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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Linha do Tempo da Educação dos surdos e Apendíce: Audição na Metafísica de Aristóteles


Linha do Tempo dos direitos à educação dos surdos e o reconhecimento da Língua de Sinais no bilinguismo cultural como seu mais adequado meio de inclusão social.
2010 – Regulamentação na legislação brasileira da profissão de tradutor e intérprete de LIBRAS.
 
2005 – Inclusão de Libras na grade curricular estudantil brasileira por meio do decreto nº 5626.
 
2002 – No Brasil dois decretos de lei fundamentais para a ascensão e o balizamento do bilinguismo na educação dos surdos reconhecendo a LIBRAS oficialmente como a segunda Língua brasileira:
 
BRASIL. Decreto nº 5626. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe
sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro
de 2000. Publicada no Diário Oficial da União em 22/12/2005.
____. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Lei nº 10.436, 24 de abril de
2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências.
1993 – Projeto de lei brasileira para o reconhecimento da língua brasileira de sinais.
1989 – A Filosofia da comunicação total surge no Brasil em decorrência dos fracassos igualmente perpetrados pela educação estritamente oralista, cujos pensadores brasileiros voltaram seu olhar para a história da educação dos surdos em outros países.
1983 – Início e concretização do bilinguismo na Suécia, primeiro pais a reconhecer politicamente os surdos como uma minoria linguística com direitos políticos assegurados a educação em língua falada e de sinais.
1979 - Estabelecimento do status linguístico das línguas de sinais como próprias dos surdos compreendidos como um povo de cultura autônoma por meio das concepções linguísticas e antropológicas dos estudos dos autores Klima & Bellugi; concepção esta já defendida na psicologia experimental de Wilhelm Wundt em 1911 e em 1960 nos pioneiros estudos de Stokoe.
1970 – Surgimento da língua americana de sinais (ASL).
1960 – Ascenção da filosofia educacional da comunicação total em oposição ao método oralista tradicional, advogando todos os meios disponíveis para o objetivo maior do desenvolvimento da linguagem em surdos, inclusive o uso de sinais, a partir das grandes deficiências constatadas na educação da comunidade surda e das pesquisas iniciadas por Stokoe na Dinamarca os estudos sobre a estrutura linguística da língua de sinais.
1911 – O psicólogo experimental Wilhelm Wundt defende concepções linguísticas e antropológicas da língua de sinais como própria dos surdos entendidos como um povo com uma cultura autônoma.
1880 – Congresso de Milão onde os especialistas na até então educação em desenvolvimento para surdos, estabeleceram como dominante o método oralista como o mais adequado para a educação dos surdos; escolhido a partir de duas grandes teorias e métodos de ensino dos surdos, originados na segunda metade do século XVIII; que eram o método francês de sinais de L´Epée em Paris, e o método alemão oralista de Heinicke em Hamburgo. O congresso proibiu a utilização do uso de sinais como prejudiciais à oralização dos surdos além da proibição de professores surdos; o que se mostrou desastroso para a educação da comunidade surda, que desenvolveu-se com graves prejuízos em relação à educação ouvinte.
1857 – Fundação no Brasil do Instituto nacional de educação de surdos (INES) primeira escola de surdos no Brasil onde por meio da simbiose da língua francesa de sinais e a antiga língua brasileira de sinais teve início o desenvolvimento do que viria a ser no futuro a LIBRAS.
1850 – O surgimento de duas importantes teorias metodológicas sobre a educação dos surdos o método francês de sinais de L´Epée surgido em Paris e o método oralista da educação para surdos na Alemanha de Heinicke em Hamburgo.
1740 – Abertura da primeira escola para surdos em Paris onde os surdos aprendiam três línguas distintas incluindo a de sinais.
Os períodos da antiguidade clássica, idade média, renascença e idade moderna até o século XVIII constituem em linhas gerais tempos onde a comunidade surda sofria grave privação de direitos políticos e sociais sendo deixada às margens da sociedade. Entretanto sua educação e papel social sempre foram objeto de consideração filosófica e teológica principalmente em considerações acerca de sua formação cognitiva e salvação espiritual em relação a ouvir a palavra de Cristo.
APÊNDICE: Breve comentário sobre a audição no livro A da Metafísica de Aristóteles.
