As idéias são reais, objetivas e universais.Verdadeiramente o único inteligível. Acessíveis, pois, pela transcendência do pensamento.

sexta-feira, 21 de março de 2008

AFFECTIO CHRISTI




Nebulosas quimeras são os sonhos, aqueles que sonhamos dormindo: como se estivessem em vigília os que sonham acordados, todavia sonhos.
Brumas circundavam todo espaço donde findava o palco, foco da mente, em imagem tão intensa e vívida que se perde o contorno do real; brumas brancas que se apagavam a medida que olhar periférico por elas se seduzia e as seguiam em vão rumo a cinzentos fumos. Brumas brancas, qual nuvens em ensolarado dia que as faz macias e claras, mas o dia era cinza e ouvia minha respiração.
Estava em uma casa inexpressiva de quintal com verde musgo, entre trincados pisos cinzentos e escurecidos pelo tempo, de chuva e sóis tediosos; diante de retorcido e oxidado portão que dava para uma rua deserta.
Por essa rua subiam vozes e cantorias lamuriantes e ruidosas.
Atraiu-me tal cantilena a curiosidade e passaram-se momentos de intermitentes digressões, do qual vos pouparei até que o ruidoso arauto, o som, se fizesse claro e se pintassem diante de meus olhos a estranha visão de; uma procissão?
Sim, uma singular procissão onde não via mastros reluzir, nem imagens, nem nada que reluzisse, pois tudo era cinza, na procissão contrastantemente camponesa, em cenário provinciano com um que metropolitano.
Deleitava-me a curiosa visão, com o fascínio de quem observa um parvo milharal, até uma fração de tempo, uma faísca de olhar que refletiu diante de meus olhos o lampejo de uma imagem que me fez baixar imediatamente os olhos ao passo simultâneo de medo intenso e frenesi arrebatar-me o coração que quis saltar, pelo estanque do calafrio que chibatava minha espinha ereta; caminha na provinciana procissão a figura ensangüentada do próprio Cristo!
Não sei como o sabia, mas havia mais certeza de que era ele, do que de que eu era eu mesmo, não suportei olha-lo, baixei a cabeça, o lampejo de visão periférica que mo revelou, deu-me a sensação de quem viu algo proibido por demasiado, flagrar uma cena comprometedora, surpreender uma nudez, passear diante de um crime, ver o que não devia ser visto...
Mesmo sem tê-lo visto, o via caminhando com expressão de dor e desalento, os cantos lamuriavam sua fúnebre marcha:
Corri...
Desci prontamente escadas do quintal da dita casa, e busquei refúgio em local escuro, onde me deparei em minha fuga com alta parede salpicada de musgo, onde a direita retorcida janela com tela metal prateado revelava um escuro inalcançável e a esquerda continuação da parede que impedia-me, qual deja-vu.
Escolhi a esquerda! E escalei inexplicavelmente o muro, donde em seu cimo, não me bandeava para lugar algum e fitava desolado todas as saídas como uma coisa só.
Sentei-me no muro, qual Humpty Dumpty, a olhar pro nada, e este olhando para mim.
Durou tal torpor até assustado reparar que a procissão entrava na casa, da rua para esta casa!
E caminhava já não ensangüentado o Cristo, descendo as escadas e trazendo-me grande medo.
Sem olhá-lo no rosto o via aproximando-se, e o desespero por fim cedeu a uma cinza resignação, como o ar do dia...
-O que tem do outro lado desta parede, onde irá dar? perguntou-me apontando o dedo cujo buraco nas mãos roubava-me a visão e a memória de qualquer detalhe.
-O senhor sairá na casa do vizinho. Respondi respeitosamente quase sussurrando.
-Ajuda-me a subir onde estás.
Atendi ao pedido sem olhá-lo nos olhos, e inexplicavelmente, assim como eu subi, também o Cristo sentou-se ao meu lado.
-E deste outro lado aqui, o que há? Perguntou-me insistente novamente.
-Aqui há uma espécie de terreno baldio. Respondi-lhe novamente.
- Para onde devo ir? Perguntou-me.
-Depende donde o Senhor quer ir... Respondi desconcertadamente, e o medo já havia me abandonado completamente.
-Quero ir aonde tu fores. Disse-me.
E se encheram meus olhos de água, até que despertasse em minha cama em um dia que a memória diante de tal sonho me roubou completamente, mas o qual eu poderia jurar que era uma cinza sexta-feira santa...

Cavaleiro Negro - O Encantador de Serpentes


Conheço muito das víboras, e dentre todos os tipos, sempre as mesmas serão...
Rastejar e engolir a poeira dos que estão acima delas, por isso não lhe perdoam e lhes morde o calcanhar.
Pura inveja, porque seus pensamentos são da altura dos pés dos que se tem eretos e por elas passam lhes deixando a poeira dos pés. Inveja chama-se sua peçonha, e de soslaio olham, por entre a luz que as ofusca. Todas as criaturas exultam quando sobre elas brilha a luz, mas as víboras não.
Ai! E como odeiam mais ainda os pássaros, e os que conseguem voar! Algumas delas aguardam a vida inteira só na esperança de dar um bote em algum de seus pousos, ou quedas, e fazem tudo isso a pretexto de lhes lamber as feridas; nisso se assemelham aos cães!
Morder e envenenar, eis seu maior prazer, porém elas chamam a isso de seu sorriso, pois sempre antes de morder mostram os dentes escarnecendo da vítima.
Escarnecer e mostrar os dentes para envenenar, eis sua maior virtude, e talvez para o que tenham nascido.
Precisam do calor e da luz daqueles que escarnecem e por isso são falsas e recostam-se junto àqueles que odeiam, para morder-lhes o calcanhar e quem sabe lamber-lhes as feridas.
Conheço demasiado essas vendedoras do conhecimento, e mesmo que se adoçassem com toda a macieira, ainda assim a mais inocente sabedoria, lhes faria escorrer a peçonha da inveja e sua baba de Caim.
Até dos que passam por elas coxeando, ainda de muletas, lhe morderiam o calcanhar, pois até coxear é melhor que rastejar, pois a essência da vileza e de tudo que rasteja não é ter-se em pé, mais se regozijar e provocar a queda.
E se escandalizam por estarem abaixo dos que coxeiam, quanto ódio não lhes desperta os que voam?
Também são hábeis em trocar de pele, e se passar por igual dos que tem ódio, mas mesmo assim ainda rastejam.
Chamam-se de astutas, e escarnecendo, têm a si próprias como poderosas, só porque têm peçonha e exibem seus dentes até em sua inveja!
Mas ainda rastejam...
E até se cambaleasse ébrio nos meus defeitos estaria acima delas, porque rastejam.
Contudo, para toda víbora que me morde tenho e guardo bem o antídoto, e conservo minha luz para cada soslaio ofídico; e se sua picada ainda dói, me consolo fácil, pois rastejam!
Sim, mas porque não lhas quebra os dentes? Porque finge que não dói quando lhe mordem? E porque te manténs no seio delas e resolveu ser encantador? – Perguntou o Cavaleiro Negro meio intrigado.
Porem o sábio encantador respondeu-lhe em tom sereno:
Não lhas quebro os dentes, para que sua peçonha não se impregne nas obras das minhas mãos e se tenham seus dentes encravados em meus punhos, e possa a quiromante ler nas linhas de minha vida a intercessão das cicatrizes dessas feridas. Finjo que sua picada não dói, por ser um encantador de serpentes, e como tal, a gente se faz de besta para viver...
E não é por amá-las que mantenho entre elas e fiz-me encantador. Amo ferir s lábios na flauta em canção silvestre por debaixo de ampla faia! Esses meus olhos amam a luz do sol, e do entendimento e elas recostam-se em mim para roubar-me. Amo os verdes prados e umbrosas figueiras onde jacinto negro colhe-se, e narciso amarelo escolhe-se, e em minha serenidade e paz o calcanhar mordem-me! É só por amar demasiado esses locais que me perseguem, mesmo que rastejem.
Podes como eu um dia tentar esmagar-lhes a cabeça e arrancar-lhe as presas, mas elas multiplicam-se como pragas que são e saem de todos os buracos que podereis imaginar, e o único lugar que não as encontraria é na cumeeira de alto picos gelados onde ama-se menos os homens que a solidão, pois do frio elas não gostam, embora regurgitem a indiferença até para os próprios filhos.
Onde houver dourados e lindos feixes da luz do sol envolvendo verdes prados, onde crescem vermelhas rosas, sempre tentarão rastejar por entre elas as víboras.
Todavia contento-me em ser encantador, pois por rastejarem, não vislumbram de minha altura edênicos vergéis e os perfumes inebriantes da vida, com que brincam os ventos do destino, ainda que se esforcem em ter-se eretas, atrai-as antes a urina degradante do roedor que propicia sua subsistência, que as ilude na ponta de minha flauta do que a melodia da minha felicidade pelo qual me feri os lábios a flauta de tanto tocar...
Ouvindo isso, compungiu-se o Cavaleiro Negro e disse-lhe em austero semblante:
-Não está mais aqui quem falou encantador... E se perguntei-lhe tal cousa, foi antes por ti preocupar-me.
-Pois também as víboras preocupam-se comigo, e é delas que recebo as picadas mais doloridas e mais carregadas de peçonha. Respondeu-lhe impassível encantador.
Então o Cavaleiro Negro o fitou com ar irônico, e como que querendo rir-se, foi-se.

Primeiro Amor


Eternidade, é talvez algo que por sem fim, sempre recomeça.
A paixão pede, a consciência segue:
A tristeza escreve...
Eternidade é algo que falo sem conhecer, toda eternidade para mim é um momento sem você!
Apaixonado busco, aprisionado não me liberto, fascinado não me conformo, forte é o que não se entrega, triste é aquele que é forte.
Talvez amar não seja pensar seja sentir, mas penso e sinto! Talvez viver não seja sonhar, seja agir. Mas vivo e sonho...
Tristeza é te abraçar e ver você partir.
A palavra é bonita, mas seu gosto é tão amargo, a lembrança é tão persistente o tempo tão vago...
Poesia reticente é seu preço a tristeza da alma?
De que se alimenta meu amor por você?
Não há conquista que valha mais que o gesto simples.
A luxúria não substitui a escolha feliz.
Parece controlar a vida o que controla o sangue; impulso e conquista vaidade e ego nada mais.
Não quero mais saber, sei demais, não quero mais ouvir, escutei demais, somente o que por você senti quero sentir mais...
A chama que se apaga é a que nunca existiu.
Escrever não trará você para mim, mas tem que me levar a você, de alguma forma.
Amor não é tão difícil de se entender.
A distancia ao invés de me afastar, aproxima, o verso que escorre desdenha da rima.
Amantes nasceram para se amar... Tempo se perde.
Sua boca seduz, meus lábios prometem.
Incerto e infindável, obra do acaso, mero destino.
Não tarde você saberá que nossa vida jamais terá sentido; se não vivido o sentimento mais lindo.

Sobre o Amor e Caridade em Santo Agostinho.


Vocábulos de termos Latinos,

Léxico Garnier, Ernesto Faria, Latino - Português.

Caritas, tatis: Ternura, afeição, amor - CICERO.
Crux, ucis: Instrumento de suplício, sent. Figurado Tortura, tormento e dor – CICERO.
Cupiditas, tatis: Desejo, vontade, ambição, desejo de ganhar - CICERO.
Parcialidade - TITO LIVIUS.
Paixão (amorosa) - QUINTUS CURCIO.
Lignum, i: Madeira, lenha para queimar – HORACIO.

De Amor et Caritas.

Amor, Essentia et pondus homine.

Invocação à Verdade

“Ó verdade, luz do meu coração, não me falem as minhas trevas. Por elas me deixei escorregar, e obscureci-me. Mas mesmo no fundo desse abismo, amei-vos.
Errei mas recordei-me de voz a exortar-me a que voltasse. Porém dificilmente a podia ouvir, por causa do tumulto dos turbulentos. Agora, ardente e anelante, volto à tua frente. Ah! Ninguém me impeça; beberei e assim viverei. Oxalá eu não seja a minha própria vida! Por minha culpa, mal vivi, causei-me a morte. Em vós revivo. Falai, conversai comigo. Acreditei nos vossos livros, cujas palavras encerram grandes mistérios.”
Santo Agostinho, “Confissões”, In: Livro XII – 10 Pg. 348, Tradução: “J. Oliveira Santos, S.J e A. Ambrosio de Pina, S. J., “Os Pensadores”, Ed. Nova Cultural, São Paulo, 1999.

