As idéias são reais, objetivas e universais.Verdadeiramente o único inteligível. Acessíveis, pois, pela transcendência do pensamento.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

“As Paixões na Filosofia” - Um estudo Introdutório


I. Prefácio
Na etimologia da palavra “Filosofia” e na tradição da História da Filosofia estão presentes o conceito de “amor ao saber” e o domínio de si mesmo. A Filosofia defende acima de tudo o primado da razão e da vontade como força substancialmente característica da humanidade, que a diferencia dos demais seres vivos. Pontuando a tradição Platônica e mais especificamente o conceito tripartite de alma na filosofia Platônica na Republica. O homem que domina suas paixões é o senhor de si mesmo, é o “Logistikon” aquele cuja parte racional da alma comanda as demais e o seu contrário é o “Epitimetikon” que se coloca em estarrecimento diante dos prazeres e apetites da alma, sacudido pelas paixões tornando-se escravo delas. A partir da filosofia de Santo Agostinho e culminado principalmente em Descartes, a filosofia põe em destaque o papel da subjetividade no exercício do conhecimento humano, apoiada essencialmente na fruição da razão consciente que percebe e delibera. Filósofos como John Locke, por exemplo, sequer podem aceitar que haja atividade na alma ou na mente, que não seja consciente. Kant na critica da Razão pura, chamou de revolução Copernicana, sua filosofia Transcendental que coloca o sujeito como parte na constituição do cognoscível. A Filosofia é, sobretudo o discurso da Razão e seu primado se dá na consciência. A filosofia nunca teve “bons olhos” para teorias deterministas que destituam a razão consciente de sua autonomia no comportamento e nas escolhas humanas (excetuando-se David Hume) e é justamente essa a ferida no ego, que traz a Psicanálise e de que Freud compara junto às teorias de Darwin e de Copérnico. Definitivamente a descoberta do Inconsciente não é algo que faça os homens pularem de alegria; e os “porquês” de um pensamento não explicitados conscientemente por seu autor é precisamente o liame da perspectiva Filosófica e Psicológica. Para a Filosofia uma perspectiva “psicologista” é nociva à compreensão de uma tese filosófica e invalidação absoluta de uma resposta para uma questão filosófica, e para a Psicanálise, a consciência é o lugar da mentira; pensamos, mormente na inversão que faz Jacques Lacan do “Cogito” Cartesiano: “eu penso, onde não sou e sou onde não penso”. Paixão e Razão são realidades humanas que a filosofia já expressou inúmeras vezes seja essa dualidade a de um corpo e uma alma imaterial ou como divisões dessa mesma alma ou mente; vulgarmente conhecida por nós na expressão “de corpo e alma” sua compreensão é talvez, parte do sentido que damos a todas às coisas.



I. Conceito de Paixão na Filosofia


Costumamos entender por paixão um sentimento ou uma tendência, demasiado forte, ou intensa o bastante para nos inclinar ou dominar mentalmente causando-nos uma disposição de estarrecimento, ou tempestuosa de espírito, que nos move ao objeto de sua causa.
Paixão é sempre provocada pela imagem, lembrança ou presença de algo que nos leva a reagir. Paixão traz em sua raiz etimológica o “padecer”, o sofrer de algo; passividade, passível; e o ser movido por algo, passionalidade, origem essa do grego páskhein, páthos, pathé, traduzido para o latim affectionis.
Cícero às vezes usa o termo lubidinum no sentido de paixões, a ação passional é objeto de inúmeras considerações e reflexões éticas.

“Itaque in iis perniciosus est error, qui existimant lubidinum peccatorum que omnium pater in amicitia licentiam. Virtutum amicitia a diutrix a natura data est, non vitiorum comes, ut quoniam solitária non posset virtus ad ea, quae summa sunt, pervenite, coniuncta et consociata cum altera perveniret.”

“Estão, pois, perigosamente enganados aqueles que julgam que as paixões e os erros de toda a espécie podem correr à solta na amizade, ela nos foi dada pela natureza para ser auxiliar das virtudes e não a companheira dos vícios, para que possibilite à virtude atingir a perfeição, pois sozinha, não consegue unir-se e associar-se a outros para chegar lá.”

Cícero, Marco Túlio, “De Amicitia”. Tradução: “João Teodoro D´Olim Marote”, Ed. Nova Alexandria, São Paulo, 2006.

Na Ética a Nicomaquéia, Aristóteles nos diz que seu estudo é vão e improficuo para os jovens que tendem a seguir suas paixões, pois o fim que visa o estudo da Ética a Nicomaquéia é a ação e não o puro conhecimento, diz ainda que o defeito de caráter não é questão de idade, mas o “modo de viver e perseguir os objetivos ao sabor da paixão”, mas em contrapartida a ciência e o conhecimento de tais assuntos é absolutamente proveitosa, para aqueles que desejam e agem de acordo com a razão.
Na retórica, define Aristóteles: “Entendo por paixões, tudo o que faz variar os juízos e de que seguem sofrimento e prazer” [1]
As paixões estão ligadas a sentimentos, sensações, manifestam-se, sobretudo de maneira somática, corporal e a filosofia diversas vezes a vê como parte de uma cadeia, de interação do corpo com a mente, ou a alma, mas a paixão, sobretudo esta ligada a passividade da matéria, do corpo, em contraposição com o “ato” da vontade e do espírito, partilham dessa concepção filósofos como Platão e Descartes, por exemplo.







“A doença própria da alma é a demência. Mas há duas espécies de demência: uma é a loucura, a outra é a ignorância. Segue-se que, como resultado, todo o afeto que comporta uma ou outra dessas perturbações, deve ser chamado de doença, devendo-se admitir que o prazer e a dor excessivos são para a alma a mais grave das doenças. Pois, alegre ao extremo, ao sofrer, pelo efeito da dor, a paixão contrária, o homem é incapaz de ver ou escutar com precisão não importa o que seja, quando despropositadamente se apressa para agarrar um objeto ou desfazer-se de outro: ele torna-se furioso e inapto ao menor raciocínio. Assim, aquele em quem a semente é farta e corre abundantemente em sua medula, a maior parte de sua vida, por excesso dos prazeres e dores: sua alma esta doente e endoidecida pela ação do corpo.
No entanto, não consideramos doente, mas voluntariamente perverso. Todavia, na realidade, a luxuria imoderada é, em grande parte, uma doença da alma provocada pelas propriedades de uma substância que corre no corpo.
Da mesma forma, toda vez que esperamos que a impotência contenha a volúpia, que reprovamos, dos viciados, como se assim o fossem voluntariamente, cometemos uma injustiça. Ninguém é mau por vontade própria. O homem mau torna-se perverso devido ao efeito de uma disposição maligna do corpo ou de uma educação desregrada “[2]

Em seu tratado “As paixões da Alma” Descartes considera que para se conhecer as paixões da alma devemos examinar as diferenças que existem entre o corpo e a alma; o que na alma é uma paixão, é no corpo uma ação, Descartes diz que não há sujeito que atue mais imediatamente contra nossa alma, do que o corpo, a qual a alma esta unida.
As paixões no sentido restrito de emoções, surgem na alma quando o corpo atua nela, sendo as seis paixões primitivas, a admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza, categorias do qual se originam todas as outras.
A compreensão da natureza das paixões para Descartes, exige uma análise de caráter fisiológico, uma vez que o sangue, o coração e o sistema nervoso, mantêm, são causa e fortalecimento das paixões através de seus distúrbios.
O maior uso da sabedoria consiste em nos ensinar como dominar nossas paixões. Platão também assim considera o bom uso da razão e da sabedoria, na República no livro IV, ao examinar a alma, e expor seu conceito tripartite, no diz que a alma equilibrada, harmoniosa e bela é aquela que dispõe harmoniosamente de suas proporções é dominada pela razão, é a alma do Logistikon, aquele que é senhor de si, domina suas paixões, e as proporções de sua alma são harmoniosas e belas como o uníssono do octacórdio; em oposição à alma do tirano, ou do Epitimetikon, que é escrava das paixões, governada por vícios e estarrecida diante deles.
Santo Agostinho nos dá um belo exemplo de alma viciosa governada pelas paixões em suas confissões, quando considera sua alma na juventude:

“Que coisa me deleitava se não amar e ser amado? Mas, nas relações de alma para alma, não me continha a moderação, conforme o limite luminoso da amizade, vista que, da lodosa concupiscência da minha carne e do borbulhar da juventude, exalaram-se vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração, a ponto de não se distinguir o amor sereno do prazer tenebroso. Um e outro ardiam confusamente em mim. Arrebatavam a minha débil idade despenhadeiros das paixões e submergiam-se num abismo de vícios.”

Santo Agostinho, “Confissões”, II – I2, Tradução: “J. Oliveira Santos, S.J e A. Ambrosio de Pina, S. J., “Os Pensadores”, Ed. Nova Cultural, São Paulo, 1999.