“Todos os homens, por natureza, tendem ao saber. Sinal disso é o amor pelas sensações. De fato, eles amam as sensações por si mesmas, independentemente da sua utilidade e amam, acima de todas, a sensação da visão. Com efeito, não só em vista da ação, mas mesmo sem ter nenhuma intenção de agir, nós preferimos o ver, em certo sentido, a todas as outras sensações. E o motivo está no fato de que a visão nos proporciona mais conhecimentos do que todas as outras sensações e nos torna manifestas numerosas diferenças entre as coisas. Os animais são naturalmente dotados de sensação; mas em alguns da sensação não nasce a memória, ao passo que em outros nasce. Por isso esses últimos são mais inteligentes e mais aptos a aprender do que os que não tem capacidade de recordar. São inteligentes, mas incapazes de aprender todos os animais incapazes de ouvir os sons  (por exemplo a abelha e qualquer outro gênero de animal desse tipo); ao contrário, aprendem todos os que, além da memória, possuem também o sentido da audição.”  
ARISTÓTELES, “METAFÍSICA” Texto bilíngue grego- português, tradução do grego para o italiano Giovanni Reale e do italiano para o português Marcelo Perine, Edições Loyola, 2ª ed. 2005, vol. 2 in 980a 25 980b 25.
Devemos sempre ser prudentes no exame de textos da antiguidade, sobretudo os filosóficos. O lógos filosófico (palavra que quer dizer ao mesmo tempo proporção, medida, discurso e razão) transporta uma perene universalidade no tempo lógico, pois busca falar a partir do que é eterno e considera seus objetos sob a perspectiva de sua inteligibilidade intrínseca respondendo a pergunta filosófica “que é isto?”; isto é, a reflexão filosófica indaga pelas causas e pelos princípios, mas considerando seu problema ou seu objeto do ponto de vista de sua inteligibilidade intrínseca, ela discorre tentando responder como a substância está presente na inteligência, em sua essência. Segue-se daí a pertinência de considerarmos um logos filosófico para responder uma questão que não foi colocada pelo filósofo, ainda que seja possível tal aproximação devido à universalidade das considerações. Pode-se prescindir de algumas sutilezas, não obstante, a completa aniquilação delas inviabiliza o filosofar, pois a pura generalização se afasta do logos filosófico, ao qual é mais característico a especificidade.
De acordo com este pequeno trecho do livro A da Metafisica o que nos seria lícito inferir acerca da educação e evolução cognitiva dos surdos sabendo de imediato que esta questão não é a que é considerada na argumentação do livro A?
Aristóteles filosofa sobre a sabedoria (Σοφια) e ele discorre no início do livro A acerca de como os seres humanos tendem naturalmente ao saber e ao amor ao saber; ele prossegue buscando fundamentar o que seria a sabedoria e seus saberes próprios, no intuito de dizer o que o sábio conhece, e como conhece. Nesse sentido considerando a partir de que nós conhecemos, no trecho 980a 25 e 980b 25, Aristóteles estabelece como premissa de seu raciocínio que os seres humanos amam as sensações obtidas pelos cinco sentidos externos visão, audição, paladar, olfato e tato e em especial no trecho comentado o sentido da visão e da audição.
O sentido da visão na hierarquia dos sentidos encontra-se no topo, e Aristóteles não prescinde de nenhum outro sentido ao dizer isto, no intuito de que algum deles seja dispensável, mas em referência a capacidade que possuem de oferecer-nos maiores e mais conhecimento em relação uns aos outros, e é nesse sentido que a visão seria hegemônica na sensibilidade. Dá-nos de pronto, mais aspectos da realidade e mais perfeitos sobre as coisas singulares no sentido da totalidade das substâncias. Ora a audição por sua vez, integra um aspecto da realidade importante que seria a construção da memória e a construção do aprendizado. O trecho não se refere especificamente à aquisição da linguagem, que pode ser pressuposta pelo interprete como requisito para construção do aprendizado.
A consideração de Aristóteles sobre a audição principia pelos animais, seus exemplos são as abelhas e os animais desse gênero. Qual seria o gênero de animais que para Aristóteles constituem o gênero da abelha? Os irracionais. Ora, o ser humano para Aristóteles é por natureza um animal racional e político, cujo aprendizado se dá pela aquisição de uma língua e a vida comunitária.
Logo a falta da audição veda a capacidade de aprendizado para os animais do gênero irracional, não o gênero racional e político.