Como posso conhecer?
O profeta Isaías diz: “Se não credes, não compreendereis”.
Santo Agostinho dirá no “De Trinitat”:
“A fé busca, a inteligência encontra.”
Qual a natureza da fé? Pergunta-nos a Fé.
A autoridade do Cristo. A Revelação Divina, O Cristo crucificado.
Ninguém pode atravessar o mar do século se não for carregado pela cruz de Cristo; Cristo pretende que passemos através dele.
Nossa nave para a travessia do mar da vida, até o bem aventurado porto do eterno sábado, onde encontraremos Deus é a “Lignum Crucis” [1], a “Crucis Christi”.
Mas é avesso à espiritualidade de Santo Agostinho o “Credo quia absurdum”; Fé e Razão são complementares.
Qual a natureza da Fé? Pergunta-nos a Razão:
A Fé é “Cogitare cum assensione” [2], acreditando compreendemos e compreendemos crendo; “Credo ut intelligam” e “Intelligo ut Credam”.
Isaías 7, 9: “Onde se não tiverdes a fé, não podereis entender”.
A inteligência é a recompensa da Fé. “Intellectus merces Fidem”.
Em que consiste a razão?
Em conhecer a verdade e adquirir sabedoria.
É essa a sabedoria humana dirá Sócrates e Platão, “Antropiné Sophia”.
Quem é o filósofo?
Amante da Sabedoria. Aquele que procura a verdade.
Aquele que é “feliz” [3].
A Filosofia consiste para Santo Agostinho na Cidade de Deus, em levar os homens a não desistir de buscar a verdade.
No “De Trinitat” encontramos:

“O conhecimento da verdade é um conhecimento participado, graças à verdade absoluta que é Deus, a mente conhece as verdades universais e necessárias”.

Filosofar é buscar a “vida feliz”, e a felicidade só pode ser encontrada em Deus.
O verdadeiro filósofo é um amante, ele ama; é aquele que ama a sabedoria; Deus é a sabedoria e Deus é amor; o filosofo é aquele que ama a Deus.
Se “é” verdade, diz Ambrósio, venha de onde vier só pode proceder de Deus.
Como podemos alcançar essa verdade?
Através de um vôo: E uma ascensão, da dupla asa da Fé e da Razão.
Porém dentro de nós, na luz de nosso coração acesa por Deus; a verdade está dentro de nós, nosso vôo deve consistir em centrarmo-nos em nós mesmos.
Nisso consiste o filosofar da fé.

Coríntios 1, 13.

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.
E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.
O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece.
Não conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba, mas havendo profecias desaparecerão; havendo línguas cessarão; havendo ciência, passará.
Porque em parte conhecemos e em parte profetizamos. Quando então vier o que é perfeito, o que é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino; quando cheguei a ser homem desisti das cousas próprias de menino.
Porque agora vemos como que em espelho, obscuramente, então veremos face a face; agora conheço em parte, então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três: porém o maior destes é o amor.”

Esse é o amor e é “caritas”.
Que nos impede de alcançar tal amor?
Que nos impede de alcançar tal verdade?

Quem é Deus?

“A minha consciência, Senhor, não duvida, antes tem a certeza de que vos amo. Feriste-me o coração com a vossa palavra e amei-vos.
O céu, a terra e tudo o que neles existe dizem por toda parte que vos ame.
Não cessam de repetir a todos os homens, para que sejam inescusáveis. Compadecer-vos-ei mais profundamente daquele de quem já vos compadecestes, e concedereis misericórdia àquele para quem já fostes misericordioso. De outro modo, o céu e a terra só a surdos cantariam os vossos louvores.
Que amo eu, quando vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne.
Nada disso amo, quando amo o meu Deus.
E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para minha alma uma luz que nenhum espaço contem, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo o meu Deus”.
Confissões, In: Livro X, 6 Pg. 263.

Esse é o amor, e é “caritas”.
Que nos impede de alcançar tal amor?
Que nos impede de alcançar tal verdade?

Ultrapassando a força corpórea.

“Que amo então quando amo meu Deus?
Quem é aquele que está no cimo da minha alma? Pela minha própria alma hei de subir até ele. Ultrapassarei a força corpórea com que me prende ao corpo e com que encho de vida meu organismo. Mas não é com essa vida que encontro meu Deus, porque (nesse caso) também o cavalo e a mula, que não tem inteligência, o encontrariam, pois possuem essa mesma força que lhes vivifica os corpos.
Há portanto, outra força que não só vivifica, mas também sensibiliza a carne que o Senhor me criou, mandando aos olhos que não ouçam e ao ouvido que não veja, mas aos primeiros que vejam e a este que ouça e a cada um dos restantes sentidos o que é próprio dos seus lugares e ofícios. Por eles que meu espírito, une e realiza as diversas funções. (Na minha investigação) Ultrapassarei ainda esta força que igualmente o cavalo e a mula possuem, visto que também sentem por meio do corpo”.
Idem, in: Livro X, 7, Pg. 266.

Animalizando-nos, não fazendo uso da inteligência e da razão, não alcançamos a verdade.
A verdade é revelada do homem exterior para o homem interior.
O ceticismo, o crer que não somos capazes de atingir a verdade, nos impede de alcançar a verdade.
Qual a tese dos Acadêmicos?[4]
Convencer os homens da impossibilidade de atingir a verdade. (“Cogitare” “semiassensione?”) [5].
Não é esse o filósofo, não é essa a sabedoria.
É possível encontrar a verdade?
Resposta de Santo Agostinho, na cidade de Deus (Civitas Dei).

“Embora não sejamos iguais a Deus, estando alias infinitamente distante dele, no entanto, como, entre suas obras, somos aquela que mais se aproxima da sua natureza, reconhecemos em nós mesmos a imagem de Deus, ou seja, da santíssima trindade, imagem que ainda deve ser aperfeiçoada para aproximar-se sempre mais dele. Com efeito, nós existimos, sabemos que existimos e amamos o nosso ser e o nosso conhecimento. Em relação a essas coisas, nenhuma falsidade nos perturba. Elas não são coisas como as que existem fora de nós e que conhecemos por algum sentido do corpo, como acontece com as cores que vemos, com os sons que ouvimos, com os odores quando os cheiramos, com os sabores quando os provamos, com as coisas duras e moles quando as tocamos, cuja imagem nos esculpimos na mente e, por meio delas, somos levados a desejá-las.
Sem qualquer representação da fantasia, estou certíssimo de ser, de me conhecer e de me amar. Diante dessas verdades eu não temo os argumentos dos acadêmicos que dizem: “E se estiveres enganado?”. Se eu estiver enganado, isso que dizer que eu existo. Quem não existe, não pode se enganar, logo, por isso mesmo eu existo. Assim, como eu existo à medida que me engano, como posso me enganar acerca do meu ser, quando é certo que eu existo à medida que me engano? E como eu existiria se me enganasse, mesmo na hipótese de que eu me engane, não me engano no conhecer que existo. Daí segue-se que nem mesmo no conhecer de conhecer-me não me engano.
Com efeito, assim como conheço que existo, também conheço que me conheço. E quando amo essas duas coisas (o ser e o conhecer-me), acrescento a mim, cognoscente, esse amor como um terceiro elemento, de não menor valor. E também não me engano no amar-me a mim mesmo, porque não posso enganar-me naquilo que amo. E ainda que aquilo que amo fosse falso seria verdadeiro que eu amo coisas falsas, mas não seria falso que eu amo”.

Esse é o amor, e é “caritas”.
Que nos impede de alcançar tal amor?
Que nos impede de alcançar tal verdade?

Tarde vos amei!

“Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-vos! Disforme lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco! Retinha-me longe de vós aquilo que não existiria em vós. Porém, chamastes-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez!
Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o suspirando por vós. Saboreei-vos, e agora tenho fome e sede de vós. Tocastes-me e ardi no desejo de vossa paz.”
Idem, in: Livro X, 27, Pg. 285.

Não ouvir essa voz, impede-nos de amar e alcançar a verdade.
Não acreditando, e não usando a razão e a inteligência, precipitamos derretidas pelo solvente ceticismo, ignorância e dureza de coração as asas da Fé e da Razão no abismo como em um vôo de Ícaro.
Afundamos na travessia do mar da vida se negamos a revelação e aquele que por amor sofreu a paixão na cruz.
Tragados somos pela tempestade do mar da vida, se não nos agarrarmo-nos na “Lignum Crucis” por amor.
A conversão está ligada ao filosofar da fé, e não negar a autoridade e o amor de Deus e a Paixão de Cristo.

O amor próprio.

“Existe dentro, bem dentro de nós, outro mal, oriundo do mesmo gênero de tentação que faz vão todos os que se comprazem em si, ainda que não agradem aos outros – e até lhes desagradam – ou mesmo quando nem sequer procuram agradar-lhes. Ora, os que assim se comprazem em si mesmos desagradam-vos muito, ó meu Deus, não só quando se gloriam dos males como se fossem bens, mas, sobretudo quando, reconhecendo-os como provenientes de vós, os atribuem os próprios méritos; ou enfim quando, atribuindo-os à vossa graça, não se alegram amigavelmente de que outros também os possuam, tendo-lhes ainda por isso mesmo inveja.
Em todos estes perigos e trabalhos vós vedes claramente quanto teme meu coração. Eu sinto que, no entanto, sois mais diligente em me curar do que eu em me não infligir novas feridas”.
Idem, in: Livro X, 39, Pg. 303.

Sob a ação da carne.

“Que coisa me deleitava se não amar e ser amado? Mas, nas relações de alma para alma, não me continha a moderação, conforme o limite luminoso da amizade, vista que, da lodosa concupiscência da minha carne e do borbulhar da juventude, exalaram-se vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração, a ponto de não se distinguir o amor sereno do prazer tenebroso. Um e outro ardiam confusamente em mim. Arrebatavam a minha débil idade despenhadeiros das paixões e submergiam-se num abismo de vícios.”

Idem, In: Livro II –2, Pg. 63,


Esse não é o amor e não é “caritas”.
Tal “amor próprio”, não é o mesmo amor que temos para com o nosso ser, conhecer e amor, em Deus e na verdade.
Tal “amar e ser amado” é, e para, no amor às criaturas, amando-as mais que ao criador.
Tal “amor” é o mal “Aversio a Deo”, “conversio ad creaturam”, é o pecado.
É ausência do ser de Deus em nós por nossa vontade.
Tal amor não é amor nem “caritas” é “cupiditas”.
“Cupiditas”, não é; porque o mal não tem ser. [6]
Temos nosso ser por participação em Deus e por natureza nossa vontade deveria tender para o Bem. O Bem em mim é obra de Deus é seu Dom, o mal em mim é meu pecado[7].
O que não é “caritas” e amor é “cupiditas”, a “Causa Deficiente” [8] de uma má vontade.
“Pondus meum Amor meus”.
O meu peso está no meu amor.
Existe algo em nós de intransferível, algo que torna o maior de nossos esforços de transferi-lo para outrem vão e sem sentido.
Esse algo incomunicável que nos constitui enquanto o que somos, e que as mudanças do tempo não afetam. [9]
Esse algo que Deus e somente eu conheço, que faz com que eu seja o que sou.
Esse algo que Deus por conhecer ama em mim, e eu conhecendo posso amar também.
É sem conhecer esse algo que o amamos em outra pessoa, e parece verdadeiro o que foi dito do amar:
“Amo porque não conheço, porque quem ama não sabe o que ama, nem que é amar”. [10]
Esse algo, que é o Amor e nossa essência, que torna o indivíduo um fenômeno irrepetível e insubstituível na criação.
É mentira o que comumente é dito, que ninguém é insubstituível.
O indivíduo pode até ser substituível enquanto função que exerce, mas nunca enquanto ser que a exerce; que possam fazer o que faço, mas nunca como eu.
Cada indivíduo que morre, deixa um buraco na existência e na criação e esse buraco em nós, é a dor da morte.
A dor da morte é o buraco que deixa em nós, alguém que amamos e se vai.
A dor da morte só pode ser superada pela vida plena, que participa da verdade, do amor e da vida.

O Peso do Amor.

“Por ventura o Pai e o Filho não pairavam sobre as águas?
Se se imagina um corpo pairando num espaço, o conceito não se pode aplicar nem mesmo ao Espírito Santo. Mas se se considera a eminência imutável da Divindade pairando acima de tudo o que é transitório, então o Pai e o Filho também eram levados sobre as águas, como o Espírito Santo.
Qual o motivo por que só se faz esta afirmação do Espírito Santo? Por que é que só a ele se refere a Escritura, ao falar de uma espécie de lugar onde estava Aquele que certamente não ocupa espaço e do qual unicamente se disse que é o “vosso dom”? É no “vosso dom” que repousamos. Nele gozaremos de vós. É o nosso descanso, é o nosso lugar. É para lá que o Amor nos arrebata e que o “Espírito Santo levanta o nosso abatimento desde as portas da morte”. Na vossa “boa vontade” temos paz.
O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não tende só para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. Movem-se segundo o seu peso. Dirigem-se para o lugar que lhes compete. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas quando encontram, ordenam-se e repousam.
O meu Amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva. O vosso dom inflama-nos e arrebata-nos para o alto. Ardemos e partimos. Fazemos ascensões no coração e cantamos o “cântico dos degraus”. É o vosso fogo, o vosso fogo benfazejo que nos consome enquanto vamos subindo para a paz da Jerusalém celeste. “Regozijei-me com aquilo que me disseram: Iremos para a Casa do Senhor. Lá nos colocará a “boa vontade” para que nada mais desejemos senão permanecer ali eternamente”.
Idem, in: Livro XIII, 9, Pg. 382.