Paixão [Leidenschaft] para Kant; a teoria ética de Kant opõe drasticamente a moralidade, às ações passionais ou realizadas em função a emoções em detrimento à Razão.
A natureza humana para Kant é dual: a de um ser sensível unida à de um ser racional, donde a vontade humana enquanto ser racional é universal (assim como ou também enquanto natureza) e auto legisladora, cuja máxima, principio de ação moral da razão pratica pura (a priori e não empírica), quando deliberada sem cálculo, nascida de uma boa vontade e por dever, se manifesta na forma imperativa justamente pela condição humana de também ser sensível que pode por inclinação (ações passionais, emotivas interessadas ou também móbiles) entrar em contradição com a razão.
Kant descreve as paixões como as incuráveis “chagas cancerosas para a razão pratica pura”, as quais “pressupõem uma máxima do sujeito, a saber, agir de acordo com uma finalidade prescrita... pela inclinação.”
Uma paixão para Kant, nasce a partir de uma propensão para um determinado deleite impelido por instinto, a qual “precede a representação de seu objeto”.
O individuo ao ceder à essa propensão, vê despertar em si uma inclinação para ela.
As paixões se distinguem dos afetos na concepção de Kant, porque estes são rapidamente estimulados e consumidos, enquanto as paixões consistiriam em “inclinações duradouras”, das quais o espírito formou princípios.
A paixão sucede ao desenvolvimento de uma inclinação como renuncia do sujeito ao “domínio de si mesmo”.
Isto, porque para Kant, a natureza humana enquanto ser sensível, esta escrita na causalidade das leis e instintos da natureza, e a escraviza em princípios heterônomos de causa e efeito, contrárias as disposições autônomas da liberdade da vontade auto legisladora de um ser racional: somos livres enquanto agimos por dever, dever de nossa própria vontade enquanto ser racional que se impõe categoricamente na forma de imperativo a nossa natureza sensível. Agir por dever é agir em função da lei, lei da razão auto legisladora.
Quando o objeto de uma paixão é contrario à lei, a adoção dela numa máxima para a vontade é malévola e resulta em vicio.
Kant distingue as paixões ainda, entre paixões inatas de “inclinação natural” e paixões adquiridas, “resultantes da cultura da espécie humana”.
As primeiras incluem as “paixões candentes” por liberdade e sexo, enquanto a segunda inclui tais “paixões frias” como a ambição, a sede de poder e a avareza.
Locke reconhece que agimos amiúde sob a influência desta ou daquela paixão, e que tanto as crianças quanto os adultos tem paixões e emoções.
As operações da mente, examinadas por Locke, a reflexão que Locke considera uma função passiva da mente, as combinações de idéias simples extraídas dos dados empíricos sensíveis, que originam as idéias complexas, que podem ser definidas pela linguagem, até o limite de uma idéia simples, cuja inteligibilidade reside na memória da obtenção do dado, sensível ou reflexivo que a originou na experiência; são por vezes acompanhadas de paixões.
Inquietação e desejo são para Locke, estados mentais relacionados com as paixões. “Uma tempestuosa paixão apressa os nossos pensamentos, como um furacão abala os nossos corpos.” diz Locke.
No seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, Locke faz diversas considerações sobre as paixões, nos inúmeros aspectos que examina.
Diz que restringir e moderar nossas paixões liberta o entendimento e habilita-o a examinar problemas e formar juízos sem predisposições.
Diz ainda que as paixões podem levar-nos a interpretar mal o significado do que alguém nos diz.
Em “The Conduct of the Undertanding” (Conduta do entendimento) lemos a seguinte citação:

“Uma paixão predominante em adultos pode submeter de tal modo os nossos pensamentos ao objeto e à preocupação com este, que um homem apaixonadamente enamorado é incapaz de pensar em seus negócios correntes, ou uma bondosa mãe, abatida pela perda de um filho, é incapaz de suportar a participação a que estava tão acostumada na conversação com seus amigos.”

YOLTON, John W, “Dicionário Locke” in “Paixões”, Tradução: “Álvaro Cabral”, Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 1996.

No Livro II, Capitulo 33, parágrafo 4 do Ensaio acerca do Entendimento Humano, Locke refere-se ao poder de uma irrefreável paixão, ao dizer que a loucura se opõe a razão, e que esta é uma associação de idéias que formam princípios errados, dos quais emergem unidas imbuídas de predisposições e preconceitos irracionais. Embora Locke diga no presente capitulo que não se refere à loucura, à situação das pessoas que se encontram sob o poder de uma irrefreável paixão, mas sabemos que crê que as paixões são presentes e influencias na associação das idéias, e vimos o aspecto dessa influencia, e que a constituição de idéias de forma oposta da razão, isto é irracionais, Locke chama de loucura:

“Numa palavra, a diferença entre idiotas e loucos é a seguinte: os loucos juntam idéias erradas, de modo que formulam proposições erradas, embora argumentem e raciocinem correctamente a partir delas, e os idiotas dificilmente formulam proposições, e quase não raciocinam.”

LOCKE, J. “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, in “Livro II, cap. XI, 13” Tradução “Eduardo Abranches de Soreval”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2005.

Locke assinala algumas paixões que reconhece que podem influenciar a vontade, usualmente não são encontradas sem desejo e inquietação.
Varias paixões estão ligadas ao prazer e a dor ou ao bem e o mal. Alegria, magoa, esperança, medo, desespero, ira, inveja.
O prazer e a dor são para Locke, indicadores das idéias ou coisas que nos fazem bem ou mal, que a sabedoria divina instaurou em nós, sob pena de não os tendo, tornando-se muito ociosa a mente diante das idéias que nela circulam, viveríamos como em que um eterno sonho letárgico, sem tais orientadores.
David Hume crer ser falaciosa oposição da filosofia que fala do combate da paixão e da razão, afirmando supostamente uma preeminência da razão em relação à paixão, pensar, que segundo Hume, se baseia a maior parte da filosofia moral moderna e antiga.
Hume rejeita que todas as criaturas racionais sejam obrigadas a regular as suas ações pela razão, (a única maneira que podem ser virtuosas as pessoas, isto é, se conformando e agindo em função das determinações desta) e se qualquer outro motivo ou principio entrar em disputa para dirigir sua conduta, elas devam combatê-lo ate ele ser inteiramente submetido ou pelo menos levado a um acordo com aquele principio superior.
Para Hume a razão por si só não pode ser motivo para qualquer ato de vontade e jamais pode se opor à paixão na direção da vontade.
Quando estamos na perspectiva de uma dor ou um prazer, com origem num objeto qualquer, é manifesto diz Hume, que sentimos uma conseqüente emoção de aversão ou propensão e somos levados a evitar ou aceitar o que nos der esse mal – estar ou satisfação.
Tal emoção fazendo-nos lançar a vista para todos os lados, abarca todos os objectos ligados ao objeto primitivo pela relação de causa e efeito.
A natureza provem uma força suave que é principio de união e causa que normalmente prevalecem, indicando a cada um as idéias simples que são mais apropriadas à união numa idéia complexa. As idéias simples são para Hume impressões que possuem uma idéia correspondente, que não admitem distinção nem separação, originam as idéias complexas que nesse ponto são seu oposto; “a idéia de vermelho que formamos na escuridão e a impressão que surge aos nossos olhos à luz do sol são diferentes apenas no grau, não na natureza”[3]
Todas as nossas idéias simples define, no seu primeiro aparecimento derivam das impressões simples, no seu primeiro aparecimento derivam das impressões simples que lhes correspondem e que elas representam exatamente.
As qualidades em que se origina esta associação e que desta maneira levam a mente de uma idéia para outra são três, a semelhança, a contigüidade no tempo e no espaço e a relação da causa e efeito.
É justamente para descobrir essa relação de causa e efeito que intervem o raciocínio diz Hume, e a medida que nossos raciocínios variam nossas ações sofrem uma variação correlativa.
Por isso Hume diz que os impulsos não provem da razão, mas são apenas dirigidos por ela.
Falar de combate entre paixão e razão, é para Hume, falar sem rigor e não falar filosoficamente.
Uma paixão é uma existência primitiva, diz, “ou se se quiser, uma modificação de existência e não contem nenhuma qualidade representativa que a torne uma cópia de outra existência ou modificação”... É, portanto impossível que esta paixão possa ser combatida pela verdade e pela razão ou ser-lhes contraditória visto que esta suposta contradição consiste no desacordo das idéias consideradas como copias com os objetos que elas representam. [4]

“Visto que uma paixão jamais pode, em qualquer sentido, ser tida destituída de razão, a não ser quando se baseia numa suposição errada, ou quando escolhe meios insuficientes para atingir o fim projectado, é possível que a razão e a paixão possam alguma vez opor-se uma a outra ou disputar-se o comando da vontade e das ações. No momento em que aprendemos a falsidade de uma suposição ou a insuficiência de certos meios, as nossas paixões submetem-se a razão sem qualquer oposição”[5]






David Hume distingue as paixões em paixão calma e paixão fraca, e entre uma paixão violenta e uma paixão forte: As paixões não influenciam a vontade proporcionalmente à violência ou a desordem que elas provocam no humor; pelo contrário, quando uma paixão se estabeleceu como princípio de ação e é a inclinação dominante da alma, geralmente deixa de produzir agitação sensível.
Como o costume repetido e a própria força lhe submeteram tudo, ela dirige as ações e o comportamento, sem esta oposição e esta emoção que acompanham tão naturalmente qualquer explosão momentânea de paixão.
A razão é para Hume e deve ser apenas a escrava das paixões; não pode aspirar a outro papel senão o de servi-las e obedecer-lhes.
Nada pode opor-se ou retardar um impulso passional, a não ser um impulso contrario, este impulso deve ter uma influencia primitiva na vontade e deve ser capaz de causar, assim como de impedir, um ato de volição; mas para Hume, essa faculdade não pode ser ou identificar-se como a razão:

“É da perspectiva de uma dor ou de um prazer que surge a aversão ou inclinação para um objeto; e estas emoções estendem-se às causas e aos efeitos desse objeto, visto que a razão e a experiência nelas indicam. Nunca pode interessar-nos absolutamente nada saber que tais objetos são causas e tais outros efeitos, se as causas e os efeitos nos forem igualmente indiferentes. Quando os próprios objetos não nos afetam, a sua conexão jamais pode dar-lhes qualquer influencia; e é claro que, não sendo a razão senão a descoberta desta conexão, não pode ser por seu intermédio que os objetos são capazes de nos afectar. Visto que a razão por si só jamais pode produzir uma ação ou gerar uma volição, concluo que a mesma faculdade é tão incapaz de impedir uma volição como de disputar a preferência a uma paixão ou emoção.”

