As idéias são reais, objetivas e universais.Verdadeiramente o único inteligível. Acessíveis, pois, pela transcendência do pensamento.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

“As Paixões na Filosofia” - Um estudo Introdutório


I. Prefácio
Na etimologia da palavra “Filosofia” e na tradição da História da Filosofia estão presentes o conceito de “amor ao saber” e o domínio de si mesmo. A Filosofia defende acima de tudo o primado da razão e da vontade como força substancialmente característica da humanidade, que a diferencia dos demais seres vivos. Pontuando a tradição Platônica e mais especificamente o conceito tripartite de alma na filosofia Platônica na Republica. O homem que domina suas paixões é o senhor de si mesmo, é o “Logistikon” aquele cuja parte racional da alma comanda as demais e o seu contrário é o “Epitimetikon” que se coloca em estarrecimento diante dos prazeres e apetites da alma, sacudido pelas paixões tornando-se escravo delas. A partir da filosofia de Santo Agostinho e culminado principalmente em Descartes, a filosofia põe em destaque o papel da subjetividade no exercício do conhecimento humano, apoiada essencialmente na fruição da razão consciente que percebe e delibera. Filósofos como John Locke, por exemplo, sequer podem aceitar que haja atividade na alma ou na mente, que não seja consciente. Kant na critica da Razão pura, chamou de revolução Copernicana, sua filosofia Transcendental que coloca o sujeito como parte na constituição do cognoscível. A Filosofia é, sobretudo o discurso da Razão e seu primado se dá na consciência. A filosofia nunca teve “bons olhos” para teorias deterministas que destituam a razão consciente de sua autonomia no comportamento e nas escolhas humanas (excetuando-se David Hume) e é justamente essa a ferida no ego, que traz a Psicanálise e de que Freud compara junto às teorias de Darwin e de Copérnico. Definitivamente a descoberta do Inconsciente não é algo que faça os homens pularem de alegria; e os “porquês” de um pensamento não explicitados conscientemente por seu autor é precisamente o liame da perspectiva Filosófica e Psicológica. Para a Filosofia uma perspectiva “psicologista” é nociva à compreensão de uma tese filosófica e invalidação absoluta de uma resposta para uma questão filosófica, e para a Psicanálise, a consciência é o lugar da mentira; pensamos, mormente na inversão que faz Jacques Lacan do “Cogito” Cartesiano: “eu penso, onde não sou e sou onde não penso”. Paixão e Razão são realidades humanas que a filosofia já expressou inúmeras vezes seja essa dualidade a de um corpo e uma alma imaterial ou como divisões dessa mesma alma ou mente; vulgarmente conhecida por nós na expressão “de corpo e alma” sua compreensão é talvez, parte do sentido que damos a todas às coisas.



I. Conceito de Paixão na Filosofia


Costumamos entender por paixão um sentimento ou uma tendência, demasiado forte, ou intensa o bastante para nos inclinar ou dominar mentalmente causando-nos uma disposição de estarrecimento, ou tempestuosa de espírito, que nos move ao objeto de sua causa.
Paixão é sempre provocada pela imagem, lembrança ou presença de algo que nos leva a reagir. Paixão traz em sua raiz etimológica o “padecer”, o sofrer de algo; passividade, passível; e o ser movido por algo, passionalidade, origem essa do grego páskhein, páthos, pathé, traduzido para o latim affectionis.
Cícero às vezes usa o termo lubidinum no sentido de paixões, a ação passional é objeto de inúmeras considerações e reflexões éticas.

“Itaque in iis perniciosus est error, qui existimant lubidinum peccatorum que omnium pater in amicitia licentiam. Virtutum amicitia a diutrix a natura data est, non vitiorum comes, ut quoniam solitária non posset virtus ad ea, quae summa sunt, pervenite, coniuncta et consociata cum altera perveniret.”

“Estão, pois, perigosamente enganados aqueles que julgam que as paixões e os erros de toda a espécie podem correr à solta na amizade, ela nos foi dada pela natureza para ser auxiliar das virtudes e não a companheira dos vícios, para que possibilite à virtude atingir a perfeição, pois sozinha, não consegue unir-se e associar-se a outros para chegar lá.”

Cícero, Marco Túlio, “De Amicitia”. Tradução: “João Teodoro D´Olim Marote”, Ed. Nova Alexandria, São Paulo, 2006.