AMÉM...
[1] Associemos ao mesmo tempo em que a madeira que compõem a nave para a travessia do mar da vida, é oriunda da cruz do Cristo Crucificado e que também a nave para a travessia deste mar, o da vida, é fecundo do peso e do suplício do instrumento de martírio, a cruz romana; refletir sobre as reminiscências e simbologia cujo termo latino é rico no pensamento Agostiniano.
[2] “É possível pensar sem crer, mas não é possível crer sem pensar”.
[3] Não tomar pelo sentido contemporâneo de felicidade, feliz no sentido da antiguidade, realização da excelência humana, sentido próximo à “Eudaimonia Aristotélica”, concomitante ou não ao prazer subjetivo moderno, do qual o sentido corriqueiro e atual reflete foscos resquícios.
[4] Vide “Contra Acadêmicos” de Santo Agostinho.
[5] Semidoctus – Meio sábio, (Os Acadêmicos) Semiperfectus – inacabado (Sua filosofia) “Semiassensione” -? Ceticamente? (último termo inexistente no vocábulo latino, malicioso e irônico chiste de minha parte para em termos latinos tentar expressar a visão Agostiniana do filosofar acadêmico em oposição ao “Cogitare cum Assensione” Agostiniano do filosofar da fé).
[6] Consultar tese Agostiniana sobre o estatuto ontológico do mal.
[7] Consultar tese Agostiniana sobre a questão do ser, por participação no ser divino, assim como suas influencias na filosofia platônica e seu contato com a filosofia platônica com os Neo-platônicos como Hortêncio, no conceito de saber mais elevado (“Meghiston Máthema”) Platônico, da ciência da Forma do Bem que derrama o ser das Formas, bem como as suas diferenças do Cristianismo, ao exame de Santo Agostinho.
[8] Para compreender a expressão, consultar conceito Aristotélico de Causa Eficiente no livro da Metafísica, e o estatuto ontológico do mal em Santo Agostinho.
[9] Examinar conceito de indivíduo em Santo Agostinho no livro Imensidão da Alma.
[10] Alberto Caieiro, O Guardador de Rebanhos - Fernando Pessoa

O Cavaleiro de Ouro, O Hospital.


Ao adentrar as portas o Cavaleiro de Ouro penetrou nas alcovas e o frescor das aragens e do cheiro da malva e do açafrão deu lugar ao familiar odor de sangue, tão intenso da guerra que lhe despertava os mais tresloucados lampejos na memória, dos gritos da fúria dos carniceiros, dos gritos, dos alaridos e os gemidos dos moribundos, das lamúrias dos mutilados e de horrores que o deixavam em choque, que em sua expressão que se empenhara em linhas embrutecidas lhe trazia com esgares de angustia e olhos marejados, feições das mais doces crianças.
Forçoso era tal expressão, onde campo algum se assemelhara àquele local; onde a dor era uma reflexão:
Aos campos sobrevinha a incessante eminência do perigo, o frenesi da batalha, a fúria que quer destroçar o inimigo, o medo intermitente das setas, que de todas as direções convertem o vento donde originam-se em suspiros e diminutos zunidos que estancam nos de menos sorte, o som das retesadas cordas flagelando arrepios na espinha ereta das formações e a terrível sensação de vulnerabilidade que armadura alguma é capaz de conter.
Nos campos, se cavalga como que voando sob abismos; dos frisos do elmo a visão é vertiginosa como a de um desfiladeiro, o desespero de ser derrubado da montaria é semelhante ao temor de caminhar em uma corda estendida na bocarra do inferno, com labaredas que agonizam na carne com mil demônios e ávidos e vorazes cães a esfolar como um cordeiro àquele que não se atém à montaria.
O estrondo dos metais é superior à forja de mil ferreiros às vésperas da peleja.
A cavalaria soa como legiões de gafanhotos infernais sedentos pelo sangue dos infantes, à consumi-los como a um trigueiral.
As canções de todos os bravos na glória e beleza da arte do jogral, não passam de elogios fúnebres, donde os gritos dos que o aço despedaça a carne são como risos de seres aéreos e o relinchar agonizante de cavalos feridos louvores a Satanás.
E o cheiro é esse...
Mas ainda somado a esses; as feridas gangrenadas, os fluidos dos pulmões perfurados, o sangue seco e o inestancável... Mutilações indistinguíveis aos olhos, se não se conhece as máquinas bestiais causadoras delas e a amparar a imaginação perversa.
Doenças inomináveis por Galeno e Hipócrates, e até mesmo pelos árabes.
Corpos mazelados, chagas degradantes, alaridos mais insuportáveis que o estrondo de maças na crista do elmo...
Ó Senhor! Ensurdecedoras são tais dores, e não há alma impassível que saiba distinguir-se de insuportável reclame do corpo!
Eis o fruto de nossas obras Senhor... Eis a glória da guerra!
Ó Senhor! Como dói a ti a corrupção da alma.
Ó Senhor! Mas como dói aos homens a corrupção do corpo...
Que maligna corrupção é a morte. Que miséria mais lancinante, e que realidade brutal.
Ó madre estéril, salvando nosso Senhor nossas almas e vencendo-te, vens atormentar nossos corpos; mas não te tememos!
São vossos, nossos corpos, matéria, para vosso solo estéril, ó corruptora da vida.
Não provém de Deus sua miséria; desgraça dos mortais, nem cabe a ti tocar o que pertence a ele, e aos coroados de Cristo, fadada mágoa carnal.
Salva nossas almas, enxuga nossas lágrimas, ó Senhor, salva-nos de nós mesmos!
De ti não provém ó Senhor, o pecado, nem a morte, sua paga.
Todavia nós aceitamos a morte; antes a vida em Cristo e sua glória para o reino de Deus e da terra; mas aceitamos a morte...
Eis, que entendemos nossa miséria, a morte, única certeza dos que não tem fé, uma das certezas dos que tem.
Ensina este teu servo Senhor; e aprenderei; inclinar-me-ei a ti com toda força de meu coração e tremerei diante de teu ensinamento, qual galho cuja brisa balança, e o orvalho umedece presa a figueira... Largarei minha espada, caminharei de encontro a ti.
Que a morte é a paga do pecado... Mas para que há o sofrimento ó Senhor?
Para que há a dor?
Para sabermos que estamos vivos? Para não perdermos nosso contorno no irremediável e dado? Para nos fazer únicos? Para sentirmos a vida?
Dai-nos o júbilo, e a alegria da tua salvação, e dai-nos a dor antes de dar-nos as costas, por mais que vosso pecado vos repugne a face.
Mas para que o sofrimento Senhor?
Perdoe Senhor... Sou um homem ignorante...
Mas que belo júbilo seria a morte aos meus irmãos de armas!
Que frescor balsâmico, almiscarado seria a finitude de tal agonia aos meus irmãos de armas, ó Senhor dos Exércitos!
Quisera eu Senhor, e perdoe minha agonia, por termo a tal ranger de dentes, a tais lágrimas de sangue, tais espasmos corporais que roubam humanidade, e tais feridas incuráveis!
Mas não queria vê-los assim.
Separar-lhes-ia a cabeça dos ombros, saciaria a sede de suas bocas com o sangue de meu punhal, transpassar-lhes-ia o coração com minha espada, e por mina fé, que ela lhes fosse cruz de lápide e fim de angústia que trespassa o coração com honor e dignidade!
Quereria Senhor, abreviar tais gemidos, mesmo que o mar de sangue em minhas mãos, fosse o de sete campos e sua fúria abatesse minha impiedade, e mesmo em mar de sangue, o silêncio de vossas agonias, me fariam pio...
Ó Senhor! Que a morte é uma dor!
Mas para que há o sofrimento?
Ou quereria ainda ter imensa fé Senhor!
Quereria ter fé, para restituir corpos e pedaços, fazer enxergar cegos, devolver passos a coxos e encara-los nessa agonia meus irmãos e dizer-lhes:
Levantem-se... Andem...
Ó Senhor! Que a morte é uma dor!
Mas para que há o sofrimento?
E se ele sazona a alma, que antes volvêssemos em crianças que corressem no teu reino de um lado para o outro e te abraçássemos como a um pai!
Que não soubéssemos nosso nome, por inocência Senhor, mas nenhum homem conhecesse o sofrimento deste lugar!
Ó Senhor, que a morte é uma dor... Mas a que há o sofrimento?

Conceito de Educação, em Fichte




I. Introdução

Esse estudo tem por objetivo um exame nas teorias de Fichte em alguns de seus aspectos relativos à educação e sua concepção.
Inicialmente, esboço para reflexão e contribuição de prelecções realizadas no curso de Filosofia da Educação da Faculdade do Mosteiro de São Bento, apresenta-se dividido em 5 partes essenciais, onde diferente de sua apresentação não inclui-se o exame propedêutico de um dos fundamentos da Doutrina da Ciência, o conhecimento intuitivo, examinado em Nicolai Hartman em sua obra Filosofia do idealismo Alemão da Editora portuguesa Calouste Gulbenkian, bem como sua diferença com a doutrina Kantiana exposta na prelecção.
Esse estudo pressupõe conhecimentos da filosofia transcendental de Kant, sobretudo nas Criticas da Razão Pura e Prática e Fundamentação da Metafísica dos Costumes, e sua repercussão na filosofia de Fichte, ao menos no caráter da linguagem da filosofia transcendental e dos dois filósofos.
Indivíduo, Sociedade e liberdade , em Fichte a união do amor ao saber com a condução a autonomia é buscada a partir dos impulsos naturais do homem, com relação a sua identidade, (Da vocação do homem em si, desdobrado no exame da “educação e liberdade” em Luc Vincent), impulso para sociedade ( Da Vocação do homem na sociedade, desdobrado em “Por uma universidade orgânica do conhecimento” do próprio Fichte) e uso da liberdade (Da vocação do sábio, nas Prelecções sobre a Vocação do Sábio, Fichte).
No movimento idealista, a partir das representações, isto é, do exame do “Eu” (subjetividade), para encontrar-se, fazer uso de sua liberdade, pressupô-la para fora de si (objetividade) em outros seres racionais livres, amar o saber e o conhecimento que enobrece , aperfeiçoa, e encontra seu engajamento ao modelar-se e conduzir os seres racionais mutuamente; educação.
Dever para consigo, ser livre, e para a sociedade e os homens, tornar-los mais perfeitos através de sua própria liberdade e da sociedade; sabedoria.


II. Da Vocação do Homem em Si:

“Tão certo é o homem ter razão como ser o seu próprio fim”.

FICHTE, Johann Gottlieb, “Lições sobre a Vocação do Sábio”, “Reivindicação da Liberdade de Pensamento”, tradução de “Artur Morão”, in: “A Vocação do homem em si, p23”, Edições 70 – Lisboa, 1999


Enquanto algo o homem é um ser sensível, no “Não Eu” ( Nicht ich), determinado pelos objetos exteriores que em oposição ao “Eu Puro” ( Ich das Reine) que é sempre, e absolutamente uno, sempre um e o mesmo, jamais outro.
Nisso está sua Egoidade ( Ichheit), em contrapartida o “Não Eu” pode se contradizer, e sempre que se contradiz é um sinal seguro de que, o homem, não é determinado segundo a forma do “Eu Puro”.


“Eis a proposição: Tão certo é o homem ter razão como ser o seu próprio fim, ou seja, ele não é porque deve ser algo de diverso, mas é pura e simplesmente porque ele deve ser; o seu simples ser é o fim último do seu ser ou, o que vem a dar no mesmo, não pode buscar-se sem contradição um fim do seu ser. Ele é porque é. Esse caráter do ser absoluto, do ser por mor de si mesmo, é o seu caráter ou sua vocação, enquanto ele se olha apenas e simplesmente como ser racional.
Mas ao homem não cabe somente o ser absoluto, o ser pura e simplesmente: pertence-lhe ainda também determinações particulares deste ser; ele não é simplesmente, mas é também qualquer coisa; não diz apenas “Eu Sou”, mas acrescenta ainda “Sou isto ou aquilo”. Enquanto é em geral é um ser racional; enquanto é qualquer coisa, que é ele então? – Eis a pergunta que temos de responder.
O que ele é não é, antes de mais, por ele ser, mas sim porque há algo fora dele. A autoconsciência empírica, isto é, a consciência de qualquer determinação em nós, não é possível sem o pressuposto de um “Não Eu”, como já acima o dissemos e o demonstraremos no seu lugar. Este “Não Eu” deve agir sobre sua faculdade receptiva, que denominamos sensibilidade. Por isso enquanto algo, o homem é um ser sensível.”