HUME, David,“Tratado da Natureza Humana”, in “Livro II, Parte III, Seção III, dos motivos que influenciam a vontade”, Tradução: “Serafim da Silva Fontes”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2001.

Lemos nos novos ensaios de Leibniz a seguinte definição de Paixão, que está de acordo com nossos hábitos crer, e em conformidade com o princípio dessa investigação, sobre o que costumamos entender por paixão:




“Prefiro dizer que as paixões não são contentamentos ou desprazeres nem opinião, mas tendências, ou antes, modificações da tendência, que vêm da opinião ou do sentimento e que são acompanhadas de prazer ou desprazer.”

Leibniz, Goffried W. “Nouveaux essais sur” entendement humain, II, 21.9 Tradução: “Gérard Lebrun”.

E daremos por término, confiantes de que fundamentamos e conceituamos, ao menos em linhas gerais o que foi entendido, na História da Filosofia, pelos filósofos que tratamos, como um conceito de paixão geral na filosofia, sendo ainda construtivo para nosso estudo uma ultima citação de Gerard Lebrun.

“Um homem não escolhe as paixões, ele não é então, responsável por elas, mas somente como faz com que elas se submetam à sua ação.”

LEBRUN, Gerard, “A filosofia e sua historia”, in “O conceito de paixão”, Organização “Carlos Alberto Ribeiro de Moura, Maria Lucia M. O. Cacciola, Marta Kawano”, São Paulo, Ed. Costa Naify, 2006.
[1] Aristóteles, Retórica das Paixões, II, 1378a 20.

[2] Platão, Timeu, 86b-d
[3] Hume, D, Tratado da Natureza Humana, Livro I, parte I, seção I
[4] Hume,D, Tratado da Natureza Humana, Livro II, parte III, seção III
[5] Idem, ibidem.

sábado, 16 de junho de 2007

Euforica Eufonia Egocentrica


Eu sempre vai ser primeira pessoa...

Eu sei e você também, que Eu sou o melhor pra você, alias, pra Eu também, porque Eu sou único, quer dizer, tirando você; sim porque Eu sou você...
E Eu me amo, ou melhor Eu te amo.
Eu to sempre com você...E não me venha com esse papo de altruísmo...onde quem sempre faz tudo é Eu, e Eu não posso me fazer bem...E Eu já sei o final da história, onde quem se dana no final das contas... é Eu.
Alias, quando você se dana só quem te ama, é Eu...e Eu já te falei...Ouve Eu...
Eu sempre concordo com você.
Eu sempre defendo você, e Eu adoro e amo você...
Muitas vezes você magoa Eu...mas Eu nunca te abandono, Eu compreende você...
Agora, magoa quem não é Eu pra você ver!
Olha só: Eu + Eu dá sempre Eu...agora Eu + outro é nós... e nós nunca e bom pra Eu.
Nós só é bom pra Eu enquanto Eu é bom pra nós, quando Eu não é bom pra nós, só quem é bom pra você, é Eu.
Não se importa com quem não é Eu...
Só Eu leio seu pensamento mesmo...e Eu amo o que você pensa...
Mas quem não é Eu se soubesse o que você pensa...não te olharia na cara.
Eu é tudo pra você; depois de Eu, você pensa em quem não é Eu... e se Eu incomodo quem não é Eu, isso é problema de Eu. Eu só se importo com você, e Eu.
Mas você parece não escutar Eu...
Vai por Eu...
Eu merece muito mais...
Eu posso Ter muito mais...
Até quem não é Eu, e ama você, quer fazer tudo por Eu!
Pra você ver que Eu merece...
Ama Eu, que nem Eu ama você, que você vai ganhar o mundo!
Se você amar Eu, Eu não te deixo na mão, alias, nunca deixei...
Você vai ver, que se você amar Eu;
não vai importar qualquer coisa que faça quem não é Eu...
Não tenha medo de amar Eu, porque Eu amo você; e Eu tenho poder sobre você,
que nem você tem sobre Eu.
Eu sei que você teme ganhar o mundo, e perder a alma por causa de Eu...
Sabe, Eu queria ganhar o mundo só pra te provar que Eu trocaria pela única coisa que vale mais que o mundo pra Eu...A alma de Eu...
Viu? Você sabe que Eu sabe o que faz....
Eu não é pra qualquer um...Eu é só pra você...
Eu não me troco por ninguém.
Porque ninguém vale mais que Eu.
Eu não tem Eupatia por Eufemismos ao dizer isso de Eu...
Porque no final das contas, Eu só ama você...porque você é Eu.
Apendice:
"Algumas vezes me sinto tão bem ao meu lado que acho que morreria se eu não existisse.Gosto de fazer qualquer coisa ao meu lado, minha companhia me agrada, me faz feliz, me diverte, me intriga, me emociona, me cativa, me incentiva, me acalma.Sinto uma paixão terrível por mim. Como posso me apaixonar assim?Um calor, um fogo, um arrepio, um tremor, uma loucura que parece que nunca mais irá ter fim!Eu me amo loucamente!Se tudo que é bom dura pouco, já teríamos morrido faz tempo!"
[Trecho extráido da Comunidade: Eu sou Narcisista e daí?]

