
Ao adentrar as portas o Cavaleiro de Ouro penetrou nas alcovas e o frescor das aragens e do cheiro da malva e do açafrão deu lugar ao familiar odor de sangue, tão intenso da guerra que lhe despertava os mais tresloucados lampejos na memória, dos gritos da fúria dos carniceiros, dos gritos, dos alaridos e os gemidos dos moribundos, das lamúrias dos mutilados e de horrores que o deixavam em choque, que em sua expressão que se empenhara em linhas embrutecidas lhe trazia com esgares de angustia e olhos marejados, feições das mais doces crianças.
Forçoso era tal expressão, onde campo algum se assemelhara àquele local; onde a dor era uma reflexão:
Aos campos sobrevinha a incessante eminência do perigo, o frenesi da batalha, a fúria que quer destroçar o inimigo, o medo intermitente das setas, que de todas as direções convertem o vento donde originam-se em suspiros e diminutos zunidos que estancam nos de menos sorte, o som das retesadas cordas flagelando arrepios na espinha ereta das formações e a terrível sensação de vulnerabilidade que armadura alguma é capaz de conter.
Nos campos, se cavalga como que voando sob abismos; dos frisos do elmo a visão é vertiginosa como a de um desfiladeiro, o desespero de ser derrubado da montaria é semelhante ao temor de caminhar em uma corda estendida na bocarra do inferno, com labaredas que agonizam na carne com mil demônios e ávidos e vorazes cães a esfolar como um cordeiro àquele que não se atém à montaria.
O estrondo dos metais é superior à forja de mil ferreiros às vésperas da peleja.
A cavalaria soa como legiões de gafanhotos infernais sedentos pelo sangue dos infantes, à consumi-los como a um trigueiral.
As canções de todos os bravos na glória e beleza da arte do jogral, não passam de elogios fúnebres, donde os gritos dos que o aço despedaça a carne são como risos de seres aéreos e o relinchar agonizante de cavalos feridos louvores a Satanás.
E o cheiro é esse...
Mas ainda somado a esses; as feridas gangrenadas, os fluidos dos pulmões perfurados, o sangue seco e o inestancável... Mutilações indistinguíveis aos olhos, se não se conhece as máquinas bestiais causadoras delas e a amparar a imaginação perversa.
Doenças inomináveis por Galeno e Hipócrates, e até mesmo pelos árabes.
Corpos mazelados, chagas degradantes, alaridos mais insuportáveis que o estrondo de maças na crista do elmo...
Ó Senhor! Ensurdecedoras são tais dores, e não há alma impassível que saiba distinguir-se de insuportável reclame do corpo!
Eis o fruto de nossas obras Senhor... Eis a glória da guerra!
Ó Senhor! Como dói a ti a corrupção da alma.
Ó Senhor! Mas como dói aos homens a corrupção do corpo...
Que maligna corrupção é a morte. Que miséria mais lancinante, e que realidade brutal.
Ó madre estéril, salvando nosso Senhor nossas almas e vencendo-te, vens atormentar nossos corpos; mas não te tememos!
São vossos, nossos corpos, matéria, para vosso solo estéril, ó corruptora da vida.
Não provém de Deus sua miséria; desgraça dos mortais, nem cabe a ti tocar o que pertence a ele, e aos coroados de Cristo, fadada mágoa carnal.
Salva nossas almas, enxuga nossas lágrimas, ó Senhor, salva-nos de nós mesmos!
De ti não provém ó Senhor, o pecado, nem a morte, sua paga.
Todavia nós aceitamos a morte; antes a vida em Cristo e sua glória para o reino de Deus e da terra; mas aceitamos a morte...
Eis, que entendemos nossa miséria, a morte, única certeza dos que não tem fé, uma das certezas dos que tem.
Ensina este teu servo Senhor; e aprenderei; inclinar-me-ei a ti com toda força de meu coração e tremerei diante de teu ensinamento, qual galho cuja brisa balança, e o orvalho umedece presa a figueira... Largarei minha espada, caminharei de encontro a ti.