FICHTE, Johann Gottlieb, “Lições sobre a Vocação do Sábio”, “Reivindicação da Liberdade de Pensamento”, tradução de “Artur Morão”, in: “A Vocação do homem em si, p23”, Edições 70 – Lisboa, 1999


III. Da Vocação do Homem na Sociedade:

Sociedade é a relação de seres racionais entre si.
Pressupomos os seres racionais fora de nós através de nossas explicações de certas experiências a partir da existência desses seres racionais fora de nós.
O sistema de nossas representações, isto é, a experiência, se condiciona pela ação da razão e das condições de possibilidade do conhecimento (as categorias a priori do entendimento e as formas puras da sensibilidade).

“O impulso mais elevado do homem é, segundo a nossa última conferência, o impulso para a identidade, para a perfeita consonância consigo mesmo; e para poder acordar-se continuamente consigo, para a consonância de tudo o que lhe é exterior com os conceitos necessários que ele a tal respeito faz. Não só importa que não haja contradição relativamente aos seus conceitos, de modo que a existência ou a não existência de um objecto correspondente fosse, aliás, indiferente ao homem, mas deve também proporcionar-se efectivamente algo que ao mesmo corresponda. A todos os conceitos que residem no seu Eu, se deve dar no seu não-eu, uma expressão, uma contrapartida. É assim que seu impulso é determinado.
O conceito de razão, do agir conforme à razão e do pensar é também dado no homem, e ele quer necessariamente não só realizar esse conceito em si mesmo, mas vê-lo de igual modo realizado fora de si. Uma das suas necessidades é a de que fora dele, existam seres racionais da sua espécie. Ele não pode produzir tais seres; mas põe o conceito dos mesmos na base de sua observação do não-eu, e espera encontrar algo que lhe corresponda.”


FICHTE, Johann Gottlieb, “Lições sobre a Vocação do Sábio”, “Reivindicação da Liberdade de Pensamento”, tradução de “Artur Morão”, in: “A Vocação do homem na sociedade, p33”, Edições 70 – Lisboa, 1999




“O homem utilizará as coisas desprovidas de razão como meios para os seus fins, mas não os seres racionais: nem sequer deve utilizar os mesmos como meios para seus fins próprios; não deve agir sobre eles como sobre a matéria inerte ou o animal, de modo a realizar com eles somente o seu fim, sem ter em conta sua liberdade. Não tem o direito de tornar um ser racional virtuoso, sábio ou feliz, contra a sua vontade.
Além de que tal esforço seria em vão, e que ninguém se pode tornar virtuoso, sábio ou feliz, a não ser pelo seu trabalho e esforço próprio; além de que igualmente, o homem, nem sequer o pode, e deve querer – ainda que pudesse ou julgasse poder; com efeito, é ilegítimo, e ele põe-se assim em contradição consigo próprio.
Pela lei da consonância formal e plena consigo mesma, o impulso social é também positivamente determinado , e obtemos assim a destinação genuína do homem na sociedade.
Todos indivíduos que pertencem ao gênero humano são entre si diferentes; há apenas uma coisa em que eles de todo concordam, a sua meta última a perfeição. Só de um modo é que a perfeição é determinada: é totalmente idêntica a si mesma; se todos os homens pudessem tornar-se perfeitos, poderiam alcançar o seu objetivo supremo e último, e seriam assim plenamente idênticos entre si, seriam apenas um só, um único sujeito. Mas na sociedade, cada um esforça-se por fazer o outro mais perfeito, pelo menos segundo seus conceitos; por eleva-lo ao seu ideal, que ele do homem para si estabeleceu. Por conseguinte a meta derradeira e suprema da sociedade é plena unidade e unanimidade com todos os membros possíveis da mesma sociedade.”


FICHTE, Johann Gottlieb, “Lições sobre a Vocação do Sábio”, “Reivindicação da Liberdade de Pensamento”, tradução de “Artur Morão”, in: “A Vocação do homem na sociedade, p39”, Edições 70 – Lisboa, 1999



IV. Da Vocação do Sábio.

O sábio tem por destino ser o mestre da humanidade.

“Quanto mais nobres e melhores fordes tanto mais dolorosas para vós serão as experiências que se vos deparam: mas não vos deixeis vencer por esta dor; superai-a antes pelas vossas acções. Ela tem-se em conta; é tomada em consideração no plano de melhoria do gênero humano. Deter-se e lamentar a corrupção dos homens sem levantar uma mão para a diminuir é efeminação. Verberar e mofar amargamente sem dizer aos homens como se devem tornar melhores é indelicadeza. Agir! Agir! É para isso que cá estamos. Desejaríamos ressentir-nos porque os outros não são perfeitos como nós, se somos apenas mais perfeitos?
Não é justamente esta nossa maior perfeição o apelo que nos é dirigido de que somos nos que temos de trabalhar para a perfeição dos outros? Alegremo-nos, pois, com o espetáculo do vasto campo que temos de trabalhar!
Alegremo-nos por sentirmos em nós força e por nossa tarefa ser infinita!”

FICHTE, Johann Gottlieb, “Lições sobre a Vocação do Sábio”, “Reivindicação da Liberdade de Pensamento”, tradução de “Artur Morão”, in: “A Vocação do Sábio, p77”, Edições 70 – Lisboa, 1999


O sábio é aquele que faz uso da sua liberdade, não possui seu conhecimento para si mesmo, mas antes para a sociedade, há entre os homens um sentimento do verdadeiro que não chega por si, mas que deve ser analisado, posto à prova e purificado, tal é a tarefa do sábio; esse sentimento bastará sempre ao homem para reconhecer a verdade pela verdade, mesmo sem profundas bases, se alguém para ela o guiar.


Cada indivíduo deve, nesta, agir por livre escolha e por uma convicção que ele mesmo julgou suficiente; deve poder considerar-se a si mesmo como fim em cada uma das suas acções, e ser considerado como tal por cada membro. Quem é enganado é tratado como simples meio.
O fim último de cada ser humano singular, e também de toda a sociedade, por conseguinte, também de todos os trabalhos do sábio relativamente à sociedade, é o enobrecimento moral do homem inteiro. O dever do sábio consiste em edificar sempre este fim último e em tê-lo diante dos olhos em tudo o que ele faz na sociedade. Mas quem não for um homem bom jamais pode trabalhar com felicidade no enobrecimento moral. Não ensinamos apenas por meio de palavras; ensinamos ainda, e muito mais profundamente, através de nosso exemplo; e todo aquele que vive na sociedade deve-lhe um bom exemplo, porque a força do exemplo brota primeiro da nossa vida na sociedade. Quanto maior não é esta obrigação do sábio, que se deve avantajar à das restantes ordens em todas as partes da cultura! Se ele fica atrás aquilo que é mais importante e mais elevado, naquilo que toda cultura intenta, como poderá ele ser um modelo que, todavia, deve ser? E como poderá pensar que os outros seguirão os seus ensinamentos que, aos olhos de todos, ele contradiz em cada acção da sua vida? ( as palavras que o fundador da religião cristã dirigiu aos seus discípulos valem, de modo particular, para o sábio: Sois o sal da terra; se o sal perde sua força, com que se salgará ela? Se o escol dos homens está corrompido, onde se deverá ir buscar ainda o bem moral?) Por isso, considerado nesse último ponto de vista, o sábio deve ser o homem do mais elevado valor moral da sua época, deve apresentar em si o grau mais alto da formação moral possível até ele.”

FICHTE, Johann Gottlieb, “Lições sobre a Vocação do Sábio”, “Reivindicação da Liberdade de Pensamento”, tradução de “Artur Morão”, in: “A Vocação do Sábio, p64”, Edições 70 – Lisboa, 1999


V. Egoísmo e Indolência x Liberdade e Dever.

Conversação, diálogo Socrático.
O mestre toma conhecimento do indivíduo, fornece a matéria para a atividade do seu espírito, verifica seus progressos e o ajuda a fazer uso de sua liberdade, a medida que o afasta da inatividade da inteligência, impedindo-o de cair na indolência da “natural da matéria que é feito”.
Tomando parte nos conceitos e trazendo-os para a vida fortalecendo o uso da razão prática, na acção do dever, por dever, na apropriação, transformação e melhora do conhecimento, em atividade recíproca de aprendizado: o mestre aprende com o discípulo, o conhece, e juntos modelam a própria natureza, “ajustando a realidade empírica ao ideal da perfeição da Egoidade”, isto é, ao uso do “Eu Puro”.
A idéia viva é o parâmetro da realidade, e não aquela que se adeqüa a esta.
Kant se pergunta: “De que modo unir a submissão sob uma coerção legal com a faculdade de se servir de sua liberdade? Pois a coerção é necessária ! Mas como posso eu cultivar a liberdade sob a coerção?”
Fichte responderá: “O apelo à livre espontaneidade é o que denominamos educação. Todos os indivíduos devem necessariamente, ser educados para serem homens, sem o que não se tornarão homens” .
Isto é, livres, a acção recíproca do mestre, discípulo, em aprender e orientar o uso da liberdade (racional pelo dever) tendo como pressuposto a racionalidade e liberdade em potência no discípulo a ser desenvolvida pela “forma” da perfeição de sua “Egoidade”, através da atividade de sua inteligência sobre o conhecimento e sua natureza receptiva sensível modelando-a para si e a sociedade.
Diz Fichte: “É unicamente a livre acção recíproca com a ajuda de conceitos e segundo conceitos, unicamente o fato de dispensar e o de receber conhecimentos que forma o caráter próprio da humanidade, único pelo qual cada pessoa confirma-se indiscutivelmente em sua humanidade”.

“Resolvo deste modo o problema que nos coloca esta última reflexão: sem dúvida alguma, os alunos dessa nova educação, se bem que isolados da comunidade dos adultos, viverão entre eles em coletividade e formarão um ser comum separado e existente por si próprio, que terá sua constituição precisamente determinada, fundada na natureza das coisas, e inteiramente conforme às exigências da razão. A primeiríssima imagem de uma ordem social, que o espírito do aluno será incitado a esboçar, será a da comunidade em que ele próprio vive, de tal sorte que ele seja interiormente compelido a formar-se diretamente, ponto por ponto, à imagem dessa ordem, tal como lhe foi efetivamente indicado, e que ele compreenda essa ordem, em todas as suas partes , como inteiramente necessária desde seus fundamentos.”

VINCENT, Luc, “Educação e Liberdade: Kant e Fichte”, in: “Segundo Discurso à Nação Alemã” p114, tradução de Élcio Fernandes - São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista, 1994. ( Encyclopaidéia)



“Deve ser uma regra fundamental da constituição que se exija de quem se distinguir em qualquer desses campos que ajude os outros a aprendê-lo, e que se encarregue de todos os tipos de vigilâncias e de responsabilidades; que se exija de quem conseguir um aperfeiçoamento, ou compreender da forma mais clara possível o aperfeiçoamento proposto por seu professor, que o ponha em prática por suas próprias forças, sem que entretanto, por isso, seja dispensado das tarefas naturais e pessoais de aprendizagem e de trabalho. Deve ser uma regra fundamental da constituição que cada um satisfaça voluntariamente a essa exigência, sem a isso ser forçado, uma vez que se continua livre para recusa-la; que não espere, por isso, qualquer recompensa, uma vez que nessa constituição todos são colocados perfeitamente em pé de igualdade em relação ao trabalho e ao prazer, que não espere nem mesmo um elogio, em vez que a mentalidade a prevalecer na comunidade será de que, nisso, ninguém faz mais que seu dever, e não pode gratificar-se senão com seus feitos e gestos em prol do todo e, dado o caso, com o sucesso desse todo. Assim, nessa constituição, da aquisição de uma maior habilidade e da preocupação dedicada a isso não decorre senão trabalho e uma nova preocupação, e o mais valoroso deve, frequentemente, permanecer acordado, se os outros dormem, e refletir, se os outros brincam.
Os alunos que – se bem que tudo isso seja perfeitamente claro e compreensível, embora incessante – assumirem alegremente essa primeira preocupação e as preocupações maiores que decorrerem, de tal modo que se possa seguramente contar com eles, e que mantenham firmemente, e reforcem, o sentimento de suas energias e de suas atividades, estes a educação pode entregar tranquilamente ao mundo. Neles seu objetivo foi alcançado, neles foi aceso o amor que inflamará até a raiz de seus sentimentos vitais e que a partir de agora, atingirá, sem exceção, tudo o que se relacione com tais sentimentos vitais. Eles não poderão, na comunidade maior onde entrarão a partir de agora, ser outra coisa além do que eram de modo fixo e imutável na pequena comunidade da qual acabam de sair.
Dessa maneira, o aluno está pronto para enfrentar, sem exceção, tudo o que o mundo proximamente exigirá dele, e tudo o que a educação lhe requeria em nome desse mundo está concretizado.
Ele não está, contudo, pronto em si e para si mesmo, e o que poderia ele mesmo exigir da educação ainda não está concluído.
A partir do momento em que tal exigência tiver sido igualmente preenchida , então ele estará capacitado para satisfazer da melhor maneira possível as exigências que um mundo mais nobre poderia, em alguns casos particulares, apresentar-lhe em nome do mundo presente.”