Na Ética a Nicomaquéia, Aristóteles nos diz que seu estudo é vão e improficuo para os jovens que tendem a seguir suas paixões, pois o fim que visa o estudo da Ética a Nicomaquéia é a ação e não o puro conhecimento, diz ainda que o defeito de caráter não é questão de idade, mas o “modo de viver e perseguir os objetivos ao sabor da paixão”, mas em contrapartida a ciência e o conhecimento de tais assuntos é absolutamente proveitosa, para aqueles que desejam e agem de acordo com a razão.
Na retórica, define Aristóteles: “Entendo por paixões, tudo o que faz variar os juízos e de que seguem sofrimento e prazer” [1]
As paixões estão ligadas a sentimentos, sensações, manifestam-se, sobretudo de maneira somática, corporal e a filosofia diversas vezes a vê como parte de uma cadeia, de interação do corpo com a mente, ou a alma, mas a paixão, sobretudo esta ligada a passividade da matéria, do corpo, em contraposição com o “ato” da vontade e do espírito, partilham dessa concepção filósofos como Platão e Descartes, por exemplo.







“A doença própria da alma é a demência. Mas há duas espécies de demência: uma é a loucura, a outra é a ignorância. Segue-se que, como resultado, todo o afeto que comporta uma ou outra dessas perturbações, deve ser chamado de doença, devendo-se admitir que o prazer e a dor excessivos são para a alma a mais grave das doenças. Pois, alegre ao extremo, ao sofrer, pelo efeito da dor, a paixão contrária, o homem é incapaz de ver ou escutar com precisão não importa o que seja, quando despropositadamente se apressa para agarrar um objeto ou desfazer-se de outro: ele torna-se furioso e inapto ao menor raciocínio. Assim, aquele em quem a semente é farta e corre abundantemente em sua medula, a maior parte de sua vida, por excesso dos prazeres e dores: sua alma esta doente e endoidecida pela ação do corpo.
No entanto, não consideramos doente, mas voluntariamente perverso. Todavia, na realidade, a luxuria imoderada é, em grande parte, uma doença da alma provocada pelas propriedades de uma substância que corre no corpo.
Da mesma forma, toda vez que esperamos que a impotência contenha a volúpia, que reprovamos, dos viciados, como se assim o fossem voluntariamente, cometemos uma injustiça. Ninguém é mau por vontade própria. O homem mau torna-se perverso devido ao efeito de uma disposição maligna do corpo ou de uma educação desregrada “[2]

Em seu tratado “As paixões da Alma” Descartes considera que para se conhecer as paixões da alma devemos examinar as diferenças que existem entre o corpo e a alma; o que na alma é uma paixão, é no corpo uma ação, Descartes diz que não há sujeito que atue mais imediatamente contra nossa alma, do que o corpo, a qual a alma esta unida.
As paixões no sentido restrito de emoções, surgem na alma quando o corpo atua nela, sendo as seis paixões primitivas, a admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza, categorias do qual se originam todas as outras.
A compreensão da natureza das paixões para Descartes, exige uma análise de caráter fisiológico, uma vez que o sangue, o coração e o sistema nervoso, mantêm, são causa e fortalecimento das paixões através de seus distúrbios.
O maior uso da sabedoria consiste em nos ensinar como dominar nossas paixões. Platão também assim considera o bom uso da razão e da sabedoria, na República no livro IV, ao examinar a alma, e expor seu conceito tripartite, no diz que a alma equilibrada, harmoniosa e bela é aquela que dispõe harmoniosamente de suas proporções é dominada pela razão, é a alma do Logistikon, aquele que é senhor de si, domina suas paixões, e as proporções de sua alma são harmoniosas e belas como o uníssono do octacórdio; em oposição à alma do tirano, ou do Epitimetikon, que é escrava das paixões, governada por vícios e estarrecida diante deles.
Santo Agostinho nos dá um belo exemplo de alma viciosa governada pelas paixões em suas confissões, quando considera sua alma na juventude:

“Que coisa me deleitava se não amar e ser amado? Mas, nas relações de alma para alma, não me continha a moderação, conforme o limite luminoso da amizade, vista que, da lodosa concupiscência da minha carne e do borbulhar da juventude, exalaram-se vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração, a ponto de não se distinguir o amor sereno do prazer tenebroso. Um e outro ardiam confusamente em mim. Arrebatavam a minha débil idade despenhadeiros das paixões e submergiam-se num abismo de vícios.”

Santo Agostinho, “Confissões”, II – I2, Tradução: “J. Oliveira Santos, S.J e A. Ambrosio de Pina, S. J., “Os Pensadores”, Ed. Nova Cultural, São Paulo, 1999.