Aristóteles começa suas considerações pela abelha e distinguindo entre gênero de animais, pois estabelece três tipos de alma, correspondentes aos vegetais, aos animais e aos seres humanos. Alma compreendida como principio de movimento que anima um corpo e dá a vida ao ser vivo, possui na hierarquia da natureza uma tripartição, onde a alma humana racional e inteligente é o topo que incorpora todas as outras almas como formas de vida em si.
A alma vegetativa capaz de nutrição e crescimento, a alma sensível ou animal, capaz da sensibilidade, intencionalidade por meio dos sentidos e alma racional, capaz de virtudes teoréticas, atos intencionais intelectuais, abstração, conhecimento universais e necessários, inferências lógicas e etc.
A sabedoria, conhecimento teórico das causas e princípios; é impensável para o gênero estritamente vegetal ou animal, visto que não podem conhecer o universal, e apenas intuir o singular na experiência contingente.
Não obstante Aristóteles dirá mais a frente em 981b 10 que ademais não consideramos que nenhuma das sensações seja a sabedoria. Os sentidos nos dizem que o fogo é quente, mas não nos diz nada do porque assim é. Portanto qualquer sensação que seja não pode dotar o homem de arte ou ciência, apenas oferecerem dados singulares e contingentes para que o intelecto agente possa abstrair da matéria, identificando um todo indiferente e atribuindo-lhe unidade e encontrar uma universalidade, ou no intelecto passivo a partir das experiências sensíveis e intencionais produzirem um conceito. Em decorrência dessa gnosiologia muito mais profunda e tratada em outros textos de Aristóteles, é que os sentidos ajudam a compor a essência da substância, ou o eixo de unidade das coisas enquanto elas se mostram em sua inteligibilidade intrínseca ao intelecto, no seio da totalidade dos entes que a experiência intui pela intencionalidade dos sentidos. São canais de abertura para as coisas.
Nos animais a privação de um sentido como o da audição arruína completamente a capacidade de memória e aprendizado, pois a recordação de imagens não configura experiência, enquanto que nos seres humanos ela se torna em ciência e arte. Ciência que é o conhecimento do que é universal e necessário e arte que é a produção que engendra alguma coisa com vistas a um fim. Mas o ser humano quando se recorda de imagens adquire experiência, e conhecimentos que estabelecem causa e efeito. Ele pode dirigir intencionalmente sua ação identificando fins que não sejam imediatamente presentes. Neste trecho como dissemos a questão da linguagem não é colocada, é mais propício procura-la no texto Sobre a Interpretação, mas não obstante que diria Aristóteles sobre a Língua de Sinais se a conhecesse? Questão que pode parecer despropositada á primeira vista, mas a pensemos em relação ao estatuto hegemônico que Aristóteles atribui a sensação da visão.
A própria Filosofia é como que uma visão, dirá ele no Protreptikós, que embora não fiquemos saudáveis conhecendo as coisas saudáveis, mas aplicando-as ao nosso corpo, igualmente a Filosofia embora inútil, permite-nos ser como que uma visão das coisas inteligíveis que orienta-nos bem em todas as coisas, identificando-se assim com a própria inteligência, um olho de nossa a alma, cuja virtude, a sabedoria confunde-se com o próprio exercício do filosofar.
Será que a iconicidade da Língua de Sinais, e sua profunda estrutura linguística e antropológica que permite abstrações, causalidade, relações, proporções, metáforas e muito mais assinalada por insignes estudiosos de todo o mundo seriam desprezadas pelo maior gênio da humanidade e em especial da Filosofia de todos os tempos? Que reflitam prudentemente todos aqueles que quiserem ler em Aristóteles um dia, que os surdos não são capazes de aprendizado, da aquisição de uma língua, ou do exercício da razão, da inteligência e da sabedoria, porque antes de tudo, Aristóteles nos legou essas palavras imortais:
“Todos os homens tendem ao saber.”
BIBLIOGRAFIA:
CAPOVILLA, Fernando C. - Filosofias Educacionais em relação ao surdo: Do Oralismo à Comunicação Total ao Bilinguismo. Revista brasileira de educação especial, V. 6. Nº 1, 2000
SKLIAR, Carlos – Bilinguismo e biculturalismo, Uma análise sobre as narrativas tradicionais na educação dos surdos. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira, Revista brasileira de Educação Mai/Jun/Jul/Ago 1998 Nº 8.
CARVALHO, Paulo Vaz de. Breve História dos Surdos no Mundo. [S.l.]: SurdUniverso, 2007. 140 pp.
MOURA, Débora Rodrigues e VIEIRA, Claudia Regina – A atual proposta bilíngue para educação de surdos em prol de uma educação inclusiva, Revista Pandora Brasil - Nº 28 - Março de 2011 - ISSN 2175-3318 - “Educação no início do século XXI”.

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