VINCENT, Luc, “Educação e Liberdade: Kant e Fichte”, in: “Segundo Discurso à Nação Alemã” p115, tradução de Élcio Fernandes - São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista, 1994. ( Encyclopaidéia)



VI. Conclusão: Uma instituição Orgânica do Conhecimento

O mestre conhece os progressos e as dificuldades do discípulo, a medida em que conversa, aprende, observa e fornece a matéria para a atividade da inteligência do discípulo; dessa apreensão dos indivíduos com parâmetro regulador na Egoidade, a livre acção do “Eu puro” transcendental no conhecimento em aperfeiçoamento constante ordenado e orientado, surge um corpo docente, discente de arte e ciência orgânico, que se opõe a uma transmissão estática e adestrada, mecânica do saber, porque leva em consideração justamente a parte que o indivíduo racional livre, isto é, com sua egoidade em potência tem na constituição do saber e da ciência sobretudo quando aprende, fazendo uso de sua liberdade, regular a realidade em relação à idéia, pressupondo-a fora de si para outros seres racionais, modelando a si mesmo e restituindo, melhorando por dever a sociedade que está inserido e o constituiu.


“Dissemos que o professor deve ter em mente um sujeito estável e determinado que sempre lhe é conhecido. Caso, e é de se esperar, esse sujeito não consista em um indivíduo, mas em vários, então, como o sujeito do professor deve ser um e determinado, esses indivíduos precisam se amalgamar em uma unidade intelectual num determinado corpo docente orgânico. Por essa razão, eles necessitam constantemente se comunicar em um processo de intercâmbio cientifico, onde cada um mostra aos outros a ciência a partir daquele ponto de vista, do qual ele, o indivíduo, a apreende, o mais capacitado transmitindo ao menos hábil algo de sua flexibilidade e o último transmitindo ao primeiro algo de sua gravidade tranqüila”.


FICHTE, Johann Gottlieb, “Por uma Universidade Orgânica: plano dedutivo de uma instituição de ensino superior a ser edificada em Berlim, que esteja estreitamente associada a uma Academia de Ciências”, in: “ ξ8 p34”, Organização “João Cezar de Castro Rocha, Johannes Kretschmer”, Tradução e introdução: “Johannes Kretschmer”, Rio de Janeiro: Eduerj, 1999. 190p.




VII. Bibliografia


VINCENT, Luc, “Educação e Liberdade: Kant e Fichte”, tradução de Élcio Fernandes - São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista, 1994. ( Encyclopaidéia)

FICHTE, Johann Gottlieb, “Por uma Universidade Orgânica: plano dedutivo de uma instituição de ensino superior a ser edificada em Berlim, que esteja estreitamente associada a uma Academia de Ciências”, Organização “João Cezar de Castro Rocha, Johannes Kretschmer”, Tradução e introdução: “Johannes Kretschmer”, Rio de Janeiro: Eduerj, 1999. 190p.

FICHTE, Johann Gottlieb, “Lições sobre a Vocação do Sábio”, “Reivindicação da Liberdade de Pensamento”, tradução de “Artur Morão”, Edições 70 – Lisboa, 1999.

FICHTE, Johann Gottlieb, SCHELLING, Friedrich Von, tradução de “Rubens Rodrigues Torres Filho, Victor Civita- Abril Cultural, São Paulo, 1ª. Edição, 1973, coleção “Os Pensadores”.











Solilóquio







Quando a morte encontrar a ultima pessoa que me amou; e secarem pela desidratação da saudade toda lagrima que me deixou quem me amou, que regou meus sobranceiros cabelos, hidratou minha boca com seus beijos, fertilizando em mim sofrimento, em cada linha de meu corpo hidrópico de lágrimas, com sempiternos lamentos e fibras de areia, como canto de sereias, me levam ao desterro como o vento e minha vida me abandona com amor para arribar do inferno frescor de inverno e transpirar no sereno veneno para em minha pele ser bebido...
Sei que algo irá mudar! Há de restar algo quando mudar?
Quando quem por último me amou morrer só poderei ser livre para me abandonar.
Não fará mal se ninguém me ouvir, eu que me acostumei a fazer de minha voz e meu apelo mais desesperado um pensamento, cantarei de minhas laudes às minhas vésperas o laurel do abandono, mesmo que tenha que o cantar para eu mesmo ouvir.
Há de ser assim após mudar, devo destruir a mim mesmo, esquadrinhar e expor todo segredo como um adivinho me reduzir a cinzas e a espaço vazio como escuridão dissipada pelo sol às matinas.
Seguirei o caminho que leva a mim mesmo, descalço, por sendas de espinhos que semeei, por fofos arrabaldes de burgos litorâneos, por deflagrados passos sobre desertos vitrificados sob escaldado meio-dia; ora atravessando veios d´agua para despistar-me de mim mesmo, ora admirando guirlandas de flores onde soluçam arroios serpenteando por pedras que se afundam após meus pés, seguem-me regatos com cantos de Oceânides oferecendo-me réquiem e uma morte lodosa...
Ó miséria e insatisfação! Que vêem ter comigo?
Eu que sou o desiderato agonal, e a hialina lividez de toda resolução de beatitude!
Ai! Quanto fel e cinzas hei de exprimir em palavras doces como mel de matizes flavos como os cabelos da Musa e vossos bustos trigueiros, meus travesseiros e aparador das minhas lágrimas.
Como adivinho ou adulterador de vinho paupérrimo e bocados ciganos que escondem vidros moídos, dissimulados em doçura e retórica.
Desolação, que não encontra reflexo, ou compaixão nem entre vivos nem entre mortos, nem no passado nem no presente, nem por onde ande, ou por onde leia, ou me leve a imaginação em um instante frugal... Ó Desolação, onde estão teus pares?
Como hei de te suportar ó vibração de trevas, quem há que queira ouvir-me e derramar sequer uma lágrima de comoção para desedentar-me com vossa dó, ou sentir-se estrangulado pela agonia que minha febre irradia para além do delírio e fastio que edulcora essa venenosa lamentação com cristalinos açucares inflamados de ardor e paixão?
Escravas: - Nós! Que sofremos por vós! Dê-nos sua tristeza e sugue nossa alegria, como sugou nosso sangue... Alimenta-nos com teu egoísmo, e roube nosso amor! Para sofremos com vossa desolação, abuse de nossa compaixão; martirize-nos, e arranque de nós comoção; violentai-nos! E diga, que há em vosso coração?
Nada! Foge por ele minhas lembranças e fortuitas sensações...
Escravas: - Oh! Ai de nós!
Ó lápide! Flor gram cinza que saltou como a codorniz nesse estéril jardim de fortuita sensação, que estás arraigada em meu coração, pelo esquecimento do tempo e o acaso normativo da contingência dos momentos, não sois vós, as placas deste busto indômito?
Ó lapides! Ó lajes!
Escravas: - Oh!
Donde dentro nada se escuta: a não ser o vibrar dissonante que vem em parte, da abjeção de em ti bater e se fazer ouvir com os excessos de um ferrabrás e os gemidos tresloucados de uma meretriz dos burgos, que com fastio e o tédio de amarga contemplação, de tua frieza cinza e a serena vileza da saciação o fazem lamentar como uma desavergonhada, e abafada por ti ó lajes, repercute em tristeza e frustração nessa música de escuridão...
Escravas: - Ó gentil amante! Dançaremos para ti... Seja teu choro nossa música e tuas lágrimas nosso aplauso.

Primeiro Beijo


Se você pudesse me ver, ou até meus pensamentos ler, nem mesmo assim eu saberia dizer, o quanto amo você.
Mais jovem sou, inexperiente no amor, nada tento fazer; refletindo no medo te amando em segredo, sou consumido pela dor; às vezes sentindo ódio e tristeza por causa da mais bela pureza que emerge em seu olhar!
Alimentando a cada dia o mais lindo e único desejo de poder te amar...
Muitas vezes refletindo sorrindo me pergunto se, devo chorar?
Porque tanta nostalgia se no decorrer dos dias talvez tudo possa acabar?
Será isso verdade ou apenas uma imagem de uma falsa realidade que tento me impor?
O que me importa é que sem você meu destino é sem cor, meu coração arde em chamas e caminha em dor.
O que eu menos preciso é caminhar sem sentido olhar para o céu e chorar, o meu amor é motivo, meu desejo é vivo! Preciso sentir seus lábios ao meu tocar!
Talvez você se sinta desiludida por alguém que persista não mereceu e nem soube te amar.
Talvez você reprimida, chore sentida por aqueles que te amam e não sabem expressar.
Sempre transmiti meu apoio pela viagem dos meus olhos, pela vontade do meu pensar...
Nada me deixou mais triste, do que saber que seus olhos tão lindos vivem a chorar.
Nossos caminhos talvez sejam opostos, talvez nunca vão se cruzar, vivo um momento tão triste, onde o amor encarna e não pode se libertar...
Sinto dor, e meu único refugio é dizer, que sempre irei te amar.

"Função Social" do Filósofo




A produção teórica e a atividade filosófica parecem comum a nós no seio da academia, aquém desses círculos universitários onde a filosofia pareceu sempre ter seu lugar é-nos também conhecido algumas das mais tradicionais “semanas de filosofia”, como a da Pontifícia Universidade Católica (PUC), do qual, fruto de diversas palestras realizadas entre 24 e 27 de setembro de 1991, sobre a filosofia e seu ensino, lemos as reflexões na forma de alguns artigos de renomados professores de filosofia sobre a atividade filosófica para além do seio acadêmico, sua práxis e sua representação na sociedade.
Representação essa que é tema do artigo do professor Franklin Leopoldo e Silva, “Função Social do Filósofo”, e objeto da presente recensão.
O artigo do professor Franklin Leopoldo e silva, foi originalmente publicado na coletânea:

Textos Filosóficos, 2ª. Edição, editada pela SE/ Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, Mimeo, São Paulo, 1992; pp.15-25.

Este versa sobre as relações entre filosofia, história e sociedade a partir de recortes específicos da História da Filosofia desde já problematizando a arbitrariedade da escolha dessas concepções e o contraponto de uma negação de uma função social da filosofia e concepções que a caracterizam como a-histórica, ainda que estas, figurem como históricas na filosofia em determinadas condições e épocas.
Sob a contraposição da égide da razão universalizante e ordenadora da filosofia e a relatividade da contingência do “devir histórico”, o professor Franklin, pensa a função social do filósofo sob o prisma de duas possibilidades de construção do tema, que na sua opinião interligam-se e completam-se mutuamente:
Qual é a função social do Filósofo? Que o leva a analisar e interrogar esquematicamente as filosofias de Platão, Descartes, Pascal, Nietzsche e Merleau-Ponty, modo a articula-las dentro do tema a partir de três critérios postulados para a escolha de tais autores, a saber:
I. Origem da filosofia enquanto conjunto de textos, passiveis de extração sistemática e integradora da articulação proposta.
II. A oposição clássica entre racionalismo e a crítica do racionalismo, tomando por expoentes de um lado, Descartes e Kant e por outro Pascal e Nietzsche.
III. A reflexão filosófica de Merleau-Ponty sob o aspecto da existência, do indivíduo, da crítica da racionalidade tradicional e a história.
E qual deve ser a função social do Filósofo? Recusando-a de imediato enquanto mera perspectiva alternativa ao pluralismo de posturas possíveis frente às estudadas.
Uma das dificuldades que se apresenta a qual deve ser a função do filósofo, consiste no caráter a-histórico da filosofia, donde o plano da reflexão filosófica mostra-se distanciado da ação social e histórica, enquanto as reflexões e objetos desta, situam-se no absoluto, escapando à circunstancialidade e relatividade sociais e políticas constituídas durante o processo histórico.
A filosofia encontra-se juntamente com seu discurso no tempo lógico[1], e o filósofo “seria aquele que tem o privilégio de falar do eterno e a partir do eterno”.
Contudo essa mesma perspectiva depende de uma determinada concepção da filosofia, a partir do qual se pergunta sobre a função a desempenhar.
E ainda, a filosofia que se quer a-histórica, como sistema absoluto, que tem o absoluto como escala donde pretende mover-se, fundamenta-se de forma crítica no refutar e incorporar outros discursos filosóficos tomados por menos verdadeiros, tendo que considerar a história, pondo-se polemicamente como relativa no contexto histórico que a circunda.
No mito da caverna em Platão, o professor Franklin nos mostra que é no retorno à caverna que devemos perguntar sobre a função social do filosofo, lá é que há o “entrelaçamento do amor à sabedoria com a condução à autonomia, a pedagogia.”
A política e todo poder que o filosofo tem, reivindica e precisa para a interferência no social é a educação.
Em Descartes essa interferência, consiste no ideal de racionalidade baseado na prevalência do sujeito, onde a atividade técnica e transformadora da natureza, desenvolve-se em teoria metodicamente estabelecida pelo poder da razão estendida às realidades passiveis de apreensão objetiva.
A essa atitude Cartesiana, o professor Franklin credita “fundamentalmente todas as conseqüências históricas do rumo tecno-científico que a civilização ocidental tomou a partir do século XVІІ no plano social, histórico e político”.
É claro que essa consideração, articulada a partir de uma visão esquemática, nos leva a ressalvar, que Descartes primando pelo encadeamento por razões e unicidade dos saberes através de princípios, não é nem de longe responsável pela relativização de perspectivas, “fragmentação” e desenvolvimento em grau “superlativo” de especialidades nas ciências, e inclusive na Filosofia[2], quanto menos, fundamentalmente, embora essencialmente, a ciência nos dias de hoje, esteja imbuída sim, da “atitude Cartesiana”.
Por Pascal, a racionalidade Cartesiana que confere ao homem o lugar de soberano da natureza, é criticada através do sentimento agudo de finitude; da razão normativa aos aspectos da vida que o significam por uma universalidade teórica, mas incapaz de solubilizar as contradições inerentes da vida. Sendo o homem corrupto, o valor da história também o é inexoravelmente, prendendo a função social à nostalgia do infinito, assim como a inserção do homem na história e o compromisso do filósofo, a manutenção dessa errância e peregrinação através de contradições e com a divindade oculta à razão, mas que, fundamenta o sentido do homem e a esperança através da salvação; “possível a partir do mais importante dos eventos históricos e, ao mesmo tempo, o mais incompreensível de todos, a redenção pela morte de um homem que era Deus”.
O filósofo para Nietzsche, que quer recuperar a realidade para além dos sentidos que ela assume, na história enquanto negação e ilusão através da presidência da razão, tendo sua gênese no recalque das paixões, guiada pelo pragmatismo para tentar exprimir uma realidade que é em si mesma racional, que não deixa de ser apenas o ponto de vista do animal racional que desde a percepção até a especulação, simboliza sonha acordado e se ilude.
Esse filósofo, deve desmistificar o conhecimento, a história e a cultura da razão ordenadora, dissolvendo a ordem, a verdade, universalidade e as ideologias racionais através de uma crítica genealógica, recuperar a realidade, em uma postura de autenticidade para consigo próprio.
Por fim Franklin Leopoldo buscará o engajamento do filósofo dentro da história, em Merleau-Ponty, com o homem acreditando no sentido da história, na dicotomia do afazer e sofrer a história, não conferindo a ela um sentido como que obtendo respostas ou as tendo, mas testemunhando esse sentido de dentro da mesma como quem se procura e não como quem se encontrou, porque a razão e esse sentido, jamais puderam ou poderão excluir as angustias e sua imprevisibilidade.