Que a morte é a paga do pecado... Mas para que há o sofrimento ó Senhor?
Para que há a dor?
Para sabermos que estamos vivos? Para não perdermos nosso contorno no irremediável e dado? Para nos fazer únicos? Para sentirmos a vida?
Dai-nos o júbilo, e a alegria da tua salvação, e dai-nos a dor antes de dar-nos as costas, por mais que vosso pecado vos repugne a face.
Mas para que o sofrimento Senhor?
Perdoe Senhor... Sou um homem ignorante...
Mas que belo júbilo seria a morte aos meus irmãos de armas!
Que frescor balsâmico, almiscarado seria a finitude de tal agonia aos meus irmãos de armas, ó Senhor dos Exércitos!
Quisera eu Senhor, e perdoe minha agonia, por termo a tal ranger de dentes, a tais lágrimas de sangue, tais espasmos corporais que roubam humanidade, e tais feridas incuráveis!
Mas não queria vê-los assim.
Separar-lhes-ia a cabeça dos ombros, saciaria a sede de suas bocas com o sangue de meu punhal, transpassar-lhes-ia o coração com minha espada, e por mina fé, que ela lhes fosse cruz de lápide e fim de angústia que trespassa o coração com honor e dignidade!
Quereria Senhor, abreviar tais gemidos, mesmo que o mar de sangue em minhas mãos, fosse o de sete campos e sua fúria abatesse minha impiedade, e mesmo em mar de sangue, o silêncio de vossas agonias, me fariam pio...
Ó Senhor! Que a morte é uma dor!
Mas para que há o sofrimento?
Ou quereria ainda ter imensa fé Senhor!
Quereria ter fé, para restituir corpos e pedaços, fazer enxergar cegos, devolver passos a coxos e encara-los nessa agonia meus irmãos e dizer-lhes:
Levantem-se... Andem...
Ó Senhor! Que a morte é uma dor!
Mas para que há o sofrimento?
E se ele sazona a alma, que antes volvêssemos em crianças que corressem no teu reino de um lado para o outro e te abraçássemos como a um pai!
Que não soubéssemos nosso nome, por inocência Senhor, mas nenhum homem conhecesse o sofrimento deste lugar!
Ó Senhor, que a morte é uma dor... Mas a que há o sofrimento?
Forçoso era tal expressão, onde campo algum se assemelhara àquele local; onde a dor era uma reflexão:
Aos campos sobrevinha a incessante eminência do perigo, o frenesi da batalha, a fúria que quer destroçar o inimigo, o medo intermitente das setas, que de todas as direções convertem o vento donde originam-se em suspiros e diminutos zunidos que estancam nos de menos sorte, o som das retesadas cordas flagelando arrepios na espinha ereta das formações e a terrível sensação de vulnerabilidade que armadura alguma é capaz de conter.
Nos campos, se cavalga como que voando sob abismos; dos frisos do elmo a visão é vertiginosa como a de um desfiladeiro, o desespero de ser derrubado da montaria é semelhante ao temor de caminhar em uma corda estendida na bocarra do inferno, com labaredas que agonizam na carne com mil demônios e ávidos e vorazes cães a esfolar como um cordeiro àquele que não se atém à montaria.
O estrondo dos metais é superior à forja de mil ferreiros às vésperas da peleja.
A cavalaria soa como legiões de gafanhotos infernais sedentos pelo sangue dos infantes, à consumi-los como a um trigueiral.
As canções de todos os bravos na glória e beleza da arte do jogral, não passam de elogios fúnebres, donde os gritos dos que o aço despedaça a carne são como risos de seres aéreos e o relinchar agonizante de cavalos feridos louvores a Satanás.
E o cheiro é esse...
Mas ainda somado a esses; as feridas gangrenadas, os fluidos dos pulmões perfurados, o sangue seco e o inestancável... Mutilações indistinguíveis aos olhos, se não se conhece as máquinas bestiais causadoras delas e a amparar a imaginação perversa.
