As idéias são reais, objetivas e universais.Verdadeiramente o único inteligível. Acessíveis, pois, pela transcendência do pensamento.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Descartes - Dissertação sobre Primeira e Segunda Meditação Metafísica.




Introdução:

A árvore do saber cartesiano tem suas raízes na metafísica, é, portanto de primeira importância, o papel do Cogito e das meditações metafísicas na filosofia Cartesiana.
Essa dissertação realiza um estudo propedêutico da segunda meditação metafísica e das três certezas encontradas por Descartes, tendo por fio condutor desse estudo o “Cogito” e sua origem. Bem como uma breve análise de suas nuances no Discurso do método, na segunda meditação, e o desvelamento das outras duas certezas a partir da primeira verdade do Cogito encontrada na segunda meditação.
Buscando os parâmetros de importância do Cogito enquanto verdade e fundamento de toda a Filosofia Cartesiana de sua exposição histórica e lógica.



1- O “Cogito” no Discurso do Método.

Na Quarta Parte do discurso do método encontramos Descartes já apresentando o “Cogito” como “primeiro princípio da filosofia que buscava e que poderia aceitar sem escrúpulo”.
Em atenção à maneira como tal principio nos é apresentado, notamos de imediato o âmbito em que Descartes pretende trata-lo, o que se evidencia mais ainda se compararmos a cadeia de razões e o itinerário demonstrado para alcançá-lo na quarta parte do discurso do método com o das segundas meditações.
Esse âmbito não se mostra ainda na plenitude metafísica e ontológica presente nas meditações.
A dúvida para atingi-lo embora ordenada sistematicamente não apresenta o mesmo caráter e as distinções precisas da duvida natural, da duvida metafísica e hiperbólica aniquiladora de opiniões herdadas da tradição através das hipóteses do Deus enganador e do Gênio Maligno, presentes na primeira meditação.
Antes se apresenta muito mais como síntese do que como analise, como nas meditações metafísicas.
Ferdinand Alquié dirá que o “Cogito” no discurso do método é ainda inconsciente de si mesmo, e que nenhuma das idéias metafísicas de Descartes atingem seu mais alto grau de desenvolvimento no discurso do método, pois este como o próprio Descartes nos leva a examinar é apresentado em seu caráter histórico e temporal como a historia e evolução de seu espírito.
Ao analisar a árvore da filosofia cartesiana contida na obra Princípios da filosofia de Descartes em sua carta prefácio Ferdinand Alquié, ressalta que o encadeamento lógico daquela árvore, não representa necessariamente a ordem das razões cartesianas, e que é antes Descartes e mais ninguém que nos mostra isso nos dando o exemplo da historia de sua vida no discurso do método, e de como atingiu as verdades de sua filosofia.
Franklin Leopoldo em sua metafísica da modernidade, de Descartes, não recortará em sua antologia, nenhuma exposição do “Cogito” ou do eu pensante no discurso do método.
E Franklin Leopoldo e Ferdinand Alquié concordam que no discurso do método o problema geral da realidade das coisas e das idéias não ocupa o primeiro plano.
No discurso do método não há a questão do gênio Maligno que na nota numero 26 da segunda meditação Gerard Lebrun dirá que se o “Cogito” não for “arrancado ao gênio Maligno não passará de uma banalidade”.




“Depois disso considerei em geral o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira; pois como acabara de encontrar uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. E tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito claramente que para pensar é preciso existir”...
Descartes, René, “Discurso do método” in Quarta parte, Os Pensadores, Nova Cultural, P.47.

Em nota presente nesta citação extraída do texto da quarta parte do Discurso do Método, coloca-se que Gueróult mostra que o principio de que para pensar é preciso ser, não é premissa maior de um raciocínio do tipo “Tudo que pensa é”, mas antes um axioma sem o qual não se teria consciência entre pensar e existir no que diz respeito à sua necessária ligação, mas que por outro lado, sem o “Cogito” não se teria consciência desse axioma.
Observação feita em alusão à objeção de Gassendi a Descartes e sua resposta, que evocamos para esse momento do “Cogito” no discurso do método, para ressaltar como este, nesse momento se dispõe em ordem sintética e apontar mais uma diferença no “Cogito” da segunda meditação, de caráter mais analítico.

2 – O “Cogito” na 2º Meditação

Na edição que utilizamos, sobre a 2º meditação encontramos o seguinte itinerário argumentativo.

