-se pervertida pelo excesso que acarreta ser cheia de si e tornam-se como que esvaziadas de si mesmas. Em contrário a simplicidade verdadeira, apesar de não suprimir os defeitos torna-os mais aceitáveis. A simplicidade é a verdade das virtudes e a desculpa dos vícios, muito mais no sentido da sedução do que da justificação que fique claro.
Que bem pratica aquele que é simples?
O que a virtude da simplicidade visa tornar excelente? Que ação realiza?
No sentido do subjectum latino e do hypokeimenon grego, qual é o sujeito da simplicidade?
Que ela como qualidade adquirida e duradoura nos faz realizar bem?
Qual é o objeto da simplicidade?
Ora objeto da simplicidade é a existência.
Logo, o simples é aquele que existe bem.
Lembremo-nos que Sponville diz que a simplicidade é um repouso.
Mas o que vem a ser isso, que é existir bem?
Existir na unidade: de si mesmo: Sem duplicidade. Sem afetação, não na aparência, mas com espontaneidade e naturalidade. O contrário do ser é o duplo e não o nada, o simples não se duplica, seja se conhecendo, julgando ou pensando sobre si faz o que faz como respira, o simples não nega o pensamento, mas se reconhece em não negando-o ir para além dele libertando-se sem deixar-se enganar. Representando um cubo por meio de um desenho em um papel e indagados sobre o que é aquilo, dizemos prontamente que se trata de um cubo, muitas vezes nos esquecendo de que se trata antes de um papel rabiscado, e assim o pensamento se duplica e se substantiva como o Frankenstein que ganha a vida, lembremo-nos da pintura de René Magritte, “Isto não é um cachimbo”.
Existir na verdade: A simplicidade como remédio contra a refletividade e intencionalidade da consciência para que como antídoto da reflexão e da inteligência, essas não se percam lhe atribuindo muito valor, perdendo de vista o próprio real que pretendem conhecer. A consciência é por natureza um duplo, a intencionalidade enquanto consciência de um objeto e reflexividade enquanto consciência que toma dele. Para Sponville há a simplicidade do real e da vida e mesmo de uma consciência pura e pré-reflexiva e anti-predicativa, sem o qual nenhuma predicação e reflexão seriam possíveis. No conhecimento há um momento primeiro, quase como que fossemos um só com a coisa que percebemos um instante de quebra no tempo ou na consciência dele, onde o azul do mar egeu de Atenas é percebido como se fossemos parte dele, é muitas vezes assim que até nadamos no olhar de alguém, quando uma percepção nossa tem uma qualidade de sentimento se nos mostrando imensurável e fechada num eterno presente. Na fenomenologia de Peirce a isso conhecemos pelo nome primeiridade.
Existir no desprendimento: A simplicidade é espontaneidade e desprendimento e nisso ela é existir como coincidência imediata consigo. É nisso em que consiste ela ser aérea, e nos dar a provar os ares da liberdade. É nada ter a provar nem a reprovar; não ter segundas intenções, ser despreocupado sem, no entanto ser descuidado, é ocupa-se do real. Não é proibido semear nem colher, mas para que se preocupar com a colheita quando se semeia diz Sponville. Por que ter saudades da semeadura quando se colhe? Quando nos ocupamos das coisas muitas vezes são elas que nos ocupam quando nos falta a simplicidade, ao invés de possuirmos o que fazemos, somos possuídos pelo que fazemos. A natureza é paixão, é corpo. Viver é sofrer e o homem é força que determina e é determinada; se a simplicidade não for desprendimento, tudo corre o risco de ser hipostasiado (substantivado) no espírito. Como Narciso, nos apaixonamos por nosso próprio reflexo, e despencamos para nossa perdição.
Existir como presente: Parece-nos incorrer em grave defeito o pensamento daquele que nunca está onde está ele. A simplicidade é virtude do presente, livre e aérea, sem a imutabilidade do passado e sem as complicações das projeções do futuro, nada é simples a não ser o presente. Dentre os sentimentos que são equívocos e as ações que são suspeitas o simples deve manter o coração leve. É assim que os que amam com ironia perduram, e os que acreditam duvidando filosofam.
“Vamos aqui e ali, a procura de uma alegria por toda parte em migalhas, e o saltitar do pardal é nossa única possibilidade de saborear Deus espalhado no chão.”
É assim que em André Comte-Sponville a simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos.

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