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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Artigo: Existência e realidade humana em Heidegger.


Existência e realidade humana em Heidegger.

Resumo: Esse artigo reconstrói os passos de Ser e Tempo na elaboração da repetição da questão do sentido do ser na tradição filosófica lida por Heidegger que incluem uma elaboração formal da questão do ser, um primado ôntico e ontológico da questão que revelam o ente privilegiado que é o dasein como pura expressão de ser e objeto da analítica existencial que buscará explicitar teoricamente a partir de suas estruturas existenciárias, como por exemplo, ser-no-mundo e mundanidade, apontando para uma hermenêutica do sentido do ser, pelo método fenomenológico a partir da exposição da problemática da temporariedade como única resposta concreta à questão do sentido do ser, mas sem desenvolvê-la limitando-se a enuncia-la.

Palavras-chaves: ser, tempo, dasein, existência, ontologia, fenomenologia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Heidegger lendo a História da Filosofia e os conceitos fundamentais que a circundam e se relacionam ao conceito de ser, qualifica a analítica de o ofício dos filósofos.

Analiticidade enquanto qualidade da análise, da quebra e dissolução dos conceitos para compreendê-los em sua dinâmica e interconexão própria de suas partes. Analítica então, que se diz da demonstração recorrente à análise, seu atributo e adjetivo que se inclina para conduzir a análise que percebe entes, mas procede na dissolução, em uma serie de virtualidades ou potências convergentes em um ponto de domínio: o conceito.

Com relação ao conceito de ser, Heidegger considera duvidoso recorrer à noção de evidência, pois são exatamente os juízos secretos da razão comum que devem se tornar o tema explícito da analítica.

É o exame desses preconceitos que desvelaram em primeiro lugar o problema do sentido do ser, colocado pela filosofia grega antiga, por exemplo, em Platão com a tarefa de gigantes acerca do ser; o que desde então, historicamente a questão foi sendo deixada, acobertando-se e se tornando suscetível a velamentos, devido a pressuposições e preconceitos sedimentados na questão.

Assim se torna manifesta a necessidade de uma repetição da questão, que ao invés de velada, se mostre explícita sobre o sentido do ser, isto é, o propósito e a direção que se perseguiu para desvelá-lo e aonde neste percurso, a questão do ser se perdeu ou se anuviou devido às suas características fundamentais pressupostas, mas de maneira nenhuma explicitadas.

Essa é, pois a questão posta do sentido do ser em Ser e Tempo.

Todavia no percurso da tradição, os preconceitos sobre a questão do ser vieram remetendo e plantando a dispensa do questionamento do ser, e por essa razão, Heidegger conduzirá a discussão desses preconceitos até onde a questão do sentido do ser for constatada pela sua investigação.

A trivialização da questão do ser com raízes na ontologia antiga, que emudeceu como questão temática de uma real investigação, encontra o ápice ao entender quase que como dogma, o ser como o conceito mais universal e mais vazio e que, portanto prescinde de definição. Desse modo o que era inquietante para a filosofia antiga foi se convertendo em evidência, uma vez que em todo juízo, conhecimento ou proposição o conceito de ser parece evidente, mas essa compreensão comum, para Heidegger não prescinde de um questionamento sobre o ser, ao contrário revela a incompreensão e a obscuridade e justamente por isso o exige.

A questão do ser é um enigma inserido a priori em todo comportamento com o ente, isto é a determinação daquilo o que existe enquanto algo.

Pertence ao questionamento do ser, uma estrutura formal de investigação, algo por princípio enquanto idéia, porém desprovido de conteúdo que orienta e que estabelece um sentido.

Fazem parte dessa estrutura formal, um perguntado, isto é, um substantivo ou não; aquilo, porém que se quer saber é o ser. Um questionamento enquanto o desenvolvimento explícito da questão, tornando seus momentos constitutivos transparentes, isto é, não velados como ocorreu com a investigação da tradição filosófica. O ser, o que determina o ente como ente, não é em si mesmo outro ente e, portanto exige um modo próprio e apenas seu de demonstração em sentido fenomenológico entendido como mostrar e apontar, destituído de significação lógico-matemática.