Contos Singelos


O Voo de Ícaro

Em um lugar lindo no meio de uma floresta existia uma clareira; verdejante cheia de vida, sua orla era dividida pelas águas claras e calmas de um rio, e o cheiro do campo e a paz se estendiam pelas distância de dias e dias de vôo...
Logo no final do rio formava-se um cristalino lago, com águas verdes como uma esmeralda, e perto dele havia uma penha; onde se encontrava o ninho de um lindo casal de falcões, que ali viviam e se amavam muito...
O Falcão tinha um porte forte, com vigorosas garras, uma cabeça branca com um bico afiado e delineado; com asas fortes e a envergadura de um verdadeiro caçador.
A Falcoa era esbelta, bem delineada, com lindos olhos aguçados e amarelos; garras afiadas e uma penugem sedosa por todo o corpo de cores atraentes e claras se alongando sobre o peito...era rápida, e uma caçadora fulminante.
Eles viviam felizes em seu ninho...
O Falcão se exibia para sua fêmea, brincando com suas presas, e com razantes que enchiam os olhos de sua amada...
Ela crocitava de amor por ele...e estando juntos ao ninho, ela fechava suas pálpebras e esfregava a cabeça em seu peito...
Certo dia saiu o Falcão em mais um voo à procura uma deliciosa presa para ele e sua amada; quando entre as rochas, seus olhos avistaram uma linda e delicada pomba branca, seus olhos de caçador tiniram, e enquanto seu bico salivava pensou:
Nunca foi tão fácil...me divertirei caçando-a e depois levarei para minha amada...
A pobre Pomba quando se deu conta do perigo tentou alçar voo, mais já era tarde...
O voraz predador já a rodeava e brincava perseguindo-a e ameaçando-a ...
Ela voava com toda força por sua vida; mas ele sempre a alcançava; e brincando a provocava:
Para que tanta pressa minha querida?
A muito que estou a te observar...Tu és daqui?
Engraçado, porque sempre venho aqui e nós nunca nos bicamos não é mesmo?
Sabe, tu me deixas com uma vontade louca de te agarrar...
Cansando-se de brincar com a pobre, cravou suas garras nela; que caiu atordoada no chão...
E pousando bem ao seu lado, parou; e veio caminhando altivo em sua direção...
Ao chegar perto dela, ajeitou as asas, e cravou sua garra esquerda nas asas da pobre Pomba, forçando-a sobre a terra; deixando sua cabeça entre seus dedos, e sua pata apoiada bem no em seu peito que já respirava com dificuldade...
Então fechando os olhos e erguendo a cabeça se espreguiçou sob um gostoso raio de sol...
Mas quando de repente seus olhos de Falcão avistaram uma beleza sem igual...
Um penhasco cujo cume atingia as nuvens; e pouco abaixo um grande ninho, com uma beldade que o Falcão jamais tinha visto antes...
Uma penugem parda e viçosa por todo o corpo, delineado com tônus e vigor, asas majestosas, com um lindo bico amarelo e longas garras afiadas que alisavam aquela linda face...
O Falcão a media do bico às unhas enquanto ela, sensual e delicadamente coçava com o bico as penas do peito...
Seu coração acelerava como no seu primeiro voo, e ele pensava:
Nossa! Isso que é uma fêmea exuberante e sensual...
Enquanto deliciava-se com aquela visão a Pomba ao seus pés ria... e falou:
Ali não é para o vosso bico não...
Enfurecido o Falcão olhou para Pomba como que devorando-a com os olhos, e afundou sua unha em sua asa fazendo-a gemer e esta logo mudou seu discurso:
Piedade meu senhor poupa minha vida e te direis o que quiser saber daquela que tão ardentemente desejas...
O Falcão afundou a outra unha e falou:
Quem te disse que eu a desejo? E que tens tu a dizer-me, que eu queira saber, para que a poupes?
Por favor meu senhor, sei muito sobre aquela que habita penha...permitas que meu bico pobre e inútil lhe tenha serventia...
Curioso pela sedutora fêmea, o Falcão pensou um pouco; e prometeu:
Esta bem, diga-me tudo que sabes, e se me for de serventia, pouparei sua vida...
Aquela é a grandiosa rapina dos céus a Águia meu senhor; caçadora mortal, que habita nos cumes mais altos, e voa onde nenhum pássaro pode respirar; sua visão alcança os pés da montanha, e para tanto faz um campo como um vale...
Maravilhando-se com o que ouvira, o Falcão tirou suas garras da carne da pomba e disse:
Continue...
Ela vive sozinha, seu voo é gracioso e sua beleza é sem igual não é mesmo?
E quando ela costuma caçar?
Perguntou um interessado Falcão.
Bem ao raiar do dia, mas cuidado meu senhor, pois ela é um perigosa e implacável...
Satisfeito com aquilo que a Pomba dissera, o Falcão se apiedou, e resolveu deixa-la viver, mas rindo-se consigo pensava:
Perigosa...essa Pomba deve ter perdido tanto sangue que já está meio ruim da cabeça...
Aonde já se viu? Como uma fêmea tão atraente e excitante pode ser perigosa?
Ainda mais para mim, que sou um exímio caçador e predador nato...
Convenceu-se.
E enquanto pensava nisso o encontrou a Falcoa, e se deparou com aquela cena muito estranha...
O Falcão pensando na morte da Bezerra, e a Pomba ali, gemendo e livre de suas garras...
Então indignou-se:
Conte contigo e encontre o ninho no lago não é?
Desde a manhã tu saístes e até agora nada...
Que fazes tu arrastando asa ai para essa zinha?
Por que não a trucidas e vamo-nos embora?
Dei minha palavra a ela que não a matarias...
Explicou um aéreo Falcão.
Tu o que? Indignou-se a Falcoa e logo pensou:
Pobre do meu amor voou por esse sol que lhe fez tanto mal, que já não consegue mais pensar direito...
Compadeceu-se.
Súbito, a Pomba amedrontada agradece e tenta se retirar:
Bom; obrigada meu senhor por poupar-me, eu já vou me indo então...
Enciumada, a fêmea voa no pescoço da Pomba e com o bico a dilacera e diz:
Meu senhor! Que audácia!
Caindo em si o Falcão exclama:
Não ! eu prometi que ela viveria!
É mas eu não prometi nada!
Respondeu-lhe uma furiosa Falcoa.
E tu vais me explicar essa história direito!
Esbravejou enciumada.
Vendo que a situação ia piorando ficou receoso o Falcão e disse:
Que tenho eu com uma Pomba!
Estais louca? É só uma Pomba...
Vendo que realmente aquilo não tinha cabimento, mas muito desconfiada concordou a Falcoa:
Esta bem, vamos embora...
E levantando a asa bateu-a na cabeça do Falcão e disse-lhe:
Mas eu não quero saber mais de te ver arrastando asa para cima de Pombinha nenhuma ouviu-me seu Falcão à toa!
Para não piorar a situação o Falcão calou-se, e foram-se os dois...
No outro dia mais cedo que o de costume, saiu o Falcão para seu voo de caça, deixando a Falcoa à dormir no ninho...
Logo que este se foi, a Falcoa abriu um dos olhos, e espreitando para ver se ele tinha-se ido pensou:
Porque hoje ele saiu tão cedo?
Desconfiou.
Deixarei ele tomar distância e irei após ele, então verei, que estarás a fazer, pois boa coisa não deve ser...
Imaginava.
Enquanto isso o Falcão chegava-se perto da Águia; e com cautela ia acompanhando e admirando seu voo de caça.
Logo a Águia avistou uma lebre, e fulminantemente se atracou a ela...enquanto a mutilava e se fartava com seu bico, pousou o Falcão em um galho de árvore e a observava com cupidez e desejo...
Sentindo que algo a observava, a Águia virou a cabeça, e com o bico cheio de sangue olhou para o Falcão...
Que cena excitante...o Falcão estava em êxtase e seus olhos não podiam negar a ela o que ele sentia...
Percebendo a Águia as intenções do Falcão, se envaideceu e gostou muito...
Então fechando os olhos e virando a cabeça , o provocou sensualmente, voltando-se para a lebre...
Não resistindo flertou o Falcão com a Águia:
Tu és a mais linda das rapinas, e com que voracidade tão excitante saboreias e devoras essa lebre...
Excitada e sentindo-se merecida, brinca com o Falcão a Águia:
Cuidado para que um dia eu não te saboreies, Falcãozinho...
Súbito chega a Falcoa e sem saber do que se trata pergunta:
Que fazes nesse galho?
E porque fitas com teu olhar essa galinha?
Astutamente respondeu o Falcão:
Não é uma galinha meu amor, é uma Águia.
Sim, mas que fazes aqui?
Insiste a Falcoa.
Estava caçando essa lebre quando de repente chegou essa enorme predadora, então acautelei-me e fiquei aqui com medo...
A Águia fazendo-se de desentendida pegou logo sua lebre e alçou voo.
E a Falcoa vendo a natureza da situação se encheu de amor pelo Falcão; e vendo como era absurdo seu ciúme falou:
Ah meu amor...não tenhas medo...vamos que irei buscar um doce figo para adoçar seu bico...
E aliviada, fechou os olhos e encostou a cabeça em seu peito, como de costume...
Mas os dias passavam; e o Falcão só conseguia pensar na Águia; em estar no seu ninho, em voar alto ao lado dela, em estender suas asas, e por suas garras naquela fêmea que ele tanto desejava...
E como isso não acontecia ele se entristecia... já não caçava mais, estava desolado.
Já não queria mais estar ali naquele ninho...mesmo sabendo que a Falcoa o amava...
Ela caçava para ele, tentava consola-lo e ao sentir sua tristeza, chorava...
Não queres um doce figo meu amor?
Quer que eu busque uma lebre de tenra carne para nós?
Tentava ela.
Uma noite o Falcão se virou para a Falcoa, e triste, olhou para as estrelas e perguntou:
Meu amor...tu não tens vontade de voar em direção às estrelas, mais alto do que qualquer altura, e do que qualquer pássaro?
E a Falcoa respondeu.
Meu amor... o voo mais alto do meu desejo é estar aqui nessa penha, nesse ninho ao teu lado... e o desejo mais intenso de minhas asas, e meu coração, é amar-te...
E sabendo isso o Falcão ficou mais triste ainda, porque embora amasse sua companheira, seu desejo era perturbador; e o fazia sentir-se muito culpado...
Uma noite enquanto a Falcoa dormia, ele não resistiu e alçou voo...
Alçou voo com um ímpeto que nunca tivera antes, veloz como o vento ele cortava os céus em direção ao ninho da Águia no cume do penhasco...
Era o voo de toda sua louca paixão e desejo, e com toda sua força ele prosseguia...
A Águia ao ouvir seu movimento foi de encontro a ele como que de a uma presa, e cravou-lhe as garras no peito... e com suas longas asas começou a leva-lo para o alto; tanto que quase lhe faltava o ar...
Ele estava muito excitado diante de tanto perigo e desejo, mas de repente se deu conta que a
Águia o tentara transformar em presa...
Então no apogeu de sua paixão ele lutou com ela e a feriu a carne...
Ela ferida pelas garras do Falcão desistiu dele, mas com sua força quebrou-lhe a asa e o largou...
Meteoricamente caía o Falcão enquanto tinha somente tempo de arrepender-se, e ver a estupidez que fez, quando súbito; chocou-se e despedaçou-se nas pedras ...
A Falcoa que sentiu sua falta à noite saiu e foi procura-lo, quando o encontrou despedaçado nas rochas e se pôs a chorar...
Que voo tão alto alçou meu amor, para que se encontrasse nesse estado?

Campos Araganos




Campos Araganos

Vento Aragano
Ó estio de prata Vall de Núria de Glaciais eras
Vento Aragano
Nascente de Dourados mares flor de primavera
Vento Aragano
Candura Alpestre alvo oriente véu de Donzela

Prado Aragano
Gota de azeite sangue de virgem, oliveira
Prado Aragano
Canela da índia em Zaragoza flores de laranjeira
Prado Aragano
Íris de taberneira carvalho de canavieira

Há qualquer coisa em meu coração
Quando percorro os prados de Aragão
Algo um tanto vago como o Onyar em Girona
Algo como o Deslumbrante mar em Barcelona

Quando o sol se põe em Tossa Del Mar
E leva sua luz para ao mundo inferior iluminar
Onde com dourados remos os mais simples pescadores podem remar
Lá onde vou estar... Em Tossa Del Mar

Meu coração é errante como a sinuosa pureza de uma estrela caótica
Meu coração é radiante de vertiginosa beleza de uma catedral gótica
Meu coração é um vento Aragano, como a brisa de Barcelona
Meu coração é sangue de argêntea lua dos vinhedos de Girona
Meu coração tem a forma do azul do mar com fúlgida brisa a raiar
Meu coração é lua cheia que mareja meus olhos com pérolas de Onyar

Quando a lua cheia chegar, vou a Barcelona ver o mar
Ver a onda se quebrar, quando o vento rechaçar minha alma descansará
Em castelos e paragens de alva areia e claras rochas da Costa brava
Como pérolas em conchas como o estio de crisálidas

Vou a Barcelona como um vinho que se bebe
E traz as ninfas do Ebro mordendo as rosas de Cibeles

Vou a Barcelona embriagado
Com a Gota de sal dourado e o doce eflúvio almiscarado

Vou a Barcelona em êxtase e deslumbrado
Com minha nudez poetiza e a dança de Baco

Vou a Barcelona com minha sombra a tira colo
Onde Afrodite nasceu em flavas rochas sob o signo de Apolo

Vou a Barcelona em vôo rapace
Onde Narciso afogou-se e o mar guardou em sua beleza o reflexo de sua face

Vou a Barcelona como o canto de cisne que morreu
Com a harmonia do mar diante da lira de Orfeu

Vou a Barcelona do meu desejo alado
Como Babieca de El Cid como o Corcel de Santiago

Vou a Barcelona como a um coral de nubes moças
Do meu mais puro amor e como a canção de Tristão e Isolda

Vou a Barcelona da minha ardente paixão
Ó coroa de espinhos, ó doce estio de verão

Vou a ti Barcelona e nosso caso é assim
Nem eu sem vois nem vois sem mim

quarta-feira, 4 de abril de 2007

DE LOGICA


Resumo sobre:

Mates, B., “Lógica Elementar” in Escorço da Historia da Lógica
Cap.12, Companhia Editora Nacional, Editora da USP, São Paulo.