Recensão sobre:

EDUARDO ARANTES,P./et alii “A filosofia e seu ensino”; in: “Função Social do Filósofo”, Franklin Leopoldo e Silva, São Paulo: Educ, 1993, 96 p.- Coleção Eventos





[1] GOLDSCHMIDT, V. “A Religião de Platão“, in: “Tempo Histórico e Tempo Lógico na interpretação dos sistemas filosóficos, pp. 139”, tradução Oswaldo Porchat Pereira, São Paulo, Difel, 2 edição 1969
[2] Filosofia da Ciência, Filosofia Política, Filosofia Analítica, Filosofia da Religião...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Questões Metafísicas sobre "De ente et Essentia" de St. Tomás de Aquino


1- Destaque os aspectos principais do plano de Tomás de Aquino no prólogo do “De Ente et Essentia”.

Sto. Tomás de Aquino, para que o aprendizado do assunto se dê de maneira adequada, isto é, conformemente o processo cognitivo humano (demandando o intelecto na substância composta a essência, partindo da sensação para a concepção), deve-se começar pelo que é mais fácil e assim extrair-se o conhecimento do que é “simples” do “composto” chegando-se ao que é anterior, partindo-se do posterior.
Entretanto afirmando com Avicena[1], que o ente e a essência são o que primeiro o intelecto concebe, e observando com Aristóteles[2] que um pequeno erro no princípio tornarse-á grande no final, Sto. Tomás de Aquino pretende dissipar eventuais dificuldades por falta de clarificação dos conceitos de ente e essência, cumprindo-se para isso dizer o que é “significado pelo nome de ente e essência”, como se encontra em diversos (significados), isto é, a partir de sua concepção como conceito enquanto se enuncia na verdade das proposições e no que tange os dez predicamentos bem como se relaciona com as intenções lógicas universais de gênero, espécie e diferença.
Desde o prólogo do “De Ente et Essentia” Sto. Tomás de Aquino aponta ou esboça, concisamente sua pretensa articulação ontológica acerca do ente e a essência.






2- Faça uma síntese concisa do capítulo 1 do mesmo opúsculo.

Buscando clarificar o conceito de essência Sto. Tomás destaca no livro Δ de Aristóteles os modos como o ente se diz por si, a saber, dois modos:
Dividido em dez gêneros, isto é, as dez categorias ( onde, quando, relação, agir, padecer, qualidade, quantidade, substância, hábito e disposição) e acerca da verdade das proposições, modo donde as privações e negações podem ser ditas entes, pois sua distinção do primeiro modo é, ser afirmativa ainda que não acrescente nada a coisa.
Sto. Tomás conclui com Averróis[3] que a essência da coisa é significada pelo ente dito no primeiro modo (o dividido por dez gêneros) onde a essência deve ser comum a todas as naturezas onde os entes estão dispostos nas intenções lógicas universais gênero, espécie e diferença.
Entretanto, conforme é exposto no capítulo 2 do “De Ente et Essentia”, mas para situarmo-nos melhor, tais intelecções nunca tomadas da essência das substâncias compostas para significa-las a modo de parte, não sendo pois humanidade espécie mas antes homem, pois o considera a partir do composto de forma e matéria, antes humanidade é forma do homem enquanto homem, intelecção tomada a modo de parte do que o homem tem o ser homem, da mesma forma animalidade não é gênero, mas antes animal, pois deve conter o todo da coisa, ainda que de maneira implícita e indistintamente, dando-se a essência nas intenções lógicas nas substâncias compostas, de acordo com os acidentes que acompanham a essência em conformidade com o ser que possui no intelecto, abstraindo um ser de tudo que individua, o intelecto, encontrando no ser que possui, a unidade e semelhança destes em conformidade com as coisas, e nesta relação descobre o intelecto a noção de espécie e lhe atribui, assim para as noções de gênero e diferença semelhantemente.
O que é estabelecido no gênero ou na espécie é o que define o que a coisa é, daí o nome de “quididade”; a definição da essência do ente no primeiro modo através do gênero ou espécie; a especificidade da essência enquanto “o ser algo”.
Sto. Tomás harmoniza o significado de “quididade”em Avicena, enquanto forma, na medida de certeza significada pela forma, e enquanto natureza em Boécio[4], enquanto aquilo que seja como for pode ser captado pelo intelecto, pois a coisa é inteligível pela sua definição e essência, aspecto que concorda com Aristóteles no modo do qual a substância é natureza.
Porém Sto. Tomás distingue nessa aproximação, que natureza significa a essência enquanto ordenada à operação da coisa, e “quididade” é significada pela definição e dita essência enquanto pela “quididade” e na “quididade” o ente tem o ser. Por exemplo o dizer-se com Averróis ( “O Comentador”) que a “quididade” de Sócrates nada mais é que sua animalidade e racionalidade, isto é, o composto de matéria e forma.
Há essência própria e verdadeiramente nas substâncias, e sob um certo modo e aspecto nos acidentes.
As substâncias são simples e compostas donde a essência das simples são mais verdadeiras e nobres e são com efeito causa das substâncias compostas: Deus, a substância primeira e simples.
No entanto a essência das substâncias simples são mais ocultas ao processo cognitivo humano, e como Sto. Tomás apontou no prólogo, deve-se principiar do conhecimento das substâncias compostas para o das simples, pois para processar-se um aprendizado mais adequado é preciso conformidade a natureza cognitiva do homem, pois algo só pode ser conhecido em ato; deve-se principiar partindo-se da sensação para a concepção, do efeito para a causa, onde então pela atividade do espírito no ato de conceber, o ente se rende ao homem.




[1] Metafísica (l,6 72b, A). Abu Ali al-Hussayn ibn Abd-Allah ibn Sina, (Bucara, 980 — Hamadã, 1037) foi um filósofo e médico persa conhecido no Ocidente como Avicena.Sua cultura foi enciclopédica. Suas obras sobre medicina ainda eram reimpressas no século XVII. Além de gramática, geometria, física, jurisprudência e teologia, estudou profundamente a filosofia platônica e aristotélica.
Verbete extraído da enciclopedia online Wikipédia: [http://pt.wikipedia.org/wiki/Avicena]
[2] Aristóteles nasceu em Estagira, na Calcídica, (384 A.C. - 322 A.C.) Filósofo grego discípulo de Platão e preceptor de Alexandre O Grande, é considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos e criador do pensamento lógico.
Está entre os mais influentes filósofos gregos, junto com Sócrates e Platão, que transformaram a filosofia pré-socrática, construindo um dos principais fundamentos da filosofia ocidental. Aristóteles prestou contribuições fundantes em diversas áreas do conhecimento humano, destacando-se: ética, política, física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia, história natural. É considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental.
Sobretudo no periodo medieval, Sto. Tomás de Aquino e os homens de saber na idade média em geral, referiam-se a Aristoteles como o “Filósofo” (minha interpolação).
Verbete extraído da enciclopedia online Wikipédia: [http://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles]

[3] Abu al-Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn, filósofo árabe também conhecido pelo nome de Averróis, nasceu em Córdoba, 1126 e morreu em Marrakech, 1198. Foi um dos maiores conhecedores e comentaristas de Aristóteles. Aliás, o próprio Aristóteles foi redescoberto na Europa graças aos árabes e os comentários de Averróis muito contribuíram para a recepção do pensamento aristotélico. Averróis também se ocupou com astronomia, medicina e direito canônico muçulmano.
Sobretudo no periodo medieval, Sto. Tomás de Aquino, referia-se a Averróis como o “Comentador” (minha interpolação).
Verbete extraído da enciclopedia online Wikipédia: [http://pt.wikipedia.org/wiki/Averr%C3%B3is]




[4] Anicius Manlius Torquatus Severinus Boetius (Roma, c. 475 a 480 — Pavia, 524), mais conhecido na literatura lusófona por Boécio, foi um filósofo, estadista e teólogo romano que se notabilizou pela sua tradução e comentário do Isagoge de Porfírio, obra que se transformou num dos textos mais influentes da Filosofia medieval europeia. Traduziu, comentou ou resumiu, entre outras obras dos clássicos gregos, para além do Isagoge de Porfírio e do Organon de Aristóteles, vários tratados sobre matemática, lógica e teologia. Notabilizou-se também como um dos teóricos da música da antiguidade clássica greco-latina, escrevendo a obra De institutione musica.

Verbete extraído da enciclopedia online Wikipédia: [http://pt.wikipedia.org/wiki/Anicius_Manlius_Torquatus_Severinus_Boetius]




3- No capítulo 3 do “De Ente et Essentia”, como a essência se dá no gênero, na espécie e na diferença?

A partir dos acidentes que acompanham a essência em conformidade com o ser que a essência tem no intelecto, esta “se dá”, ou “está” para as noções, ou intenções lógicas universais.
As noções de gênero, espécie e diferença não cabem à essência enquanto significada a modo de parte pois predicam-se do singular assinalado, isto é, contendo implícita e indistintamente o todo que encontra-se no individuo.
Não enquanto algo existente fora dos singulares, ou seja, indivíduos, cujas formas transcendentes e separadas são sua essência.
Sto. Tomás rejeita a perspectiva platônica enquanto hipótese que traz proveito ao conhecimento dos singulares.
A essência tomada na noção de gênero ou espécie, isto é, significada a modo de todo, pode ser considerada de dois modos:
A sua consideração própria: absoluta, onde não lhe cabe a universalidade e comunidade mas somente o que lhe cabe enquanto tal, ou seja, o gênero, a espécie e a diferença tomada desta forma na essência, não teria o “ser neste singular, pois se ser coubesse ao homem na medida em que é homem, nunca seria fora deste singular, semelhantemente também, se coubesse ao homem na medida em que é homem, não ser neste singular, nunca seria nele.
A natureza absolutamente considerada, abstrai de qualquer ser, sem que se os exclua, predicando-se de todos indivíduos.
Mas a noção de unidade e comunidade do universal não é assim tomada da natureza, mas obtida no intelecto em conformidade com as coisas.
A natureza humana tem de acordo com o ser que tem no intelecto um ser abstraído de tudo o que individua, essa noção uniforme dos indivíduos leva ao conhecimento de todos os indivíduos na medida em que o intelecto os descobre em tal unidade e comunidade e nessa relação o intelecto descobre a noção de espécie e lhe atribui enquanto tal.
Assim Sto. Tomás concorda com Avicena e Averróis ( “O Comentador”) que “o intelecto é que produz a universalidade nas coisas”.
A essência tomada nas noções de gênero e espécie também pode de outro modo que não sua significação própria, ser considerada de acordo com o ser que tem nisto ou naquilo, predicando-se dela por acidente em razão daquilo que é, daquilo que pode advir-lhe.
Por essa razão também Sto. Tomás discorda do “Comentador” ao concluir a unidade do intelecto em todos os homens, da universalidade da forma inteligida.
Pois a universalidade não se dá com o ser “especifico”, ou melhor, “individuado” que este ser tem no intelecto, mas na medida em que se refere às coisas como semelhança das coisas.
O ser individuado é acidental, constituído em sua individualidade a partir do composto de forma e matéria assinalada que é principio de individuação, assinalada pela forma.
O exemplo de Sto. Tomás é o da representação de uma estátua:
“Do mesmo modo também se houvesse uma estátua corporal representando muitos homens consta que aquela imagem ou espécie da estátua teria ser singular e próprio, na medida em que estivesse nesta matéria, mas teria a noção de comunidade, na medida em que fosse a representação comum de vários”.
Esta é a razão pelo qual o nome de espécie não é predicado de um individuo como Sócrates por exemplo, de maneira que se diga que Sócrates é uma espécie, Sto. Tomás conclui, que tal consideração ocorreria necessariamente se a noção de espécie coubesse ao homem de acordo com o ser que tem em Sócrates, isto é, o indivíduo, ou na sua consideração absoluta, na medida em que é homem, pois predica-se do individuo.
A noção de espécie convém à consideração que tem nos acidentes que acompanham a essência em conformidade com o ser que tem no intelecto.
A predicação é algo que se completa pela ação do intelecto que compõem e divide com fundamento na própria coisa.
Assim está a essência nas substâncias compostas, para a noção de gênero espécie e diferença.[1]