A) § 1-9: da natureza do espírito humano...
§ 1-4: conquista da primeira certeza;
§ 1-3: procura de uma primeira certeza;
§ 4: “Eu sou, eu existo”;

§ 5-9: reflexão sobre esta primeira certeza e conquista da segunda;

§ 5-8: quem sou eu, eu que estou certo que sou? Uma coisa pensante.
Determinação da essência do Eu;

§ 9: Descrição da “coisa pensante” e distinção entre pensamento atributo
principal desta substância e suas outras faculdades;

B) § 10-18... e de como ele é mais fácil de conhecer do que o corpo. Contraprova da segunda certeza (argumento do pedaço de cera) e conquista da terceira certeza.

Em notas das aulas do Prof. Luiz Monzani temos algumas considerações sobre as meditações metafísicas e o “Cogito” em “linhas gerais”.

Alguns problemas a que pretendem tratar as Meditações Metafísicas:

Ø Fundamento/verdade – valor objeto das idéias claras e distintas.

Ø Limites de nosso entendimento, origem e fundamento do erro.

Ø Fundamento das ciências da natureza, mecanismo, separação das substâncias, e existência dos corpos independentes ao eu.




Para o Prof. Monzani, pensamento para Descartes é sinônimo de consciência, confirmando pelo livro princípios da filosofia, de Descartes.
Perceber, ter consciência, abarca a totalidade das operações acessíveis à consciência, ou a unidade do pensamento.
Descartes concebia o “Cogito” como uma verdade intuitiva, que não era tida de um raciocínio.
Este era fundamento e primeira verdade a partir do qual se construíam toda a filosofia incluindo a física e a metafísica, descritos de forma admirável cujo sentido mais exato e completo é:
Eu que penso, sou.
Sobre filosofia da representação em Descartes, ao colocar diante deste e da hipótese do Gênio Maligno, Hobbes e a Teoria aniquilatória ele considera:

“Se há filosofia da representação em Descartes, esta se encontra na 2º meditação, porém a hipótese do Gênio Maligno só será derrubada na 3º meditação e só então reconhecida como ficção, para universalizar a dúvida”.

Franklin Leopoldo ressalta que Descartes se distingue de outros céticos na medida em que não julga que a certeza seja impossível de se atingir.
Sendo a dúvida um percurso com direção e objetivo e ao expor a autenticidade da dúvida, ele considera que essa profunda autenticidade que dará a absoluta segurança quanto ao caráter inabalável da primeira certeza.

“De sorte que, após ter pensado bastante nisso e de ter examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdade todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito.” Descartes, René, “Meditações Metafísicas”, in 2º meditação, Os Pensadores, Nova Cultural, Pg. 174.

2.1 – A segunda certeza

Na segunda meditação após refletir sobre a primeira certeza adquirida, o “Eu sou, eu existo”, Descartes lança mão novamente do Gênio Maligno para alcançar o encontro do pensamento e atingir a segunda certeza, que é a essência do “Eu sou”, uma coisa pensante. Franklin Leopoldo dirá que embora o pensamento se coloque como existência indubitável para si próprio, na verdade ele não é definido.
Mas que para Descartes isso não implica em inconsistência e nem compromete a verdade encontrada, porque o pensamento é o caso em que o conhecimento coincide perfeitamente com seu objeto, e o intuitivismo de Descartes dispensa que se leve à análise termos como pensamento e existência.
Estes constituem noções comuns primeiras e indefiníveis que a tentativa de reduzi-las a uma identidade lógica só concorreria para torná-las mais obscuras.
Fundamental para reconhecer distintamente a natureza do Eu pensante, é o conhecimento dos modos que constituem o pensamento, entre eles a imaginação, e as percepções sensíveis, que sendo impossível recorrer a estas últimas por terem sido excluídas pelo processo da dúvida, que exclui a confiança na natureza corpórea e os modos de pensamento que são constituídos através dela, o Eu pensante reconhece distintamente que sua natureza é puro pensamento exclusivo de todo elemento corpóreo.

“E assim reconheço certamente que nada, de tudo que posso compreender por meio de imaginação, pertence a este conhecimento que tenho de mim mesmo e que é necessário lembrar e desviar o espírito dessa maneira de conceber a fim de que ele próprio possa reconhecer muito distintamente sua natureza. Mas o que sou eu, portanto? Uma coisa que pensa. Que é uma coisa que pensa? É uma coisa que duvida que concebe, que afirma, que nega, que quer, e que sente.” Descartes, René, “Meditações Metafísicas”, in 2º meditação, Os Pensadores, Nova Cultural, Pg. 176-177.

