
Nebulosas quimeras são os sonhos, aqueles que sonhamos dormindo: como se estivessem em vigília os que sonham acordados, todavia sonhos.
Brumas circundavam todo espaço donde findava o palco, foco da mente, em imagem tão intensa e vívida que se perde o contorno do real; brumas brancas que se apagavam a medida que olhar periférico por elas se seduzia e as seguiam em vão rumo a cinzentos fumos. Brumas brancas, qual nuvens em ensolarado dia que as faz macias e claras, mas o dia era cinza e ouvia minha respiração.
Estava em uma casa inexpressiva de quintal com verde musgo, entre trincados pisos cinzentos e escurecidos pelo tempo, de chuva e sóis tediosos; diante de retorcido e oxidado portão que dava para uma rua deserta.
Por essa rua subiam vozes e cantorias lamuriantes e ruidosas.
Atraiu-me tal cantilena a curiosidade e passaram-se momentos de intermitentes digressões, do qual vos pouparei até que o ruidoso arauto, o som, se fizesse claro e se pintassem diante de meus olhos a estranha visão de; uma procissão?
Sim, uma singular procissão onde não via mastros reluzir, nem imagens, nem nada que reluzisse, pois tudo era cinza, na procissão contrastantemente camponesa, em cenário provinciano com um que metropolitano.
Deleitava-me a curiosa visão, com o fascínio de quem observa um parvo milharal, até uma fração de tempo, uma faísca de olhar que refletiu diante de meus olhos o lampejo de uma imagem que me fez baixar imediatamente os olhos ao passo simultâneo de medo intenso e frenesi arrebatar-me o coração que quis saltar, pelo estanque do calafrio que chibatava minha espinha ereta; caminha na provinciana procissão a figura ensangüentada do próprio Cristo!
Não sei como o sabia, mas havia mais certeza de que era ele, do que de que eu era eu mesmo, não suportei olha-lo, baixei a cabeça, o lampejo de visão periférica que mo revelou, deu-me a sensação de quem viu algo proibido por demasiado, flagrar uma cena comprometedora, surpreender uma nudez, passear diante de um crime, ver o que não devia ser visto...
Mesmo sem tê-lo visto, o via caminhando com expressão de dor e desalento, os cantos lamuriavam sua fúnebre marcha:
Corri...
Desci prontamente escadas do quintal da dita casa, e busquei refúgio em local escuro, onde me deparei em minha fuga com alta parede salpicada de musgo, onde a direita retorcida janela com tela metal prateado revelava um escuro inalcançável e a esquerda continuação da parede que impedia-me, qual deja-vu.
Escolhi a esquerda! E escalei inexplicavelmente o muro, donde em seu cimo, não me bandeava para lugar algum e fitava desolado todas as saídas como uma coisa só.
Sentei-me no muro, qual Humpty Dumpty, a olhar pro nada, e este olhando para mim.
Durou tal torpor até assustado reparar que a procissão entrava na casa, da rua para esta casa!
E caminhava já não ensangüentado o Cristo, descendo as escadas e trazendo-me grande medo.
Sem olhá-lo no rosto o via aproximando-se, e o desespero por fim cedeu a uma cinza resignação, como o ar do dia...
-O que tem do outro lado desta parede, onde irá dar? perguntou-me apontando o dedo cujo buraco nas mãos roubava-me a visão e a memória de qualquer detalhe.
-O senhor sairá na casa do vizinho. Respondi respeitosamente quase sussurrando.
-Ajuda-me a subir onde estás.
Atendi ao pedido sem olhá-lo nos olhos, e inexplicavelmente, assim como eu subi, também o Cristo sentou-se ao meu lado.
-E deste outro lado aqui, o que há? Perguntou-me insistente novamente.
-Aqui há uma espécie de terreno baldio. Respondi-lhe novamente.
- Para onde devo ir? Perguntou-me.
-Depende donde o Senhor quer ir... Respondi desconcertadamente, e o medo já havia me abandonado completamente.
-Quero ir aonde tu fores. Disse-me.
E se encheram meus olhos de água, até que despertasse em minha cama em um dia que a memória diante de tal sonho me roubou completamente, mas o qual eu poderia jurar que era uma cinza sexta-feira santa...
Brumas circundavam todo espaço donde findava o palco, foco da mente, em imagem tão intensa e vívida que se perde o contorno do real; brumas brancas que se apagavam a medida que olhar periférico por elas se seduzia e as seguiam em vão rumo a cinzentos fumos. Brumas brancas, qual nuvens em ensolarado dia que as faz macias e claras, mas o dia era cinza e ouvia minha respiração.
Estava em uma casa inexpressiva de quintal com verde musgo, entre trincados pisos cinzentos e escurecidos pelo tempo, de chuva e sóis tediosos; diante de retorcido e oxidado portão que dava para uma rua deserta.
Por essa rua subiam vozes e cantorias lamuriantes e ruidosas.
Atraiu-me tal cantilena a curiosidade e passaram-se momentos de intermitentes digressões, do qual vos pouparei até que o ruidoso arauto, o som, se fizesse claro e se pintassem diante de meus olhos a estranha visão de; uma procissão?