[1] Breve comentário sobre a Reconstrução do capítulo 3 do “De Ente et Essentia”:

Essa reconstrução mostra-nos que o ente se rende ao homem pelo ato do espírito e o poder conceptivo do intelecto, somos capazes de apreender o universal, mas na medida em que este encontra-se em nosso ser individuado e acidental relativiza-se.
Assim o homem , a Filosofia e a Teologia, podem atingir a verdade absoluta, mas não pode detê-la em seu ser acidental, ou a Filosofia como concepção a-historica e sobrevôo do absoluto ao contemplar objetos distantes da circunstancialidade política e histórica, ao considerar o devir histórico e refutar as concepções que julga menos verdadeiras põe-se como relativa, assim como a Teologia ao dogmatizar as verdades de fé extraídas da revelação histórica.
Somente o ser simples e uno de Deus pode detê-la ( a universalidade e verdade absoluta) e sê-la em si, cabendo ao homem contempla-la.


4-Bibliografia:

AQUINO, T. “O Ente e a Essência” / in: “Prólogo, Capítulo 1”; tradução de Carlos Arthur do Nascimento; apresentação de Francisco Benjamin de Souza Neto. – Petrópolis, RJ: vozes, 2005.



Aliteração em M - (Paciência e léxico leitor!)




Monólogo Melancólico

Macambúzio, Martírio Maremoto; Marasmo Melancolia.
Meio-dia Molúrio, Mossoró, Marisma, Maviosidade;
Mendaz, Melindrosa Melodia.
Meia-noite Miramar, Minuano, Melúria ,Meditar;
Mensurável Maresia.
Mazelas...
Mausoléu Metafísico, Memorável Mendicância,
Minuto Minguante, Marcha Mentecapta, Metrópole Menoscabada,
Malogrado Malquisto, Magnólia Mefítica, Mandinga.
Melania...
Mentalidade, Mobilidade, Mercadoria;
Misteriosa, Mistifório, Ministrada Misantropia.
Modorra...
Modalidade Miseranda, Miradouro Masoquista.
Medo...
Máscara , Masmorra, Morada Minaz,
Mordaça, Menoplegia Mental, Muralha Malpropicia.
Mundo...
Mundo Mastim, Mansarda, Malhadouro Metodista,
Mercantilista Mesquinho, Medíocre, Monocromático,
Mordaz Moralista.
Mundo Monumental...
Moroso, Mirabolante, Mesureiro, Miliário,
Milongueiro, Medidor Monopolista,
Mortalha Mimetista.
Mundo Morada...
Mandarins, Monsenhores, Marechais, Marxistas,
Magnatas, Mercadores, Maximalistas.
Monges, Médiuns, Magos, Mestres Místicos,
Mitomaniacos, Morfinomania...
Monoteístas, Muçulmanos, Marianos, Mórmons, Maçons,
Maometanos, Mancomunados, Macumbaria.
Magotes, Matutos, Multidão, Machacazes, Malnascidos.
Marqueses, Marajás, Manda-chuvas, Mantenedores,
Maquiavélicos, Mal-agradecidos.
Mulheres...
Marcantes, magnéticas, Maneirosas, Misteriosas, Matreiras
Maliciosas, Metidas, Melancólicas.
Mitigantes, Meretrizes, Meritíssimas, Madonas.
Merecidas, Mentirosas, Monogâmicas, Mandonas.
Modestas, Modernas, Maravilhosas, Monumentais.
Meigas, Musas Mitológicas, Majestosas,
Maduras, Mortais.
Miragens, Mulheraças, Meninas Moça, Meia-idade,
Metabólicas, Magras, Métricas, Maioridade.
Modelos...
Mordiscantes, Malaguetas, Moderadas, Messalinas.
Malvadas, Matriarcas, Megeras, Megalomaníacas,
Melodramáticas, Materialistas, Matracas, Marimachos, Mariticidas.
Morte...
Marroaz, Mundana, Maldita,
Manifesto, Márcida, Maligna.
Malfadada Mágoa...
Mácula Maetrisna, Malversado Malefício,
Medusa Metediça.
Metacronismo Miscelâneo, Mistela Mal Moscada,
Multivago Mundial...
Meu Murmúrio Mais Maluco...

Baba de Moça.



(...) Baba de moça.
“É um pecado desperdiçar”... ID-?

Que olhar subjetivo danado e airoso?
É um Fio aquoso delicado e gostoso...
Escorre silencioso, leve, guloso...
Por que se furtas aos olhares cegos e claudica promiscuo?
É com a vergonha que me delicio, com medo de ser visto...
Com expressões femininas de satisfação proibida,
Aonde tens a malicia de comer como os usurários.
Saboreando o dedo no contorno dos lábios...
Suga o que escorre menino, com gulodice e pujança.
Ai! Como é bom... Como é bom... Ser criança...
E não ter vergonha das gulodices que escorrem da boca...
Deleite rubio e ensandecedor, minha vida e força.
Oxida-me os lábios, toca-me a boca como sublime tintura em alva louça.
Dentre a paleta dos artistas na tela pálida de meu cenho... Ah... Aqui o tom primoroso.
O rubor qual luxuria que me desenha as linhas da volúpia e da beleza hedônica!
Que verte seu sabor ferruginoso e o eflúvio das sensações que pulsaram por seus rios...
Das lajes de mármore alvo da minha mais impassível beleza diante de sua corrupção.
Sua cor amadurece em mim a passional beleza ruborizada da satisfação.
Chega a ser tão doce, e liquida sua introspectiva ação em meu corpo através de minha boca.
Qual escultor que ora acaricia ora pungi o corpo e a face que na pedra carente da vida por ele se treslouca.
Sangue! Sussurrei, gemi e balbuciei com o langor prazenteiro da forca.
Onde se perde o ar, quando se deixa escorrer o sêmen pela coxa...
Ah... Ai! Gostoso... Ó como é bom!Oh coisa louca!
Baba menino, Baba doce... Baba de moça...

O Sentimento trágico da Vida.

Tendo em mente o que nos diz Fernando Savater no prefácio desta obra, acerca dos escritos em verso ou prosa de Miguel de Unamuno a partir de “Leaves of Grass” (Folhas de Relva) de Walter Whitman; “Quem toca este livro toca um homem”, principiemos “por tocar” na “matéria” de nossa matéria, isto é, nos aspectos quantitativos, ou materiais da presente obra que nos propomos a recensear.
“Do sentimento trágico da vida”, nos homens e nos povos, obra de Miguel de Unamuno escrita em Salamanca em 1912, “no ano da graça de 1912”, publicada pela primeira vez em 1913, cujas 321 páginas nos chegam às mãos, na presente edição de 1996 da editora Martins Fontes, em tradução de Eduardo Brandão para o vernáculo, com prefácio de Fernando Savater de 1986.
Obra dividida em 12 partes prefácio e notas, com abrangente citação bibliográfica, ao ponto “deste homem que leu tudo” como diz-nos Savater, temer quanto a ser demasiado as mesmas, o que torna-se em aguda carência nesta edição, a ausência de um índice onomástico:
Sören Kierkegaard somente, é citado seis vezes até a parte que pretendemos enfocar (até o capítulo 6) nas páginas 3,17,106,108,112 e 119 respectivamente.
Kant, sobretudo “o homem Kant” (adiante esclareceremos esta expressão) é de longe, até o capítulo 6 o mais citado.
O capítulo mais extenso é seguramente a parte 10, “Religião, mitologia de além túmulo e apocatástase”, em nosso enfoque, até o capítulo 6, a parte mais extensa é a parte 5, “A dissolução racional”.
Ao examinar a essência do catolicismo, Unamuno conclui que o catolicismo “oscila entre a mística, experiência intransmissível e íntima do Deus vivo em Cristo e o racionalismo a que combate; oscila entre a ciência religionizada e a religião cientificada”.
A observação com Hermann de que o desenvolvimento de um pensamento religioso em suas conseqüências lógicas, isto é, sua racionalização, implica em conflito ou contradição para com outros pensamentos que pertencem a religião, faz com que a isto chame Unamuno, “a profunda dialéctica vital do catolicismo”, mas não a contradição o leva a buscar no próximo capítulo, uma solução, ou melhor, uma dissolução racional: o sentimento trágico da vida, a ânsia pela imortalidade e salvação eterna da alma individual, trágico segundo Savater, “impossível de se reconciliar com o que sabemos ou com o que tradicionalmente esperamos”, um ímpeto agônico de luta sem vitória ou esperança, como o desespero humano de Kierkegaard, de sofrer do “eu” que quer ser a si próprio, “como o erro tipográfico, que não quer ser apagado ou corrigido para revelar em sua singularidade e imperfeição a mediocridade do escritor”.
O sentimento trágico, é onde o ceticismo dissolvente da razão que é contra as aspirações da vida, abraça-se com o desespero que personifica na dor os limites da consciência na matéria, e quer que exista um “Deus para que se existisse, este existisse também deveras”.
Não é um terrível perigo para Unamuno, o crer demasiado, ou a contradição, mas o é o crer com a razão e não com a vida.
É perdoável que um homem, “de carne e osso” não creia em Deus em sua cabeça, não o é, que ele não creia em seu coração.
“O ímpio diz em seu coração que não há Deus”.
É a ânsia pela imortalidade da consciência individual, assim como o sentimento agudo de finitude em Pascal, o homem, Pascal, que a racionalidade Cartesiana que confere ao homem o lugar de soberano da natureza é criticada, a razão normativa aos aspectos da vida que o significam por uma universalidade teórica , mas incapaz de solubilizar as contradições inerentes da vida. Sendo o homem corrupto o valor da história também o é inexoravelmente, nostalgia do infinito que é manutenção da errância e peregrinação através de contradições, com a divindade oculta à razão, mas que fundamenta o sentido do homem (seu fim) e a esperança da salvação possível a partir do mais importante dos eventos históricos e que é ao mesmo tempo o mais incompreensível de todos, a redenção pela morte de um homem que era Deus”.
Ânsia por imortalidade, que segundo Unamuno levou o “homem Kant” a seu salto imortal, do limite da razão teórica que esbarra na antinomia na “Crítica da Razão Pura” ao postulado da existência de Deus, a partir da imortalidade da alma na “Crítica da Razão Prática”
A ânsia pela imortalidade da consciência individual, o sentimento agudo de finitude, o sentimento trágico da vida, é o vazio, é o buraco na alma de carne, no coração de fibra e sangue ao qual a razão quer construir e erigir-se em ferro, qual o ferro de um canhão que constrói-se em volta de um buraco.
Unamuno quer uma dissolução racional, quer dissolver com o “ceticismo solvente”, e busca, encabeçado pela crítica de Hume à teleologia, “dissolver esse ferro”.
Unamuno quer ver o vazio do sentimento trágico da vida, tornar-se em sangue, em um coração que sangra e sobretudo quer adorá-lo e dizer que o sangue que adora, é o “sangue que verte no Calvário”.
“’Sois feliz?’ pergunta Caim, no poema byroniano a Lúcifer, príncipe dos intelectuais e este lhe responde: ‘Sou poderoso.’ E Caim replica: ‘Sois feliz?’; então o grande intelectual lhe diz: ‘Não; tu o és?’ mais adiante este mesmo Luzbel diz a Ada, irmã e mulher de Caim: ‘Escolhe entre o Amor e a Ciência, pois não há outra escolha.’ Neste mesmo estupendo poema, ao dizer Caim que a árvore da Ciência do bem e do mal era uma árvore mentirosa, porque não sabemos nada, e sua prometida ciência foi a preço da morte’ Luzbel lhe replica: ‘pode ser que a morte leve ao mais alto conhecimento’. Isto é, ao nada”.
Compreendemos a “reserva acadêmica”de Savater em atribuir a Miguel de Unamuno o “eufemista e não comprometedor” adjetivo de “pensador” no prefácio ao invés de filósofo.
A partir da filosofia de Santo Agostinho e culminado principalmente em Descartes, a filosofia põe em destaque o papel da subjetividade no exercício do conhecimento humano, apoiada essencialmente na fruição da razão consciente que percebe e delibera. Filósofos como John Locke, por exemplo, sequer podem aceitar que haja atividade na alma ou na mente, que não seja consciente. Kant na critica da Razão pura, chamou de revolução Copernicana, sua filosofia Transcendental que coloca o sujeito como parte na constituição do cognoscível. A Filosofia é, sobretudo o discurso da Razão e seu primado se dá na consciência. A filosofia nunca teve “bons olhos” para teorias deterministas que destituam a razão consciente de sua autonomia no comportamento e nas escolhas humanas (excetuando-se talvez David Hume, Pascal, Nietzsche, Unamuno?) e é justamente essa a ferida no ego, que traz a Psicanálise e de que Freud compara junto às teorias de Darwin e de Copérnico. Definitivamente a descoberta do Inconsciente não é algo que faça os homens pularem de alegria; e os “porquês” de um pensamento não explicitados conscientemente por seu autor é precisamente o liame da perspectiva Filosófica e Psicológica. Para a Filosofia uma perspectiva “psicologista” é nociva à compreensão de uma tese filosófica e invalidação absoluta de uma resposta para uma questão filosófica, e para a Psicanálise, a consciência é o lugar da mentira; pensamos, mormente na inversão que faz Jacques Lacan do “Cogito” Cartesiano: “eu penso, onde não sou e sou onde não penso”.
Eu existo, logo penso, dirá Unamuno.
Petição de princípio retorquirá a Filosofia.
“O imperativo categórico leva-nos a um postulado moral que exige por sua vez, na ordem teleológica, ou melhor escatológica, a imortalidade da alma; e para sustentar essa imortalidade, aparece Deus, tudo o mais é escamoteação de profissional da Filosofia. O homem Kant sentiu a moral como base da escatologia, mas o professor de filosofia inverteu os termos”.
“A biografia íntima dos filósofos ocupa um lugar secundário, no entanto, é ela que mais coisas nos explica”.
“Falo do ‘eu’, não do ‘eu’ de Fichte, mas do próprio Fichte”.
Perspectiva psicologizante, falácia “ad hominem”, contradição pragmática, retórica sentimental, poesia, dirá a Filosofia.
Unamuno retorquirá: “Filosofia e Poesia são irmãos gêmeos se não são a mesma coisa”.
“Têm essas doutrinas um valor objetivo?”
Unamuno responderá que não entende o que quer dizer valor objetivo de uma doutrina.
“Não direi que as doutrinas mais ou menos poéticas ou não filosóficas que vou expor é que me fazem viver, mas me atrevo a dizer que meu anseio de viver e viver para sempre que me inspira essas doutrinas”.
Bandeando-se para o sentimento religioso, Unamuno será “escorraçado” por Kierkegaard.
Seu “egotismo”, seu sentimento trágico da vida, é desespero de querer ser um ‘eu’ preso à carne, que não quer ser redimido de suas mazelas, não quer ser sublimado em corpo celeste, glorioso.
Desespero humano do tipo masculino, que quer afirmar-se frente a Deus em sua finitude e miséria, não em humildade redentora, mas em apego egoísta: “o cristianismo não é trágico, marca mais uma saída hipotética proposta à vontade de crer, da asfixiante evidência trágica, impiedade de fundo do afã de Unamuno”, asseverará Savater.
Os dois afãs de Unamuno: sede de imortalidade e polêmica e contradição.
“O propósito humano consiste em opor-se ao que se nos oferece como irremediável, como dado, porque no irremediável nossa peculiaridade perde o contorno, se funde na repetição do decorado”.
O apreciará em sua imparcialidade acadêmica, os intelectuais como Savater.
“Por um lado, lutar para nos fazer insubstituíveis e contra o igualitarismo forçoso da morte; por outro, querer transformar o outro em mim, impor-me a ele até nos fundirmos em um só e único ‘eu’ (embora Unamuno tente mostrar como equivalente o fazer o outro meu e fazer-me eu no outro, sempre fala de impor-me a outro, e nunca de permitir que o outro se imponha a mim): pois bem, essa contradição leva ao absurdo ou à religião, que é a forma mais elevada e socialmente aceita dele”.
Pensa apenas com “inteligência e um cérebro” Savater.
Ao passo que responde-nos Unamuno com coração, corpo e espírito.