2- Lógica Medieval (P. 272-279)

I.M. Bochensk, faz notar que a historia da lógica não se faz em desenvolvimento gradual, mas em três pontos altos relativamente curtos e separados por longos períodos de declínio.
A contribuição medieval de importância para a lógica diz respeito antes ao setor chamado filosofia da lógica do que a lógica propriamente dita, embora se saiba menos a cerca da lógica medieval que a respeito da antiguidade.
Tanto quanto parece a Idade media não criou novos sistemas de axiomas, nem alcançou grau de rigor comparável ao de Crisipo ou Aristóteles.
Sua contribuição consistiu em uma investigação explanatória da semântica e lógica da língua latina e em penetrante filosofia a propósito de questões intuitivas que se põem como base de qualquer desenvolvimento formal da matéria.
A esse exemplo o problema de saber se toda sentença decorrer de uma contradição e a extensa discussão em torno dele.
O fator singular mais importante na determinação da lógica escolástica nos vários períodos de sua historia, foi a disponibilidade de material herdado dos antigos.
Até meados do século XΙΙ, as únicas obras eram as Categoriae e o De Interpretatione de Aristóteles, a Introdução de Porfírio e alguns trabalhos de Boécio e Marciano Capela.
Na segunda metade do século XΙΙ os estudiosos motivaram-se a examinar tanto quanto possível a herança da Antiguidade inclusive outras porções do Organon de Aristóteles.
A primeira grande figura medieval foi Pedro Abelardo (1079-1142).
Alcuíno em fins do século VΙΙΙ e posteriormente chefe a escola criada por Carlos Magno, escreveu uma obra intitulada Dialética, que continha pouco mais que uma discussão sobre as categorias de Aristóteles e nos séculos ΙX e X surgiram outras poucas obras nesse estilo.
Proporção surpreendentemente elevada de tópicos e métodos de que se ocupa a lógica medieval tem seu começo nas obras de Abelardo.
Sua obra emprestou à grande controvérsia dos universais o primeiro grande impulso.
Sua posição era intermédia entre o realismo (platonismo) e o nominalismo.
Na obra Sic et Non estabeleceu o padrão medieval de apresentar toda discussão filosófica sob o título de quaestiones; uma quaestio é colocada, os argumentos pró e contra são desenvolvidos sistematicamente e afinal a solutio é proposta e aplicada aos argumentos previamente enunciados.
Outra das inovações de Abelardo foi a distinção entre condicionais (consequentiae) verdadeiros em razão dos fatos (ex verum natura) e em razão da forma (ex complexione).
Considerava ele de algum modo imperfeitos os condicionais verdadeiros da ultima espécie, bem como os argumentos que lhes correspondem.
Dizia que em um condicional perfeito o sentido do conseqüente deve conter-se no antecedente.
Dedicou grande atenção ao verbo “é” afirmando que o conteúdo de qualquer sentença categórica pode expressar-se através sentenças da forma “A é B” (A est B).
Abelardo estudou também longamente as modalidades, levantando questões ainda hoje discutidas.
Depois que as demais partes do Organon de Aristóteles se fizeram acessíveis, apareceram inúmeros sumários (Summulae) de lógica.
A primeira obra dessas a ser impressa foi a de Guilherme de Shyreswood (morto em 1249).
Nela entre muitos aspectos interessantes, dois poemas mnemônicos do qual o primeiro é:

BARBARA CELARENT DARII FERIO BARALIPTON
CELANTES DABITIS FAPESMO FRISEMORUM
CESARE CAMPESTRES FESTINO BAROCO DARIPTI
FELAPTON DISAMIS DATISI BOCARDO FERISON.

Esses versos relacionam os modos silogísticos válidos das três figuras (os cinco modos adicionais de Teofrasto foram acrescentados aos da primeira figura).
As três primeiras vogais caracterizam os componentes do silogismo quanto à sua sentença, A,E,I,O. as consoantes esclarecem como reduzir o modo dado para o qual a redução deve ser feita e as demais quanto ao tipo de procedimento para a redução; “s” conversão simples, “p” conversão que não é simples, “m” permutação de premissas e “c” redução indireta. O outro poema põe a mostra, de fato o conteúdo da regra Q:

Todo, nenhum não e não-algum-não são equivalentes.
Tal como nenhum, não algum e todo-não;
Algum, não nenhum e não-todo-não caminham juntos,
Tal como algum-não, não-nenhum-não e não-todo.

Lembrança de que os quantificadores podem ser definidos em termos com o sentido de nenhum.
Pedro Hespano (1210-77) provável aluno de Guilherme de Shyreswood em Paris, e que veio a ser o Papa João XXΙ foi o autor da única summulae acessível em edição moderna.
Obra cujo uso estendeu-se até o século XVΙΙ e inclui secções acerca de proposições dos cinco predicáveis de Porfírio (definição, gênero, espécie, propriedade e acidente), de categorias, silogismo, regras tópicas para argumentação e falácias; alem de um grupo de exposições chamadas Das propriedades dos termos que aparecendo essa doutrina, um pouco por toda parte da lógica medieval posterior, é considerada como a contribuição mais original daqueles tempos.
As propriedades mais comumente usadas ou referidas são significatio, suppositio, copulatio e appelatio. Admite-se que caracterizam diversos aspectos da função dos termos nas sentenças latinas.
De modo geral e até que se lance mais luz sobre o assunto, pode-se conjecturar que as propriedades dos termos correspondem a um elenco de conceitos semânticos úteis para contornar várias dificuldades lógicas surgidas com o emprego da linguagem natural.
Por exemplo, porque “Sócrates foi um menino”, não equivale a “um menino foi Sócrates”.
Os lógicos mais importantes do século XΙV foram Guilherme de Ockam (1295-1349), Jean Buridan (morto pouco depois de 1358), Abelardo da Saxônia (cerca de 1316-1390) e um desconhecido autor, que se costuma chamar de “Pseudo Scotus” devido ao atribuir sua obras a Duns Scotus.
No que tange a historia da lógica, a importância de Ockam e Buridan e aos citados deve-se ao desenvolvimento para a teoria das consequentiae.
O termo consequentia, tal como definido por Pseudo Scotus é uma proposição hipotética, composta de um antecedente e um conseqüente ligados por conjunção condicional e é claro que por “conjunção condicional” ele entende não apenas “se...então”, mas também “logo”.
Em suas pesquisas de consequentiae legitimas, os autores medievais usavam descrições metalingüísticas em vez de esquemas variáveis.
Exemplo:
- Há uma consequentia legitima a partir de cada parte de uma disjunção afirmativa para a disjunção afirmativa de que são parte.
- Para que haja possibilidade de uma de uma disjunção basta que qualquer de suas partes seja possível.
Notável objeção levantada por Pseudo scotus contra a caracterização padrão de uma consequentia legitima como a em que é impossível ser verdadeiro o antecedente e falso o conseqüente. Após acentuar que essa base torna legitima qualquer consequentia que tenha um conseqüente necessário, ele propõe-se a oferecer exemplo de uma consequentia ilegítima na qual tanto o antecedente como o conseqüente são necessários. E é:

“Deus existe; logo, esta consequentia não é legitima”.

A consequentia é sem duvida, ilegítima, diz ele, pois se assim não fosse, teríamos uma consequentia legitima com antecedente verdadeiro e conseqüente falso. E uma vez que estabelecemos essa ilegitimidade recorrendo à verdade necessária de que Deus existe, a ilegitimidade é necessária.Deste modo, a consequentia, embora ilegítima, tem um conseqüente necessário.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Tempo Social: Tempo Histórico, Tempo Lógico e Tempo Social




Tempo Social

Que é Tempo Social?

Victor Goldschmidt em a “Religião de Platão” oferece-nos uma distinção entre o Tempo Histórico e o Tempo Lógico, sob a perspectiva da interpretação dos sistemas filosóficos.
Separados à aplicação de dois métodos, um de caráter etiológico, isto é, que indaga sua origem e quanto a sua causalidade e o atribuir ao trabalho conceitual do historiador que escreveria em sua “monografia descrita” a etiologia de fatos políticos e econômicos, ou acerca da constituição fisiológica do autor com suas biografias intelectual e espiritual. Chama-lhe método genético e embora Goldschmidt reconheça seu caráter cientifico ressalta, que buscando as causas em um sistema filosófico se arrisca a explicar o sistema “alem ou por cima” da intenção do autor, devido aos seus pressupostos em que repousa. Como por exemplo a historiadora Catherine Sales, em sua obra "Nos submundos da antiguidade" ao contrastar a pratica grega na Athena do período clássico dos casais de rapazes (Erastas e Eromenos) com uma concepção de amor em uma citação do “Banquete de Platão em 197e”.

“(...) os filósofos mais famosos, de Platão a Plutarco dissecaram longamente as razoes da atração que os homens e mulheres podem experimentar uns pelos outros. A sua definição do amor é amplamente tributaria do lugar que a sociedade grega atribui à mulher. O “amor grego” como se sabe, liga-se preferencialmente aos rapazes e os casais formados pelos Erastas e pelos Eromenos. Esse costume inspirou a mais alta concepção do amor “celeste”, considerado como uma parte da harmonia do mundo”. Sales, C. “Lês Bas. Fonds´del Antiquité”.

O outro método que distingue Goldschmidt do tempo histórico do qual aprecia o método genético, é aquele que chama dogmático e de “iminente filosófico”. Aquele que aceita sob ressalva, diz: “a pretensão dos dogmas a serem verdadeiros e não separa da crença a léxis”, isto é, os termos filosóficos criados ou reelaborados pelo filosofo em coerência à seu sistema e seus conceitos ou noções.