Sim, uma singular procissão onde não via mastros reluzir, nem imagens, nem nada que reluzisse, pois tudo era cinza, na procissão contrastantemente camponesa, em cenário provinciano com um que metropolitano.
Deleitava-me a curiosa visão, com o fascínio de quem observa um parvo milharal, até uma fração de tempo, uma faísca de olhar que refletiu diante de meus olhos o lampejo de uma imagem que me fez baixar imediatamente os olhos ao passo simultâneo de medo intenso e frenesi arrebatar-me o coração que quis saltar, pelo estanque do calafrio que chibatava minha espinha ereta; caminha na provinciana procissão a figura ensangüentada do próprio Cristo!
Não sei como o sabia, mas havia mais certeza de que era ele, do que de que eu era eu mesmo, não suportei olha-lo, baixei a cabeça, o lampejo de visão periférica que mo revelou, deu-me a sensação de quem viu algo proibido por demasiado, flagrar uma cena comprometedora, surpreender uma nudez, passear diante de um crime, ver o que não devia ser visto...
Mesmo sem tê-lo visto, o via caminhando com expressão de dor e desalento, os cantos lamuriavam sua fúnebre marcha:
Corri...
Desci prontamente escadas do quintal da dita casa, e busquei refúgio em local escuro, onde me deparei em minha fuga com alta parede salpicada de musgo, onde a direita retorcida janela com tela metal prateado revelava um escuro inalcançável e a esquerda continuação da parede que impedia-me, qual deja-vu.
Escolhi a esquerda! E escalei inexplicavelmente o muro, donde em seu cimo, não me bandeava para lugar algum e fitava desolado todas as saídas como uma coisa só.
Sentei-me no muro, qual Humpty Dumpty, a olhar pro nada, e este olhando para mim.
Durou tal torpor até assustado reparar que a procissão entrava na casa, da rua para esta casa!
E caminhava já não ensangüentado o Cristo, descendo as escadas e trazendo-me grande medo.
Sem olhá-lo no rosto o via aproximando-se, e o desespero por fim cedeu a uma cinza resignação, como o ar do dia...
-O que tem do outro lado desta parede, onde irá dar? perguntou-me apontando o dedo cujo buraco nas mãos roubava-me a visão e a memória de qualquer detalhe.
-O senhor sairá na casa do vizinho. Respondi respeitosamente quase sussurrando.
-Ajuda-me a subir onde estás.
Atendi ao pedido sem olhá-lo nos olhos, e inexplicavelmente, assim como eu subi, também o Cristo sentou-se ao meu lado.
-E deste outro lado aqui, o que há? Perguntou-me insistente novamente.
-Aqui há uma espécie de terreno baldio. Respondi-lhe novamente.
- Para onde devo ir? Perguntou-me.
-Depende donde o Senhor quer ir... Respondi desconcertadamente, e o medo já havia me abandonado completamente.
-Quero ir aonde tu fores. Disse-me.
E se encheram meus olhos de água, até que despertasse em minha cama em um dia que a memória diante de tal sonho me roubou completamente, mas o qual eu poderia jurar que era uma cinza sexta-feira santa...



6 comentários:
Seu blog é maravilhoso, Solone.
Realmente uma imagem fala mais do que mil palavras e as imagens escolhidas refletem seu bom gosto e encantamento pelo belo, pela arte e pela fantasia.
Em outras palavras quero confessar que não leio tanto os textos, passo olhos ansiosos por cima e saio na pressa da era informatizada. Mas não resisti a ler o trecho de Byron.
Você é muito prolixo na tela. Na tela escreve-se pouco, no papel temos mais tempo. Cansa-me muito ler no monitor. Dia desses acabarei imprimindo teus escritos para lê-los antes de nos encontrarmos na taverna do isaque para termos mais o que conversar.
abraços cordiais
Seja bem vindo à meu dédalo de luz e sombras Kizzy!
Pelo carinho que tenho por você e por ser conhecedor de seu bom gosto e de "um pouquinho" de sua obra; suas palavras só poderiam lisonjear-me.
Terei em mente seu conselho.
Acho que encontrar nos sonhos, como se fosse uma realidade palpável, uma figura que permeia na imaginação popular deve ser uma experiência no minimo intrigante.
Diria mais, para aqueles convictos da existência de uma figura Cristã poderia soar inclusive como uma armação todos os personagens desses devaneios, isso é, as pessoas que acompanhavam Cristo nessa procissão e o proprio Cristo não? Seria ousadia demais, mesmo numa quimera petulante contestar a oniciencia daquele que lhe pergunta o caminho?
Um abraço/Ricardo
Corrigindo: convictos da inexistência de uma figura cristã.
Muito bom o texto, me sentiria mal apenas escrever isso, 'muito bom o texto' ahahaha, não pude deixar de tentar mergulhar palavra adentro nas suas ideias ahaha.
Muito obrigado por suas palavras generosas Ricardo, e por compartilhar seu ponto de vista:
Não seria ousadia demais talvez, contestar a onisciência, se a própria natureza da ousadia não fosse o aventurar-se no desconhecido; mas o mergulhar no desconhecido, não é justamente um impulso em direção à conhecê-lo? E não seria a negação, o contorno mais claro do que se não entende?
Aqui, Ricardo, mais prazer há em receber do que dar, e mais ainda em roubar ao invés de receber...
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