“O amor sexual é o tipo gerador de qualquer outro amor e por ele procuramos perpetuar-nos, e só nos perpetuamos sobre a terra conquanto morramos, que entreguemos a outros nossa vida... no fundo o deleite amoroso sexual, o espasmo genésico, é uma sensação de ressurreição, de ressuscitar em outro, porque só em outro podemos ressuscitar para nos perpetuar.
Há sem dúvida, no fundo, algo de tragicamente destrutivo no amor, tal como em sua forma primitiva animal se nos apresenta, no invencível instinto que leva um macho e uma fêmea a confundirem suas entranhas num aperto de fúria...
Do mesmo modo que lhes confunde os corpos, separa-lhes, sob certo aspecto, as almas: ao se abraçarem odeiam-se tanto quanto se amam e, sobretudo, lutam, lutam por um terceiro, ainda sem vida. O amor é uma luta, e há espécies animais em que ao se unir à fêmea, o macho a maltrata, e outras em que a fêmea devora o macho depois deste a fecundar.
Hase disse do amor que é um egoísmo mútuo.”


Unamuno se fará ridículo e risível, e a Filosofia se rirá dele.
A Filosofia que quer mover-se com seu discurso, na escala do absoluto, falar do eterno e a partir do eterno, a Filosofia que se quer a-histórica no tempo lógico, longe da circunstâncialidades, como sobrevôo do universal, descerá ao devir histórico e se porá a polemizar com ele como relativa.
A Esfinge da Filosofia, sob a égide da razão universalizante, devorará Unamuno, o colocará em algo que na história da Filosofia medeia a poesia e a crítica ao racionalismo, com talvez relações com o existencialismo, e o ceticismo; a Filosofia se rirá de Unamuno.
E Unamuno, faz-se Dom Quixote...

“Soberana e alta senhora:

“O ferido do gume da ausência e o chagado nas teias do coração, dulcíssima Dulcinéia del Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falta.
Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e se os teus desdéns se apuram com minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que , além de muito graves, já vão durando em demasia. O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como fico por teu respeito.
Se te parecer acudir-me teu sou; e se não, faze o que mais te aprouver pois com o acabar-a minha vida terei satisfeito à tua crueldade e ao meu desejo.
‘Teu até a morte.

“O Cavaleiro da Triste Figura”
CERVANTES DE SAAVEDRA,Miguel de,”Dom Quixote de la Mancha; tradução de Visconde de Castilho e Azevedo, São Paulo, Abril Cultural, 1978.

“Viva a vida!”. Como quando arrastado pelos franquistas da Universidade de Salamanca, ainda gritará o ímpeto agônico de Unamuno, contra o “desejo de morte” de dom Quixote, “por não ser deste mundo”: oiçamo-lo, esse que como Empédocles, dos pés à cabeça é um homem agonal.

"Aumentando o amor, esta ânsia ardorosa de ir mais longe e mais fundo vai-se estendendo a tudo o que se vê, a tudo o que se vai compadecendo de tudo. À medida que vais penetrando em ti mesmo, e mais fundo desces em ti mesmo, vais descobrindo a tua própria futilidade, que não és tudo o que não és, que não és o que gostarias de ser, que, em suma, não és mais do que uma ninharia. E ao tocares no teu próprio nada, ao não sentires o teu fundo permanente, ao não atingires nem a tua própria infinitude nem, mesmo, a tua eternidade, tendo lástima de todo o coração a ti próprio, inflamas-te em doloroso amor por ti mesmo, matando o que se chama amor-próprio, e não é mais do que uma espécie de deleite sensual de ti mesmo, algo assim como a carne da tua alma a gozar-se a si mesma.O amor espiritual a si mesmo, a compaixão que uma pessoa adquire para consigo própria, poderá, porventura, chamar-se de egotismo; mas é o que de mais oposto existe ao vulgar egoísmo. Porque deste amor ou compaixão de ti próprio, deste intenso desespero, porque, do mesmo modo que não eras antes de nasceres, também depois de morreres não serás, passas a ter compaixão, isto é, a amar todos os teus semelhantes e irmãos, em aparência miseráveis sombras que desfilam do seu nada ao seu nada, chispas de consciência que brilham um momento nas infinitas e eternas trevas. E dos demais homens, teus semelhantes, passando pelos que são mais semelhantes a ti, pelos que contigo convivem, vais-te compadecer de todos os que vivem, e até daquilo que, porventura, não vive, mas existe. Aquela longínqua estrela que brilha durante a noite, lá no alto, há-de apagar-se algum dia, e tornar-se-á pó, e deixará de brilhar e de existir. E, como ela, todo o céu estrelado. Pobre céu!E se é doloroso ter de deixar de ser algum dia, mais doloroso seria, talvez, continuar a ser sempre o mesmo, e só o mesmo, sem poder ser outro ao mesmo tempo, sem poder ser ao mesmo tempo tudo o resto, sem poder ser tudo.Se olhares para o universo do modo mais próximo e profundo que puderes olhar, que é em ti próprio; se sentires, e não só comtemplares, todas as coisas na tua consciência, onde todas elas deixaram a sua dolorosa marca, atingirás as profundezas do tédio da existência, o poço da vaidade das vaidades. E é assim como chegarás, a compadecer-te de tudo, ao amor universal.Para amares tudo, para teres compaixão de tudo, do humano e extra-humano, do que vive e não vive, é necessário que sintas tudo dentro de ti mesmo, que personalizes tudo. Porque o amor personaliza tudo quanto ama, tudo aquilo de que se compadece. Só nos compadecemos, isto é, só amamos, o que se nos assemelha, e assim aumenta a nossa compaixão, e com ela o nosso amor pelas coisas, à medida que descobrimos as semelhanças que têm connosco. Ou, melhor, é o nosso próprio amor, que por si só tende a crescer, o que nos revela essas semelhanças. Se consigo compadecer-me e amar a pobre estrela que um dia desaparecerá do céu, é porque o amor, a compaixão, me faz sentir nela uma consciência, mais ou menos obscura, que a leva a sofrer por não ser mais do que uma estrela e por ter de deixar de o ser, um dia. Pois toda a consciência o é de morte e de dor.Consciência, conscientia, é conhecimento partilhado, é consentimento, e con-sentir é con-padecer.O amor personaliza tudo o que ama. Só é possível apaixonarmo-nos por uma ideia personalizando-a. E quando o amor é tão grande e tão vivo e tão forte e transbordante que tudo ama, então, ele tudo personaliza, e descobre que o Todo total, o Universo, também é Pessoa. Tem uma Consciência, Consciência que, por sua vez, sofre, se compadece e ama, isto é, é consciência. E esta Consciência do Universo, que o amor descobre personalizando tudo o que ama, é o que chamamos Deus. E assim a alma compadece-se de Deus e sente que Ele se compadece dela, ama-o e sente-se amada por Ele, dando abrigo à sua miséria no seio da miséria eterna e infinita, que é, ao eternizar-se e tornar-se infinita, a própria felicidade.Deus é, pois, a personalização do Todo, é a Consciência eterna e infinita do Universo. Consciência presa da matéria e esforçando-se por se libertar dela. Personalizamos o Todo para nos salvarmos do Nada, e o único mistério verdadeiramente misterioso é o mistério da dor.A dor é o caminho da consciência, e é por ela que os seres vivos atingem a consciência de si. Porque ter consciência de si mesmo, ter personalidade, é saber-se e sentir-se distinto dos outros seres, e só se consegue sentir essa distinção com o choque, com a dor maior ou menor, com a sensação do próprio limite. A consciência de si mesmo não é mais do que a consciência da própria limitação. Sinto-me eu mesmo ao sentir que não sou os outros; saber e sentir até onde sou é saber onde deixo de ser, e a partir de onde não sou.E como saber que se existe não sofrendo nem muito nem pouco? Como voltar sobre si, lograr consciência reflexa, senão através da dor? Quando se tem prazer, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos, entramos noutra coisa, alienamo-nos. E só nos ensimesmamos, voltamos a nós próprios, a sermos nós, na dor."
UNAMUNO,Miguel de, “Do sentimento trágico da vida nos homens e nos povos; tradução de Eduardo Brandão- São Paulo, Martins Fontes, 1996.