2.2 – A terceira certeza

Através do argumento do pedaço de cera que contém em si todos os atributos de que podem se valer as percepções sensíveis, e que após inúmeras modificações em sua parte extensa, isto é em sua forma, odor, sabor, etc. Descartes pretende demonstrar a precedência da intelecção, ou do entendimento sobre as coisas sensíveis, bem como encontrar a terceira certeza, de que o espírito conhece a si mesmo não pelos seus modos de pensamento, como a imaginação, ou o conteúdo destes, as representações sensíveis, e portanto a prioridade que há do espírito sobre o corpo.
Capaz de conhecer a si próprio com independência do corpo e com maior facilidade.
Concluindo-se que o próprio corpo, no que tem de essencial, não é conhecido, pelos sentidos, nem pela imaginação, mas pelo entendimento.
Franklin Leopoldo o demonstra, quando diz que o “pensamento é condição de conhecimento dos corpos enquanto é condição de qualquer de seus modos representativos”.

“Mas enfim, eis que insensivelmente cheguei, onde queria, pois já que é coisa presentemente conhecida, por mim que propriamente falando, só concebemos os corpos pela faculdade de entender em nós existente e não pela imaginação nem pelos sentidos, e que não os conhecemos pelo fato de vê-los ou de tocá-los, mas somente por concebê-los pelo pensamento, reconheço com evidencia que nada, há que me seja fácil de conhecer de que meu espírito...” Idem, Ibidem, Pg. 180.

3 – Conclusão

O Cogito é fundamento de toda filosofia cartesiana, incluindo sua física e metafísica, e tem sua expressão de desenvolvimento em mais alto grau de perfeição nas segundas meditações metafísicas.
Se não podemos como Arnaud, saudar o sistema cartesiano como a expressão mais perfeita da verdade no plano da ciência e da metafísica, podemos ao menos saudar o Cogito como primeira “verdade” da filosofia moderna e fundamento de uma “ciência admirável”, ao menos enquanto pensamos nele.

Bibliografia:

DESCARTES, René, 1596-1650
“Discurso do método; As paixões da alma; Meditações; Objeções e respostas”,
Introdução de Gilles Gaston Granger; prefacio e notas de Gerard Lebrun;
Tradução J. Guinsburg e Bento Prado Junior, São Paulo, Os Pensadores,
Nova Cultural Ed., 5ª. Ed. 1991

SILVA, Franklin Leopoldo e, 1947 –“Descartes”,
Franklin Leopoldo e Silva, 5ª. Edição -
São Paulo: Moderna, 1993, (Coleção logos).

ALQUIÉ, Ferdinand, “A Filosofia de Descartes”, Lisboa, Editorial Presença, 1980.

COTTINGHAN, John, “Dicionário Descartes”, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1995.

TERSARIOL, Alpheu, “Dicionário da Língua Portuguesa”, São Paulo, A.L.A.Ed., 1982

2 comentários:

gui20000 disse...

olá,você tem um belo blog.Você poderia sanar uma dúvida minha?,é sobre uma bibliografia,que não estou conseguindo achar,acho que é o mesmo livro que você comentou.
DESCARTES, Réné. Meditações(Meditação Primeira e Meditação
Segunda). In: Col. Os Pensadores. Trad. de J. Guinsburg e Bento Prado
Júnior. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1983, pp. 83-98.

Bellatore disse...

Desculpe a demora em responder e
obrigado pela gentileza de suas palavras.
Esta edição utilizada é daquelas primeiras edições da coleção os pensadores que não é capa dura e é listrada de branco e azul. Ela contém O discurso do método, As meditações Metafísicas, As paixões da Alma e As objeções e respostas sobre a avaliação dos teólogos e filósofos da época sobre a filosofia de Descartes.
Esta é a 5ª edição de 1991.
A respeito de onde encontrar, é possível emprestar por exemplo nas bibliotecas da Usp ou do Mosteiro de São Bento, ou também é fácil encontra-la nos Sebos mais variados para compra. Talvez a Estante digital pela internet ou alguns no centro de São Paulo.
Espero ter podido ajudar.
Fiat Philosophus!