Doenças inomináveis por Galeno e Hipócrates, e até mesmo pelos árabes.
Corpos mazelados, chagas degradantes, alaridos mais insuportáveis que o estrondo de maças na crista do elmo...
Ó Senhor! Ensurdecedoras são tais dores, e não há alma impassível que saiba distinguir-se de insuportável reclame do corpo!
Eis o fruto de nossas obras Senhor... Eis a glória da guerra!
Ó Senhor! Como dói a ti a corrupção da alma.
Ó Senhor! Mas como dói aos homens a corrupção do corpo...
Que maligna corrupção é a morte. Que miséria mais lancinante, e que realidade brutal.
Ó madre estéril, salvando nosso Senhor nossas almas e vencendo-te, vens atormentar nossos corpos; mas não te tememos!
São vossos, nossos corpos, matéria, para vosso solo estéril, ó corruptora da vida.
Não provém de Deus sua miséria; desgraça dos mortais, nem cabe a ti tocar o que pertence a ele, e aos coroados de Cristo, fadada mágoa carnal.
Salva nossas almas, enxuga nossas lágrimas, ó Senhor, salva-nos de nós mesmos!
De ti não provém ó Senhor, o pecado, nem a morte, sua paga.
Todavia nós aceitamos a morte; antes a vida em Cristo e sua glória para o reino de Deus e da terra; mas aceitamos a morte...
Eis, que entendemos nossa miséria, a morte, única certeza dos que não tem fé, uma das certezas dos que tem.
Ensina este teu servo Senhor; e aprenderei; inclinar-me-ei a ti com toda força de meu coração e tremerei diante de teu ensinamento, qual galho cuja brisa balança, e o orvalho umedece presa a figueira... Largarei minha espada, caminharei de encontro a ti.
Que a morte é a paga do pecado... Mas para que há o sofrimento ó Senhor?
Para que há a dor?
Para sabermos que estamos vivos? Para não perdermos nosso contorno no irremediável e dado? Para nos fazer únicos? Para sentirmos a vida?
Dai-nos o júbilo, e a alegria da tua salvação, e dai-nos a dor antes de dar-nos as costas, por mais que vosso pecado vos repugne a face.
Mas para que o sofrimento Senhor?
Perdoe Senhor... Sou um homem ignorante...
Mas que belo júbilo seria a morte aos meus irmãos de armas!
Que frescor balsâmico, almiscarado seria a finitude de tal agonia aos meus irmãos de armas, ó Senhor dos Exércitos!
Quisera eu Senhor, e perdoe minha agonia, por termo a tal ranger de dentes, a tais lágrimas de sangue, tais espasmos corporais que roubam humanidade, e tais feridas incuráveis!
Mas não queria vê-los assim.
Separar-lhes-ia a cabeça dos ombros, saciaria a sede de suas bocas com o sangue de meu punhal, transpassar-lhes-ia o coração com minha espada, e por mina fé, que ela lhes fosse cruz de lápide e fim de angústia que trespassa o coração com honor e dignidade!
Quereria Senhor, abreviar tais gemidos, mesmo que o mar de sangue em minhas mãos, fosse o de sete campos e sua fúria abatesse minha impiedade, e mesmo em mar de sangue, o silêncio de vossas agonias, me fariam pio...
Ó Senhor! Que a morte é uma dor!
Mas para que há o sofrimento?
Ou quereria ainda ter imensa fé Senhor!
Quereria ter fé, para restituir corpos e pedaços, fazer enxergar cegos, devolver passos a coxos e encara-los nessa agonia meus irmãos e dizer-lhes:
Levantem-se... Andem...
Ó Senhor! Que a morte é uma dor!
Mas para que há o sofrimento?
E se ele sazona a alma, que antes volvêssemos em crianças que corressem no teu reino de um lado para o outro e te abraçássemos como a um pai!
Que não soubéssemos nosso nome, por inocência Senhor, mas nenhum homem conhecesse o sofrimento deste lugar!
Ó Senhor, que a morte é uma dor... Mas a que há o sofrimento?



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