O método dogmático, do cerne do historiador da filosofia ou do “leitor filósofo” ou interprete aprecia o sistema sobre sua verdade, e subtrai-o ao tempo; a historia da filosofia deve ao mesmo tempo ser ciência rigorosa e permanecer filosofia, suas contradições percebidas no interior de sucessivos sistemas consistem precisamente em que todas as teses de um sistema ou todos os sistemas concomitantemente pretendem ser verdadeiros e juntamente.
O método dogmático é o que “enfrenta” as razoes e a ordem das razoes apresentadas nos argumentos encadeados no sistema em si, de caráter univocamente individual, mesmo quando a “Lexis” de um filósofo se comunica com a de outro, e seus conceitos dialogam entre si, o que é possível devido a atemporalidade do discurso filosófico, que transcende o tempo histórico, para o plano do tempo Lógico. Não podem ter por causa as asserções desse sistema, senão razoes conhecidas do filósofo e alegadas por ele.

“O tempo necessário para escrever um livro e para lê-lo é medido, sem dúvida pelos relógios ritmado por eventos de todos os tipos, encurtado ou alongado por toda espécie de causas; a esse tempo, nem o autor nem o leitor escapam inteiramente, assim como aos outros dados (estudados pelos métodos genéticos) que condicionam a filosofia, mas não a constituem”. Porém como escreve G. Bachelard, “o pensamento racional se estabelecerá num tempo de total não-vida, recusando o vital. Que a vida por seu lado, desenvolva e traga suas necessidades, é, sem duvida, uma fatalidade corporal. Mas isso não suprime a possibilidade de retirar-se do tempo vivido. Para encandear pensamentos numa ordem de uma nova temporalidade”. Esta “temporalidade” está contida, como cristalizada, na estrutura da obra, como o tempo musical na partitura”. Goldschmidt, V. “A Religião de Platão”, in “Tempo histórico e Tempo Lógico na interpretação dos sistemas filosóficos”. P.143.

Um fato social não pode ser explicado ou entendido, senão em função de outro da qual decorre, dia Durkheim. O método válido à ciência social, ou a explicação sociológica, segundo Durkheim é o que consiste em estabelecer relações de causalidade, ligando um fenômeno à sua causa, ou uma causa à seus efeitos.
As “espécies sociais” constituíram, intermédios entre o conceito único e ideal de humanidade do discurso filosófico no Tempo Lógico, e a multidão confusa de sociedades históricas sem seqüência entre si do “nominalismo dos historiadores”, suas monografias puramente descritivas e suas etiologias “recortadas” no Tempo Histórico, ao definir o que é uma espécie social Durkheim, alerta para que se não a confunda com fases, ou momentos históricos pelas quais ela passa.

“(...) desde suas origens passou a França por formas de civilização muito diferentes: começou por ser agrícola, passou em seguida pelo artesanato e pelo pequeno comercio, depois pela manufactura e finalmente, chegou à grande industria. Ora, é impossível admitir que uma mesma individualidade coletiva possa mudar de espécie três ou quatro vezes. Uma espécie deve definir-se por caracteres mais constantes. O estado econômico tecnológico etc apresenta fenômenos por demais instáveis e complexos para fornecer a base para um classificação”. Durkheim, E. “As Regras do Método Sociológico”, in “Regras relativas a constituição dos tipos sociais”, p. 77.

Durkheim também fala em morfologia social, e da apreciação e constituição de espécies sociais, que o sociólogo procura extrair em praticas sociais “mais ou menos cristalizadas”, onde embora se valha da historia, o objeto e o tempo do sociólogo divergem do Tempo Histórico.
Com relação à utilização da perspectiva histórica, Weber nos mostra mais claramente o liame do Tempo Histórico com o “objeto” da sociologia.
Cristina Costa, doutora em ciências sociais pela FFLCH-USP em sua obra “Sociologia introdução à ciência da sociedade”, diz que Weber, consegue combinar duas perspectivas, a histórica e a sociológica, uma que respeita as particularidades de cada sociedade, e a que sublinha os elementos mais gerais de cada fase do processo histórico, respectivamente.
Ao mostrar a passagem da antiguidade para sociedade medieval, Weber analisou com base em textos e documentos as transformações, da sociedade romana em função da utilização da mão de obra escrava e do servo da terra, em sua obra “As causas sociais do declínio da cultura antiga” nos mostra Cristina:

“Weber, entretanto, não achava que uma sucessão de fatos históricos, fizessem sentido por si mesma. Para ele todo historiador trabalha com dados esparsos e fragmentários. Por isso propunha para esse trabalho o método compreensivo, isto é, um esforço interpretativo do passado e de sua repercussão nas características peculiares das sociedades contemporâneas. Essa atitude de compreensão é que permite ao cientista atribuir aos fatos esparsos um sentido social e histórico. Costa, C. “Sociologia”, in “Sociologia Alemã: A contribuição de Max Weber”. P. 72.

Diferentemente de Durkheim, a sociologia compreensiva de Weber revela um papel maior para a subjetividade na ação e na pesquisa social além do aspecto mostrado por Cristina Costa na perspectiva histórica, um instrumento metodológico que nos mostra tal papel, são os tipos ideais de Weber, como o puritano por exemplo, na Ética Protestante e o espírito do capitalismo.
O tipo ideal seria um instrumento de análise para, a maneira de Durkheim das espécies sociais e as relações de causalidade, explicar os fatos sociais; com a ressalva que as espécies sociais de Durkheim eram fenômenos objetivos observáveis, ao passo que o tipo ideal de Weber não é um modelo a ser buscado pelas formações históricas, nem qualquer realidade observável, mas de uma construção teórica abstrata a partir dos casos particulares analisados.
Cristina Costa não vê nenhuma relação entre ambas as noções metodológicas de Durkheim (Espécies Sociais) e Weber (Tipo Ideal).
Mas podemos ver uma aproximação entre ambas como enriquecedora para a sociologia. Onde o tipo ideal de Weber e sua compreensão da vocação e da subjetividade no sentido da ação social, fornecem à metodologia objetiva Durkheimiana um elo, ou uma face que melhor acabam o prisma do entendimento e da explicação do sentido da ação social humana.

Que seria o Tempo Social?

Definiria-o nossa presente investigação como:
A base temporal em que ocorrem os processos sociais que possibilitam ao sociólogo, a apreensão das situações em que se processam em noções mais ou menos cristalizadas, a explicação dos dispositivos estruturais que desencadeiam as ações sociais e o sentido das ações humanas.

Resenha Crítica: Descartes Metafísica da Modernidade


Resenha sobre:

Silva, Franklin Leopoldo e, 1947 -
Descartes / Franklin Leopoldo e Silva, 5ª. Edição -
São Paulo: Moderna, 1993, (Coleção logos).

A Metafísica da Modernidade.

Clareza e distinção, análise, ordem, enumeração.
O trabalho de Franklin Leopoldo, professor de História da Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) traz nessa quinta edição da editora Moderna e da coleção Logos, uma proposta bastante sóbria no estudo e no comentário do sistema filosófico de Renè Descartes já esboçada no título de seu trabalho.
Contendo em si mesma como o itinerário do método cartesiano as quatro regras caras ao exercício da investigação filosófica de Descartes, Franklin Leopoldo apresenta-nos um trabalho sucinto partindo das questões mais simples como primeiramente na introdução, um panorama da idéia de Dualismo, Idealismo, Subjetivismo e Representação reduzindo-as, e mais propriamente simples a vida e obra do filosofo, e seu “itinerário sensível” tal como onde morou, dados de sua bibliografia juntamente com o desenvolvimento de seus trabalhos científicos e sua metafísica, bem como a evolução de seu espírito ponderando desde seu contexto histórico e a posição social de sua família, às descobertas cientificas da época e sua divergência no saber filosófico e cientifico da tradição medieval aristotélica-tomista.
Encadeando a construção do sistema cartesiano em razões que achou primeiras ao entendimento e a analise da filosofia de Descartes, o resultado mostra-nos uma obra de teor didático e clareza fundamentais ao entendimento do filósofo que se apresenta acessível já desde a primeira leitura e como obra de apoio que se cumpre cara ao estudo do filósofo em português.
Com maior densidade nas razões estudadas na terceira parte de seu trabalho, isto é a construção da filosofia cartesiana, torna-se através do rigor científico do historiador mais evidente o uso da análise, e o “tato” com o que poderíamos chamar de o “coração da obra” de Franklin Leopoldo, pois nela são tratados nada menos do que os fundamentos de certeza e veracidade a que Descartes chamou de a “alavanca que Arquimedes buscava para mover o mundo”, mas na obra do historiador o ponto fixo que inicia a construção do saber e da ciência cartesiana e a garantia de sua correspondência com a realidade formal, isto é, sua verdade. São tratadas as questões do conhecimento da natureza e fundamento de Eu - pensante como subjetividade que é razão de ser em si mesmo até atingir a demonstração metafísica ou prova da existência de Deus, como ser perfeito fundamentador da verdade, e garantia de existência da realidade formal das representações sensíveis e objetivas que constituem a unidade do pensamento, através do principio de causalidade e idéia de infinito presente no eu subjetivo que encontra em si este caminho e é enquanto pensa, mas que tem em Deus e na sua eternidade a garantia de continuidade do tempo absoluta, oposta à relatividade do eu enquanto se pensa, e que não pode ser origem e nem sustentação continua de toda criação.
Com ordem Franklin Leopoldo continuará encadeando e seguindo os próprios passos, para entender e demonstrar a razão cartesiana, e o conhecimento desenvolvido apartir de seus fundamentos metafísicos, onde abordará as demonstrações e as questões levantadas pela metafísica e a construção do saber cartesiano, bem como o conceito moderno de representação e conhecimento dos objetos sensíveis, onde por demanda das próprias razoes do método e do bom senso concluirá Descartes que por sua natureza obscura e confusa, as representações sensíveis não serão passíveis de construção cientifica, devido a impossibilidade de se precisar sua correspondência, sendo estas possivelmente diferentes das coisas representadas, sem, no entanto poder se duvidar de sua existência externa ao eu – pensante.
Seguirá tratando do ideal de sabedoria cartesiana e sua moral definitiva e concluirá sua primeira parte dissertando sobre as faces da herança cartesiana. Fará uso ainda da enumeração cartesiana na segunda parte em sua antologia onde ordenará fragmentos e citações de Descartes, da forma que talvez cumprisse expor sobre as questões que tratou.
Sobre as faces da herança cartesiana Franklin diz:

“(...) a filosofia de Descartes projeta a luz e a sombra. A consciência humana, através do saber e dos produtos desse saber, pode iluminar o mundo e a vida. Mas se o progresso do saber não estiver vinculado aos parâmetros de autonomia, liberdade, dignidade e felicidade, o futuro do homem pode apresentar-se como um horizonte sombrio.
Entre essas duas faces da herança cartesiana, cabe ao homem escolher”. (P 103,104)


Descartes concordaria se ouvisse falar que a filosofia, embora não podendo ser definida, não passasse de um estudo e um trabalho conceitual, onde a “herança” dos filósofos não fossem mais do que meras opiniões ou em caráter mais acadêmico à nossa tradição, sistemas filosóficos? Tendo ele próprio almejando a verdade absoluta através do método e o apresentado insistentemente no caráter de opinião e historia pessoal?
Embora se conhecesse o rigor científico de hoje do trabalho e da seriedade do historiador da filosofia e seu empenho em conhecer e entender sem interpolações as idéias dos “melhores espíritos”, como será que ele creria viável “dialogar” com esses “espíritos” se visse a palmatória do rigor cientifico e a tradição acadêmica do nosso saber filosófico, sempre estendida àquele que buscasse o tomar parte no conhecimento e na questão filosófica que os filósofos empenharam-se em levantar ou resolver?
São puras especulações que não nos levariam a lugar algum e seriam tão dispensáveis como certamente indagar o mesmo sobre a opinião do senso comum com relação à filosofia como esforço sem finalidade alguma, e a tradição acadêmica das humanidades ainda como uma extensa variedade de “opiniões”.
E quanto ao “academicismo” que muitas vezes caímos em decorrer de nosso esforço de entender sistemas filosóficos ricos em soluções e em problemas tão caros aos “estudiosos da sabedoria” em nossas aspirações ao estudo da filosofia.
“Academicismo” que preza pela forma e bate na tecla da tradição, cujos “pré-juizos” nos fazem ter dois pés atrás quanto às traduções e obras de apoio produzidas longe dela, a tradição acadêmica formal.
Se ela insistir em dizer que não há bons comentadores longe dela e de seu “Latim”, a obra de Franklin Leopoldo servirá ao menos como escolha de recusar as tradições “Primeiras das humanidades” e dos “melhores espíritos de nossa época” e debruçarmo-nos no estudo e na apreciação do nosso “Vulgar” inteligível claro e distinto.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Christine para Eric. (Poema 20 de Pablo Neruda)






"Puedo escribir los versos más tristes esta noche


Yo lo quiso, y a veces el tambiém me quise.


En una noche como ésta lo tuve entre mis brazos


Lo besé tantas veces bajo el cielo infinito.


El me quise, a veces yo también lo quería.


Cómo no haber amado sua grandes ojos fijos.


Puedo escribir los versos más tristes esta noche.


Pensar que no lo tengo. Sentir que lo he perdido.


Oir la noche inmensa, más inmensa sin el.


Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.


Qué importa, que mi amor no pudiera guardarlo.


La noche está estrellada y el no está conmigo.


Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.


Mi alma no se contenta con haberlo perdido.


Como para acercarlo mi mirada lo busca.


Mi corazón lo busca, y el no está conmigo.


La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.


Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.


Ya no lo quiero, es cierto, pero cuánto lo quiso.


Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. De otra. será de otra.


Como antes de mis besos. Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.


Ya no lo quiero, es cierto, pero talvez lo quiero.


Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.


Porque en una noche como ésta lo tuve entre mis brazos, mi alma no se contenta con haberlo perdido.


Aunque éste sea el último dolor que el me causa, y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

Epílogo.


Contos Singelos:


Epílogo

Olá? Não sejas tímido criança, dê-me sua mão , chega de brincar na água, venha-te antes que se enruguem seus dedos...
Já não cansastes de brincar?
Quem és tu? Donde viestes? Como pode ser-me tão aterradora e familiar visão?
...E que estranho convite com tão doce voz faze-mes?
Para que tantas perguntas? Tanta sede de respostas ?
O ribeiro de tua essência já curva-se; sob a luz de sua vida já se põe o sol, e tu que eras já não é mais...
Não! Não pode ser! Quem és? Por que sinto conhecerte?
Conhece-mes porque em teu nascimento já te ninei em meus braços, assim como teu pai, e o pai de teu pai; também já passei a mão nos cabelos de sua mãe ,quando estavas a chorar, porque levei a mãe, e a mãe de sua mãe...
Por favor, piedade pois bem sei quem tu és...
A mim não se confere dar-te longevidade, pois bem sabes que sou abreviação.
Eu lhe imploro que então deixa-me despedir-me daqueles que amo...
Também isso não posso...
Rogo-te que então deixe-me pedir perdão, e desculpar-me daqueles a que fiz mal...
Isso seria bom...mas também não posso...
Por favor, então imploro-te que deixe-me apenas ver uma última vez, mesmo que por segundos, e mesmo que a distância ; a quem amo...
Ainda isso não posso...
Pelo amor de Deus espere!
Por qual razão agonizas e implora-me com tanta força, como se eu fosse dar-te um golpe de espada no coração, visto que aqui estou, sentada e estática bem à sua frente?
Podemos conversar só um pouco?
Claro querido, sabes que tenho todo o tempo do mundo; e sou inevitável e irresistível, ao contrário de vois...
Por favor, não escarneças de uma alma já tão exasperada e confusa...
Criança; já foste concebida em meus braços, desde cedo já soubes que sou a madre estéril; que até o brilho das estrelas é extinguível, que o canto se dissipa quando se acaba o fôlego, que toda chama se esvai e toda glória desvanece...
Mas, e os que de mim dependiam?
A vida sempre segue seu curso...
E os que por mim chorarão?
Sabes que eles te esquecerão...
E o que dirão de mim? Que escreverão em meu epitáfio? O que haverei de deixar pra minha posteridade?
Sabes, é tão doloroso admitir; mas tens razão...
Ah! Como eu queria ouvir mais um cantar de pássaros, ver mais uma manhã, e sentir seu ar tão gélido; que para mim seria mais doce que o mais delicado dos manjares...
Muitas foram as suas manhãs pequenino...
Quem me dera então ver mais uma vez o brilho no olhar da minha amada, ver o sol brilhar por entre seus cabelos e uma última vez poder dizer que a amo...
Quem me dera viver mesmo que para abraçar meu inimigo, e para chorar o mal que me fez...
Seus amores e seus inimigos sempre o cercaram...
Quem me dera saber que tu virias, e quem me dera que tudo que eu tivesse pudesse pagar por mais um único dia, mais um único sonho, uma única manhã, um único suspiro...
Sempre soubes que eu viria...
Ah! Quão débil é o fio de nossa existência... E que mal tão grande nos apartou de ti Senhor, para que herdasse-mos tão indesejada visita?
Que pode o homem pagar por sua vida?
Vida esta que nos guia entre paixões e amores, desejos e loucuras; onde não apreciamos o sabor do ar, por nos parecer infindável...
Vida esta que se dissipa como um fumo, e como nevoeiro a luz do meio-dia...
Como seta que corta o ar e depois revolve-se em si mesmo, como nau que transcorre o mar e não deixa rastro nem pegada, como a lembrança de um hóspede de um outro dia que foi e não é mais...
Vida que desde o começo torna-nos passado em movimento, onde nada somos além da memória de nossos feitos, ao defrontarmos a face de tão ínfimo destino...
O que o faz pensar que estou separada de ti?
Não vês que estou em cada linha de seu rosto, em cada passo que lhe falta sustento e em cada esforço que lhe falta o ar?
Em cada forma que lhe parece turva em cada som que se atrasa, e em cada dia que está pra chegar...
Abraça-me meu querido, pois suas lágrimas não posso enxugar...
Não sei se lhe serve de consolo, mas a todos irei visitar.
Entendo, e sua honestidade sei apreciar...
Meu amor sabes que não sou indelicada, mas já é chegada sua hora.
Sim vamos, mais por favor, uma última pergunta...
Claro meu amor, faça-a.
Do que morrerei?
Pensei que nunca fosses perguntar...