Um sentido do ser, que é aquela compreensão do ser vaga e mediana que Heidegger considera um fato, como por exemplo, quando perguntamos o que é ser, e já de modo verbal nos mantemos em uma compreensão do verbo ser, daquilo que é, embora não sabemos dizer o que diz ser. Fato que já é um fenômeno positivo que necessita de esclarecimento e que se complementará em seu sentido com a elaboração do conceito de ser.

E por fim um interrogado, que é aquele ao qual se dirige o questionamento que resulta, pois no próprio ente na medida em que ser se diz sempre ser de um ente.

Chamamos de ente muitas coisas e em muitos sentidos, e é preciso questionar o ente de modo adequado para que a questão do ser não seja falsificada.

Há, portanto um ente que detém a primazia sobre o questionamento da questão e do sentido do ser, na medida em que ele mesmo é ente enquanto oque e como é. Compreender e visualizar são características tanto próprias da transparência do questionamento, quanto modo de ser do ente que somos nós, por possuirmos abertura para questionar enquanto sujeito. A transparência da questão do ser é, portanto desvelada na transparência de um ente que questiona em seu ser:

Essa possibilidade que se abre para nós enquanto entes é designada por Heidegger pelo termo dasein. O modo explícito e adequado de elencar a questão sobre o sentido do ser invoca a necessidade da explicação do dasein no tocante ao seu modo próprio de ser, daí uma analítica da existência, a partir de uma analítica do dasein enquanto ente detentor de um primado ontológico e ôntico da questão do ser.

O dasein é um ente, um ente que nós somos, mas o dasein não é o Homem. O dasein, palavra alemã que literalmente pode-se traduzir por aí-ser, ou alguns que ainda o traduzem por pre-sença e termos afins, é uma referência para um ente no qual a transparência e abertura para o ser se dá de modo mais excelente que se nos mostra como pura expressão de ser. Segue-se que o dasein manifesta a indeterminação do ser enquanto pura expressão de ser na forma de um ente que é sujeito, que pode conhecê-lo e torná-lo desvelado por meio da analítica de sua existência. O dasein é, portanto o homem não em suas determinações enquanto ente, nem mesmo sequer enquanto gênero que seria uma pura intelecção, mas enquanto ato e existência manifesta do ser, que pode se conhecer a si próprio sendo, existindo. O dasein é, portanto o único ente que pode se interrogar em seu próprio ser e conhece-lo sendo, enquanto o é, por uma abertura que remete sempre ao próprio ser do ente que é.

Para Heidegger é uma acusação meramente formal que em nada contribui para a investigação, pensar como petição de princípio o ter que determinar primeiro o ente em seu ser, e nessa base colocar a questão do ser. Como que configurando um círculo vicioso onde para se firmar a conclusão para a demonstração de uma tese, se parte do princípio de que ela já é válida.

Para Heidegger não é o caso da questão colocada do sentido do ser, e o argumento que aduz, é o de que do contrário não teria sido possível nenhuma ontologia possível, pois o ser sempre está pressuposto, ainda que não enquanto conceito disponível.

O ente pode vir a ser determinado em seu ser sem que, para isso seja necessário se dispor de um conceito explícito sobre o sentido do ser, ou seja, uma pressuposição do que se procura em caráter preliminar em uma articulação provisória, um ponto de partida.

Não apenas a questão e o sentido do ser são colocados em razão de uma repetição radicada na dignidade de sua proveniência que é a História da Filosofia ou devido a insuficiente resposta dada a ela pela tradição. Heidegger aduz para um primado ontológico e um primado ôntico, isto é uma prioridade amparada na dimensão ampla e fundamental do ser em si mesmo enquanto questão principal e concreta, natural e pertencente a todos os entes o que Heidegger entende como ontologia; em contraste com a multiplicidade dos entes concretos e determinados na realidade que se relacionando com estes entes, seriam referentes ao conceito de ôntico.