Paixão [Leidenschaft] para Kant; a teoria ética de Kant opõe drasticamente a moralidade, às ações passionais ou realizadas em função a emoções em detrimento à Razão.
A natureza humana para Kant é dual: a de um ser sensível unida à de um ser racional, donde a vontade humana enquanto ser racional é universal (assim como ou também enquanto natureza) e auto legisladora, cuja máxima, principio de ação moral da razão pratica pura (a priori e não empírica), quando deliberada sem cálculo, nascida de uma boa vontade e por dever, se manifesta na forma imperativa justamente pela condição humana de também ser sensível que pode por inclinação (ações passionais, emotivas interessadas ou também móbiles) entrar em contradição com a razão.
Kant descreve as paixões como as incuráveis “chagas cancerosas para a razão pratica pura”, as quais “pressupõem uma máxima do sujeito, a saber, agir de acordo com uma finalidade prescrita... pela inclinação.”
Uma paixão para Kant, nasce a partir de uma propensão para um determinado deleite impelido por instinto, a qual “precede a representação de seu objeto”.
O individuo ao ceder à essa propensão, vê despertar em si uma inclinação para ela.
As paixões se distinguem dos afetos na concepção de Kant, porque estes são rapidamente estimulados e consumidos, enquanto as paixões consistiriam em “inclinações duradouras”, das quais o espírito formou princípios.
A paixão sucede ao desenvolvimento de uma inclinação como renuncia do sujeito ao “domínio de si mesmo”.
Isto, porque para Kant, a natureza humana enquanto ser sensível, esta escrita na causalidade das leis e instintos da natureza, e a escraviza em princípios heterônomos de causa e efeito, contrárias as disposições autônomas da liberdade da vontade auto legisladora de um ser racional: somos livres enquanto agimos por dever, dever de nossa própria vontade enquanto ser racional que se impõe categoricamente na forma de imperativo a nossa natureza sensível. Agir por dever é agir em função da lei, lei da razão auto legisladora.
Quando o objeto de uma paixão é contrario à lei, a adoção dela numa máxima para a vontade é malévola e resulta em vicio.
Kant distingue as paixões ainda, entre paixões inatas de “inclinação natural” e paixões adquiridas, “resultantes da cultura da espécie humana”.
As primeiras incluem as “paixões candentes” por liberdade e sexo, enquanto a segunda inclui tais “paixões frias” como a ambição, a sede de poder e a avareza.
Locke reconhece que agimos amiúde sob a influência desta ou daquela paixão, e que tanto as crianças quanto os adultos tem paixões e emoções.
As operações da mente, examinadas por Locke, a reflexão que Locke considera uma função passiva da mente, as combinações de idéias simples extraídas dos dados empíricos sensíveis, que originam as idéias complexas, que podem ser definidas pela linguagem, até o limite de uma idéia simples, cuja inteligibilidade reside na memória da obtenção do dado, sensível ou reflexivo que a originou na experiência; são por vezes acompanhadas de paixões.
Inquietação e desejo são para Locke, estados mentais relacionados com as paixões. “Uma tempestuosa paixão apressa os nossos pensamentos, como um furacão abala os nossos corpos.” diz Locke.
No seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, Locke faz diversas considerações sobre as paixões, nos inúmeros aspectos que examina.
Diz que restringir e moderar nossas paixões liberta o entendimento e habilita-o a examinar problemas e formar juízos sem predisposições.
Diz ainda que as paixões podem levar-nos a interpretar mal o significado do que alguém nos diz.
Em “The Conduct of the Undertanding” (Conduta do entendimento) lemos a seguinte citação:

“Uma paixão predominante em adultos pode submeter de tal modo os nossos pensamentos ao objeto e à preocupação com este, que um homem apaixonadamente enamorado é incapaz de pensar em seus negócios correntes, ou uma bondosa mãe, abatida pela perda de um filho, é incapaz de suportar a participação a que estava tão acostumada na conversação com seus amigos.”

YOLTON, John W, “Dicionário Locke” in “Paixões”, Tradução: “Álvaro Cabral”, Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 1996.

No Livro II, Capitulo 33, parágrafo 4 do Ensaio acerca do Entendimento Humano, Locke refere-se ao poder de uma irrefreável paixão, ao dizer que a loucura se opõe a razão, e que esta é uma associação de idéias que formam princípios errados, dos quais emergem unidas imbuídas de predisposições e preconceitos irracionais. Embora Locke diga no presente capitulo que não se refere à loucura, à situação das pessoas que se encontram sob o poder de uma irrefreável paixão, mas sabemos que crê que as paixões são presentes e influencias na associação das idéias, e vimos o aspecto dessa influencia, e que a constituição de idéias de forma oposta da razão, isto é irracionais, Locke chama de loucura:

“Numa palavra, a diferença entre idiotas e loucos é a seguinte: os loucos juntam idéias erradas, de modo que formulam proposições erradas, embora argumentem e raciocinem correctamente a partir delas, e os idiotas dificilmente formulam proposições, e quase não raciocinam.”

