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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Nietzsche Crepúsculo dos Ídolos: Moral como manifestação contra a natureza.



 
A ópera Gotterdämmerung (O Crepúsculo dos deuses) de Richard Wagner é o último ato da tetralogia do Anel dos Nibelungos.
No terceiro ato de O Crepúsculo dos deuses, Siegfried é morto traiçoeiramente por Hagen, que desejando tornar-se senhor do ouro do Reno, cuja posse detém aquele que possui o anel, crava-lhe uma lança às costas quando este observava dois corvos que se aproximavam do Reno.
O ápice da ópera e o gran finale é o fogo devorador que se ergue sob o Reno para engolir o anel maldito e imiscuir-se com a pira funerária de Siegfried, onde Brunhild se imola por amor; e os próprios deuses do Valhala conhecem seu ocaso por meio das chamas que consomem a paliçada de freixo e o castelo de Odin.
É a espiritualização da paixão por meio da redenção do amor.
O verdadeiro amor se afirma derradeiro sempre junto à morte, assim como em Tristão e Isolda os amantes impossíveis.
O Crepúsculo dos Ídolos de Nietzsche é um texto filosófico que faz emergir do fogo heraclítico do devir o retorno da fúria pagã, cujo símbolo nórdico, o martelo de Thor, deus do trovão, é a força criadora que o duro olhar, o olhar do Destino, passa diante de si tudo o que até então veio a ser sacrossanto no pensamento do Ocidente cuja bigorna é o Homem.
É o filosofar com o martelo. A filosofia iconoclasta que exige o olhar filosófico inexorável, olhar de Destino para se afirmar.
Todo criador é a um só tempo um destruidor, a transvaloração dos valores exige o filosofar com o martelo; o firme sim dado a si mesmo pela vida, a partir da negação, e depois da negação da negação, mas não culmina na superação da aufhebung hegeliana; não há redenção, a negação da negação é o sim do despedaçar do martelo, o sim dionisíaco da superação da ubervendung; da vitória que exige o aniquilamento prévio do derrotado, não a imolação do cordeiro, mas o calcar os pés do ídolo.
É por isso que o Dioniso que só podemos ver em Nietzsche é o Zagreu, aquele que foi despedaçado pelo trovão, para depois ser gestado na coxa de Zeus.
A espiritualização da paixão, o amor é feito cristão. No Crepúsculo dos Ídolos figura na história de um erro, de uma idéia dissimulada e refinada, uma verdade tornada mulher e a um só tempo um atentado ao pudor e uma manifestação contra a natureza.
Não é o caso da arte. Ela também pode espiritualizar uma paixão.
Antes, perguntamos o que poderia vir a ser a espiritualização da paixão?
Nietzsche dá uma idéia:
A espiritualização da paixão é a sensualidade tornada em amor.
É a passagem do movimento na alma (psiche) do impulso erótico tornado em caridade.
A transfiguração do Eros em Ágape.
Uma das capacidades do espírito é a abstração.
Um processo do intelecto agente, como diria Aristóteles, de perceber a forma (eidos) sem matéria, isto é, separar a partir da sensibilidade (aisthesis) sua forma cujo resultado é o conceito (noema).
A espiritualização da paixão é a sublimação do instinto em conceito.
O que na arte é belo porque faz parte da idealização, e como Nietzsche a compreende é embriaguez no sentido apolíneo ou dionisíaco; um processo no qual o sentimento de plenitude e aumento de força faz como que nos abandonemos às coisas, as enriquecendo e as transformando até que sejam o reflexo inflamado e sobrecarregado de nossa força.
Por essa razão que o espírito anti-artístico por natureza é o espírito concreto, que em submissão e fatalismo se prosterna querendo ver as coisas como são, e pior ainda, humanizando-as naquilo que possuímos de pior; que são nossos signos de degenerescência.
Querendo ver uma vontade nas coisas mesmas, já que somos por fraqueza incapazes de dotar as coisas com a nossa própria vontade, buscando ver um sentido nas coisas mesmas, donde a natureza é puro acaso; é o princípio de toda fé.
Belo e feio são juízos de vaidade da espécie humana, é o homem que sobrecarrega a natureza de tais sublimidades.
São representações sob uma forma humana, ampliações de si, se pondo como medida de perfeição.
O sentimento de altivez, a coragem, sua vontade de poder, todo estado interno que o homem experimenta estão acumulados nos instintos e tudo isso diminui com o juízo de feio e cresce com o juízo de belo.
Com o feio surge o ódio ao rebaixamento de seu tipo, tudo o que é feio enfraquece e deprime. É por isso que a beleza não pode ser desagregada dos instintos como fazem Kant e Schopenhauer, lhe rendendo à ideais ascéticos de desinteresse.
Não pode para Nietzsche haver o belo em si e nem a beleza como uma redenção da vontade.
A estética de Kant e Schopenhauer, a música de Wagner, são nesse sentido espiritualizações da paixão, na medida em que rendem tributo ao ideal ascético cristão e são manifestações contra a natureza e os instintos de vida.
E o que são os instintos?
Sua máxima subjetiva demonstra já um julgamento dos que já estão julgados ou um julgamento de força.
Tudo o que é certeiro é o julgamento da força.
“Não consigo mais encontrar meu interesse”.
É a máxima que se revela como sintoma da completa ruína e desagregação dos instintos.
E é justamente o que faz a Igreja Católica e o cristianismo, que longe de promover uma espiritualização da sensualidade, se vale de um método de combate às paixões e aos instintos vitais como uma condenação ruidosa e descarada ou ora velada com um princípio castrador.
A moral anti-natural enquanto ódio contra a sensualidade é um indício de tal gravidade que justifica seu questionamento, e para Nietzsche paira sobre a luta contra os desejos daqueles muito fracos de vontade e degenerados dos instintos que necessitam de meios de combate radical.
A incapacidade de resistir a um estímulo, à uma sedução é uma forma de degenerescência e de embrutecimento do espírito, que não é mais artístico, de instinto criador e sublimador que se pergunta como por a paixão a trabalhar, como embelezar ou divinizar uma paixão, como mover-se da mais baixa sensualidade à mais alta espiritualidade, e é por essa incapacidade que Nietzsche diz que a práxis da Igreja é nociva à vida, pois atacar a paixão em sua fonte é envenenar a própria fonte da vida.
O indivíduo de qualquer forma que seja considerado é uma fatalidade, faz parte do todo da natureza, é dela uma determinação a mais, é uma parcela de Destino; dizer-lhe para mudar sua natureza é o desejo de transformação de tudo, é a manifestação contra natural de uma moral que apregoa que na vida nada vale.
É nesse sentido que o esforço é uma objeção; quando é contra natural.
A marcha da moral é a marcha com pés de ferro que leva o espírito do pesadume às costas.
Não é o esforço heróico da grandeza, radicado nos corações fortes.
Coração de leão, rico em virtudes viris. O esforço heróico, como em Hegel é a grandeza que não se faz sem paixão.
Mas não a paixão degenerescente, que não possui vontade firme, que não retém a mão; é aquela serena-jovialidade, apolínea e criadora por excelência.
Essa paixão que se move com os pés ligeiros, que é atributo do glorioso Aquiles dos pés ligeiros; uma mão à espada e a outra à lira.
A serena-jovialidade que se move com os pés de lã no coração do homem, instintiva e natural, que o faz a um só tempo criador e obra de arte.
São esses pés ligeiros que são o atributo da divindade.

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