A prioridade ontológica da questão do ser se dirige às condições de possibilidade das ciências positivas enquanto conceitos fundamentais para a delimitação de objetos temáticos dessas ciências e seus respectivos setores, interpretando esses entes na constituição fundamental de seu ser, movendo-se nesta compreensão do ser.

Os exemplos de Heidegger são as investigações de Platão e Aristóteles como fundamentação das ciências na história da ciência do ocidente, bem como a crise da matemática entre formalismo e intuicionismo, isto se as verdades científicas são puramente formais e repousam sobre convenções, ou se a existência de uma entidade matemática tem qualquer vínculo de sua gênese a uma intuição humana como na filosofia da matemática pensava L. Brouwer (1881-1966); ou se a intuição nos permite o contato com a realidade absoluta em contraste ao caráter conceitual e instrumental da inteligência científica como no pensamento de Bergson (1859-1941).

O problema da Física contemporânea da teoria da relatividade buscando estabelecer o nexo em si da realidade, e para tanto uma imutabilidade das leis do movimento enquanto uma determinação de toda a relatividade e a pressuposição do problema da matéria.

O exemplo da lógica transcendental de Kant, que longe de ser uma epistemologia, é uma elaboração que pertence propriamente á natureza, como uma lógica do objeto a priori ou a natureza como setor ontológico.

Não se reduzindo apenas a esta primazia objetivo-científica, a prioridade ontológica da questão do ser, o seu questionamento, também se antepõe como fio condutor de uma investigação que visa às próprias condições de possibilidade das ontologias, o sentido do ser, e o esclarecimento desta sua tarefa onde ontologia designa o questionamento teórico e explícito do sentido do ser.

Além da repetição da questão do ser posta na leitura da tradição filosófica, sua estrutura formal e prioridade ontológica, há um primado ôntico da questão do ser, que diz respeito ao dasein como ente privilegiado do exame da analítica por ele possuir a característica de poder se conhecer e se compreender sendo em sua relação com o ser; o que para Heidegger é chamado de sua característica pré-ontólogica pelo fato de não se tratar de um questionamento teórico explícito como foi definida a ontologia, mas um modo de compreensão do ser a partir da existência, tornando-se a analítica nesse sentido existencial, por proceder na explicitação teórica da questão do sentido de ser através da análise de um ente que é em sua existência e modo de ser a própria compreensão do ser. Por essas razões a analítica existencial do ente que é o dasein, é a ontologia fundamental donde pode provir toda e qualquer compreensão da questão do ser, remetendo às estruturas que compõem o ser do homem em seus desdobramentos advindos do dasein.

Existência é definida pelo próprio ser com o qual o dasein é determinado, esclarecido apenas pelo próprio existir. Desprovido de conteúdo quididativo, isto é, de uma essência própria, o dasein a partir de sua existência se mostra à nossa compreensão em possibilidades próprias de ser sem a necessidade de uma transparência teórica da de uma ontologia da existência, porque é próprio da existência ser um assunto ôntico do dasein, isto é, dizer respeito às determinações próprias de suas possibilidades de ser enquanto expressão pura do ser determinado pelo seu existir.

O verbo existir diz um movimento de dentro para fora significado pela etimologia da palavra latina formada de uma preposição ex que quer dizer fora; e o verbo sistere parar, ficar remonta ao sentido de algo posto de pé.

Existência circunscreve um lugar ou estado e uma dinâmica de estruturação onde se efetua passagem de estados e lugares.

A existência determina o dasein, que é a princípio indeterminado e pura expressão de ser enquanto ente portador dessa relação e abertura para o ser.