LOCKE, J. “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, in “Livro II, cap. XI, 13” Tradução “Eduardo Abranches de Soreval”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2005.

Locke assinala algumas paixões que reconhece que podem influenciar a vontade, usualmente não são encontradas sem desejo e inquietação.
Varias paixões estão ligadas ao prazer e a dor ou ao bem e o mal. Alegria, magoa, esperança, medo, desespero, ira, inveja.
O prazer e a dor são para Locke, indicadores das idéias ou coisas que nos fazem bem ou mal, que a sabedoria divina instaurou em nós, sob pena de não os tendo, tornando-se muito ociosa a mente diante das idéias que nela circulam, viveríamos como em que um eterno sonho letárgico, sem tais orientadores.
David Hume crer ser falaciosa oposição da filosofia que fala do combate da paixão e da razão, afirmando supostamente uma preeminência da razão em relação à paixão, pensar, que segundo Hume, se baseia a maior parte da filosofia moral moderna e antiga.
Hume rejeita que todas as criaturas racionais sejam obrigadas a regular as suas ações pela razão, (a única maneira que podem ser virtuosas as pessoas, isto é, se conformando e agindo em função das determinações desta) e se qualquer outro motivo ou principio entrar em disputa para dirigir sua conduta, elas devam combatê-lo ate ele ser inteiramente submetido ou pelo menos levado a um acordo com aquele principio superior.
Para Hume a razão por si só não pode ser motivo para qualquer ato de vontade e jamais pode se opor à paixão na direção da vontade.
Quando estamos na perspectiva de uma dor ou um prazer, com origem num objeto qualquer, é manifesto diz Hume, que sentimos uma conseqüente emoção de aversão ou propensão e somos levados a evitar ou aceitar o que nos der esse mal – estar ou satisfação.
Tal emoção fazendo-nos lançar a vista para todos os lados, abarca todos os objectos ligados ao objeto primitivo pela relação de causa e efeito.
A natureza provem uma força suave que é principio de união e causa que normalmente prevalecem, indicando a cada um as idéias simples que são mais apropriadas à união numa idéia complexa. As idéias simples são para Hume impressões que possuem uma idéia correspondente, que não admitem distinção nem separação, originam as idéias complexas que nesse ponto são seu oposto; “a idéia de vermelho que formamos na escuridão e a impressão que surge aos nossos olhos à luz do sol são diferentes apenas no grau, não na natureza”[3]
Todas as nossas idéias simples define, no seu primeiro aparecimento derivam das impressões simples, no seu primeiro aparecimento derivam das impressões simples que lhes correspondem e que elas representam exatamente.
As qualidades em que se origina esta associação e que desta maneira levam a mente de uma idéia para outra são três, a semelhança, a contigüidade no tempo e no espaço e a relação da causa e efeito.
É justamente para descobrir essa relação de causa e efeito que intervem o raciocínio diz Hume, e a medida que nossos raciocínios variam nossas ações sofrem uma variação correlativa.
Por isso Hume diz que os impulsos não provem da razão, mas são apenas dirigidos por ela.
Falar de combate entre paixão e razão, é para Hume, falar sem rigor e não falar filosoficamente.
Uma paixão é uma existência primitiva, diz, “ou se se quiser, uma modificação de existência e não contem nenhuma qualidade representativa que a torne uma cópia de outra existência ou modificação”... É, portanto impossível que esta paixão possa ser combatida pela verdade e pela razão ou ser-lhes contraditória visto que esta suposta contradição consiste no desacordo das idéias consideradas como copias com os objetos que elas representam. [4]

“Visto que uma paixão jamais pode, em qualquer sentido, ser tida destituída de razão, a não ser quando se baseia numa suposição errada, ou quando escolhe meios insuficientes para atingir o fim projectado, é possível que a razão e a paixão possam alguma vez opor-se uma a outra ou disputar-se o comando da vontade e das ações. No momento em que aprendemos a falsidade de uma suposição ou a insuficiência de certos meios, as nossas paixões submetem-se a razão sem qualquer oposição”[5]