Pertence essencialmente ao dasein ser em um mundo e sua compreensão própria do ser inclui naturalmente a compreensão do ser dos entes que se tornam acessíveis dentro do mundo, onde mesmo esses entes desprovidos do privilégio que goza o dasein em sua abertura para o ser por meio de seu questionamento e compreensão existencial se fundam e se motivam na estrutura ôntica do dasein, isto é que eles também se movam e sejam compreendidos em seu ser pela analítica do dasein.

É o que Aristóteles diz que a alma humana é de certo modo todo ente.

E Heidegger citando Aristóteles, quer dizer que a alma que constitui o ser do homem, por meio da aisthesis e da noésis descobre em seu modo de ser todo ente naquilo que ele é e como é, fica posto desde já de forma prenunciada a idéia de fenomenologia que será explicitada acerca do método, bem como a noção de fenômeno e o discurso da razão.

Na interpretação do sentido do ser, a analítica existencial do ente primordial é, portanto o que desde sempre se questiona nessa questão naquela compreensão primeira do que é ser, e que se busca ainda conceituar o que diz ser. Interpretação, todavia que só pode se efetivar com a elaboração da temporariedade do ser cuja exposição  do problema é onde há de se buscar uma resposta concreta a questão do sentido do ser, pois o fenômeno do tempo é onde o ser pode ser apreendido e aonde se mostra; somente com referência a ele e sob sua perspectiva, que para a explicitação teórica da ontologia se constituem os movimentos de passagem do ser para o dasein e deste para a existência tornando tangível ao entendimento um movimento e seu sentido.

A questão da temporariedade do ser para Heidegger nos dá apenas a indicação do que é uma investigação ontológica concreta, isto é que deve sempre começar pelo horizonte liberado do tempo, obtido a partir de uma demonstração fenomenológica numa repetição das estruturas do dasein que afirmam o seu sentido como modos de temporalidade; demonstração fenomenológica entendida como algo que se mostra a si mesmo e é desvelado pelo discurso.

A estrutura do ser-no-mundo é uma constituição ontológica do dasein, que possui por um lado facticidade, e é um ente, o ente que nós somos que se equivale ao homem; por outro lado, indica a abertura originária com o ser deste mesmo ente que coloca a questão do ser, mas isso não circunscreve a relação da estrutura de ser-no-mundo apenas à relação sujeito-objeto, por sujeito e objeto não coincidirem com dasein e mundo.

O fenômeno de ser-no-mundo é uma expressão composta que se refere a uma unidade, todavia para efeito de análise o fenômeno pode ser pensado em três outros elementos. O mundo em que o ser é onde se imporá a tarefa de se perscrutar a estrutura ontológica do mundo, não apenas com relação à multiplicidade dos entes que o constituem do ponto de vista ôntico, como objetos simplesmente dados, designados enquanto intramundanos, mas como mundanidade, que só se deixa caracterizar mediante uma compreensão do ser para quem existe um mundo, o ser que é-no-mundo e que por sua vez se desvela a partir deste mundo no qual se detém. O ser em si enquanto expressão formal e existencial do ser do dasein e constituição essencial do fenômeno ser-no-mundo, e quem que é no mundo que pergunta pelo ente que sempre é em seu modo de ser no mundo na cotidianidade mediana do dasein, com a facticidade que fragmenta o dasein em modos de ser-em que adquirem o modo da ocupação que caracteriza essencialmente o ser-no-mundo.

A analítica existencial do dasein cujo ente que nós somos e permite colocar a questão do ser interrogar, interpelar e conhecer o mundo por meio da noésis, e explicitá-lo e discuti-lo por meio do lógos, ainda se fragmentará em outros modos de ser-em, como instrumentalidade, alteridade e finitude e a investigação de Ser e Tempo seguirá visando uma resposta concreta à questão do sentido do ser através da explicitação da ontologia dos modos de ser da existência do dasein e seu movimento na temporariedade do ser à existência, do qual remontamos os passos da colocação da questão.

E sobre isso parece o bastante o que dissemos até aqui.

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