David Hume distingue as paixões em paixão calma e paixão fraca, e entre uma paixão violenta e uma paixão forte: As paixões não influenciam a vontade proporcionalmente à violência ou a desordem que elas provocam no humor; pelo contrário, quando uma paixão se estabeleceu como princípio de ação e é a inclinação dominante da alma, geralmente deixa de produzir agitação sensível.
Como o costume repetido e a própria força lhe submeteram tudo, ela dirige as ações e o comportamento, sem esta oposição e esta emoção que acompanham tão naturalmente qualquer explosão momentânea de paixão.
A razão é para Hume e deve ser apenas a escrava das paixões; não pode aspirar a outro papel senão o de servi-las e obedecer-lhes.
Nada pode opor-se ou retardar um impulso passional, a não ser um impulso contrario, este impulso deve ter uma influencia primitiva na vontade e deve ser capaz de causar, assim como de impedir, um ato de volição; mas para Hume, essa faculdade não pode ser ou identificar-se como a razão:

“É da perspectiva de uma dor ou de um prazer que surge a aversão ou inclinação para um objeto; e estas emoções estendem-se às causas e aos efeitos desse objeto, visto que a razão e a experiência nelas indicam. Nunca pode interessar-nos absolutamente nada saber que tais objetos são causas e tais outros efeitos, se as causas e os efeitos nos forem igualmente indiferentes. Quando os próprios objetos não nos afetam, a sua conexão jamais pode dar-lhes qualquer influencia; e é claro que, não sendo a razão senão a descoberta desta conexão, não pode ser por seu intermédio que os objetos são capazes de nos afectar. Visto que a razão por si só jamais pode produzir uma ação ou gerar uma volição, concluo que a mesma faculdade é tão incapaz de impedir uma volição como de disputar a preferência a uma paixão ou emoção.”

HUME, David,“Tratado da Natureza Humana”, in “Livro II, Parte III, Seção III, dos motivos que influenciam a vontade”, Tradução: “Serafim da Silva Fontes”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2001.

Lemos nos novos ensaios de Leibniz a seguinte definição de Paixão, que está de acordo com nossos hábitos crer, e em conformidade com o princípio dessa investigação, sobre o que costumamos entender por paixão:




“Prefiro dizer que as paixões não são contentamentos ou desprazeres nem opinião, mas tendências, ou antes, modificações da tendência, que vêm da opinião ou do sentimento e que são acompanhadas de prazer ou desprazer.”

Leibniz, Goffried W. “Nouveaux essais sur” entendement humain, II, 21.9 Tradução: “Gérard Lebrun”.

E daremos por término, confiantes de que fundamentamos e conceituamos, ao menos em linhas gerais o que foi entendido, na História da Filosofia, pelos filósofos que tratamos, como um conceito de paixão geral na filosofia, sendo ainda construtivo para nosso estudo uma ultima citação de Gerard Lebrun.

“Um homem não escolhe as paixões, ele não é então, responsável por elas, mas somente como faz com que elas se submetam à sua ação.”

LEBRUN, Gerard, “A filosofia e sua historia”, in “O conceito de paixão”, Organização “Carlos Alberto Ribeiro de Moura, Maria Lucia M. O. Cacciola, Marta Kawano”, São Paulo, Ed. Costa Naify, 2006.
[1] Aristóteles, Retórica das Paixões, II, 1378a 20.

[2] Platão, Timeu, 86b-d
[3] Hume, D, Tratado da Natureza Humana, Livro I, parte I, seção I
[4] Hume,D, Tratado da Natureza Humana, Livro II, parte III, seção III
[5] Idem, ibidem.

2 comentários:

DriKa disse...

entao digamos que a filosofia daquela epoca dizia que a paixao era um mero sentimento que nos da por algo ou alguem mais que [e passageiro acho que nao mudou nada so faltou complementar sua tese ou pesquisa a questao de amizade que significava namoro ou seja o amor uma explicacao ou melhor uma denominacao diferenciada de hoje em dia parabens pela pesquisa mais como critica acho que ficaria bem melhor se exchugasse um pouco mais pois ficaria bem melhor de entender e bem menos demorado tambem...... obrigado

Bellatore disse...

Obrigado por suas críticas Drika.
Procurarei ter em conta, o que entendemos hoje, sobre um assunto tratado.
A respeito da eterna questão de ser enxuto, penso que fui bastante breve e direto, em relação aos estudos dos filósofos.
Mas nunca é bom ser prolixo, e por outro lado superficial também não:
A virtude deve estar no meio mesmo!
Obrigado.