Conto do Canteiro de Flores


Contos Singelos:


Conto do Canteiro de Flores

Havia certa vez, um homem muito rico e também de muito boa aparência; que tinha acabado de se casar com o grande amor da sua vida... a mulher mais linda do mundo e a única que ele conseguia enxergar.
Ele estava num estado de felicidade imensurável, que não podia se conter...
Ora, por ser muito rico, ele tinha muito empregados, era muito bajulado; mas mesmo assim, ele ainda tinha todas as grandes qualidades que uma mulher parecia procurar em um homem... amava sua esposa, era quase que... perfeito...
Sua casa era enorme, gigantesca, linda como seu amor por sua mulher.
Havia piscinas, cachoeiras, jardins e gramados viçosos, e toda sorte de ornamentos e beleza espalhados por toda parte.
Mas como se não bastasse ele pensou:
Tudo isso é nada se comparado ao meu amor...
Mandarei ladrilhar a passagem dos pés da minha amada, desde a entrada, até a porta de casa; e encherei suas laterais com o mais belo canteiro de rosas, vermelhas como minha paixão, e margaridas, brancas como a pureza do meu amor...
E como toda vontade sua assim foi feito.
Contratou um bom jardineiro, e em pouco tempo lá estava...
Um deslumbrante e colossal canteiro de flores...
Ali batiam os raios de sol...beija flores das mais lindas cores sempre voavam e paravam por ali como numa dança sem igual...
Não havia alguém que não se maravilha-se com tão exuberante visão.
Naquele canteiro, dentre todas as lindas flores que ali existiam; havia a mais linda e deslumbrante de todas as rosas; vermelha como o sangue...
E do outro lado a mais alva e pura dentre as margaridas...
E ficavam bem ao centro do canteiro uma de frente para a outra.
E estando ali as duas, volta e meia discorriam entre si:
Nossa! Isso que é amor hein minha filha?
Exclamava a Rosa.
Ô ! eta mulher de sorte!
Invejava inocentemente a Margarida.
E ao orvalho da manhã as duas se refrescavam, e ao raiar do sol contente gabavam-se uma para a outra:
Ai Maga! Hoje me sinto tão maravilhosa!
Se gabava a Rosa enquanto exibia seu viço.
É mesmo Rosa você é tão linda! Pena que você tenha esses espinhos tão feios né?
Ao contrário de mim que sou delicada da pétala à raiz.
Alfinetava a Margarida.
Aha, Há! Ria-se a Rosa.
Se liga né Maga... é irrefutável que sou a mais linda desse canteiro, e minha exuberância não se compara à uma reles Margarida que nem você não é mesmo?
Se orgulhava uma soberba Rosa.
E assim corria o assunto até a chegada do jardineiro...
Um homem simples, com roupas feias, malnascido e com calos nas mãos; com barba por fazer e sua inseparável malinha de utensílios.
Ai! Lá vem esse chato tapar nosso sol!
Esbravejava a Rosa.
Ai! Sai, sai, sai me deixa em paz!
Murmurava a Margarida.
E nisso elas concordavam...em rir e escarnecer do pobre coitado...
Olha que ridículo! Parece um Jeca!
Há! Há! Há!
Olha o sapato dele, parece um sapo!
Há! Há! Há !
Uh! E como ele cheira mal!
Falavam do pobre coitado que debaixo do sol transpirava, ao retirar do pé das duas, as ervas daninhas, protege-las das larvas, adubar a terra, e banha-las com uma gostosa ducha do regador...
Homem simples; que até falava com elas; e cantava enquanto trabalhava... e elas diziam:
Ai! Cantar não! Ninguém merece!
O pior é ouvir esse papo dele... esse cara num se toca!
Vai sai do nosso pé caipira!
Os espinhos da rosa o furava nas mãos, que sangravam, mais ali estava ele...
E a tarde lá estavam elas...lindas como nunca, a emanar seu perfume tão doce; que atraia a dona da casa ao canteiro, para passear e sentir aquela fragrância adorável; e também para deslumbrar-se com tanta beleza...
Meu Deus! Como ela é linda!
Admirava-se a Rosa.
E que delicadeza e graça!
Completava a Margarida.
Não é a toa que ele a ama!
Que mulher de sorte!
Ao por do sol chegava o dono da casa...
E nesse momento o mundo parava pra elas...
Ele vinha como que em camera lenta; alto; pisando confiante com um brilho no olhar; com aquelas lindas roupas e aquele cheiro que as enlouquecia...
Como elas o amavam!
Cada dia elas o amavam mais e mais, e discorriam entre si:
Por que ele nunca repara na gente?
Indignava-se a Rosa.
Nós o amamos tanto!
Chorava a Margarida.
Mas um belo fim de tarde aconteceu algo inesperado.
O dono da casa parou estático bem na frente da rosa; e olhando intensamente pra ela seus olhos brilharam...
Estendendo sua mão ele à arrancou, e tocando seus lábios nela suspirou...
A Rosa estava no céu!
Seu sonho havia se realizado...a Margarida morria de inveja... enquanto lá se ia ela, mais linda do que nunca pra dentro da casa, carregada pelo seu próprio amado...
Os dias se passavam e lá estava a Rosa linda, no lugar mais grandioso que houvera...
No vaso de pura água cristalina, na linda janela.
A água brilhava ao sol; a Rosa exuberante; a Margarida inconsolável...
Mas os dias foram se passando, a Rosa ia perdendo seu viço, as pétalas iam caindo; até que prostrada morreu...
A Margarida não entendia aquilo, e ficou mais triste e horrorizada, mas no fundo gostou;
Achou merecido fim para a soberba Rosa!
Mas certa noite algo muito estranho acontecia...
Ela observava muito atenta.
Gritos, choros, barulhos...
Os donos da casa haviam brigado!
E no meio da noite saiu o dono da casa...
Muito triste, se sentou bem ao seu lado.
Ah! Era sua grande chance...
O dono se virou para a Margarida, e à regou com suas próprias lágrimas; sentiu sua fragrância e a arrancou.
Durante alguns minutos pensativo ele a acariciou, fazendo ela atingir o sétimo céu, e sentir-se feliz como ela nunca havia sido...
Mas de repente, ele começou a arrancar suas pétalas uma a uma e a feri-la...
E ela não entendia por que tanto ódio se ela o amava tanto...
E ao despedaça-la por completo a jogou no chão...
Onde ficou ali prostrada agonizando sem entender por que seu grande amor a ferira tanto...

E a abandonara ali, enquanto caminhava sem rumo por aquele lindo canteiro.

Fragmentos não refinados.

Fragmentos não refinados.

(...)Sei que não a amo... Que será isso então? Luxúria?Não importa, não quero macular tão divina sensação com esclarecimentos. Quero antes tornar animal, obscuro e ininteligível o que sinto... percorre-me o ventre como um frenesi que aflora ressentindo-me, sensibilizando minhas expressões, como uma parte de pele friccionada e vermelha. Obscurecendo seu motivo, chamo-lhe instinto, e realço sua causa!Sazonada... Contenho a emoção que quer marejar-me os olhos, com um brilho no olhar sistemático e vaidoso.Ela está tão linda... Tortura-me seu apertar de lábios, suas linhas maduras, tão expressivas! Talvez de uma expressividade e uma melancolia profundamente atraentes!Ela já foi minha... Seu olhar abandonado que espelha as luzes que projetam sombras em seu rosto parodiam seus pensamentos? Talvez... Olha-me culpada quando sente minhas intenções, como a atração e repulsa de um perfume de bailarina nua coberta de suor e flores.Ela está mudada. Mas conserva no traço de seus jeitos um que de personalidade, algo que familiar como a semelhança de mãe e filha...Sinto um abandono de mim mesmo, que me dá direitos sobre ela...Quereria que a evanescencia de seus sorrisos se misturasse em meu colo, com o odor de seu pescoço e cabelos e percorresse minhas impressões da trivialidade de seus gestos, transformando-se em um jogar de cabeça abandonado, de uma gargalhada langorosa, lasciva que terminasse novamente em um sorriso de canto... Satisfatório e sazonado...

domingo, 25 de março de 2007

Templários


Excerto Trabalho de História
5 – Perseguições de Felipe o Belo

“Acha-se muito longe do interesse humano aquele que mestre nas doutrinas políticas, não cuida de conferir às coisas públicas, nenhum dos frutos que colheu. Esse homem não é como a árvore que plantada junto à água corrente no tempo devido produz frutos, mas antes uma pestilenta cloaca, que tudo draga e devora sem nada restituir”.
Alighieri, Dante, “Da Monarquia”, Tradução Jean Melville, Martin Claret, 2003 Ed. Pg. 13.







As vantagens trazidas pelas ordens militares eram equilibradas por sérias desvantagens para os monarcas e o poder secular, se por um lado sua ajuda era imprescindível na reconquista da Terra Santa, das terras na Península Ibérica e em todo apoio de logística, de combatentes, de policiamento de fronteiras, transições do dinheiro, e serem suficientemente ricos para poder construir e manter castelos e terras em uma escala que poucos senhores seculares poderiam alcançar, pesara contra elas a insegurança, a cobiça e desconfiança dos monarcas do poder secular.
O rei não tinha controle sobre as ordens militares, sendo seu único soberano o Papa. As terras que lhes ofereciam eram inalienáveis, e não eram exigidos sobre elas quaisquer serviços.
Os membros das ordens militares recusavam-se a deixar que aqueles que ocupassem as suas terras pagassem o dizimo devido à Igreja. E os cavaleiros lutavam com os exércitos dos reis na qualidade de aliados voluntários.

“Se a política oficial não lhes agradasse podiam recusar-se a colaborar... Cada ordem seguia a sua linha de ação no que respeitava à diplomacia, independentemente da política oficial do reino.”
Runciman, Steven, “História das Cruzadas”. Vol. 2. Europas. Livros Horizontes Ed., 1993. Pg. 253.


Tal era o contexto das ordens militares nos reinos latinos do “Outremer”, mas que de certa maneira não eram muito diferentes no reino da França e no contexto de Felipe o Belo. Filipe IV era herdeiro não apenas de uma tradição de piedade, como também da política dos monarcas capetíngios, de expandir seus poderes à custa de seus vassalos e desenvolvimento às expensas dos principados ao redor, como o de Toulose, e dentro do reino por meio de expansão dos direitos reais as custas da nobreza, das cidades e da Igreja.
Filipe cria que era um eleito de Deus, mas tal crença não alçou acima de princípios políticos práticos, mas sim em torná-lo determinado a cumprir seu papel divinamente designado.
Rodeado de ministros, provindos de uma ascendente classe de “legistes” (advogados) que nada deviam à Igreja ou a nobreza mais somente derivavam seu poder da mercê do rei, concorriam estes, a medida de sua influencia a consolidar a ideologia, e os traços absolutistas do reinado de Filipe.
O rei da Inglaterra, Eduardo I, duque da Gasconha e vassalo de Filipe teve atritos com a política capetingia continuada por Filipe que levou à guerra França e Inglaterra.
O Papa Bonifácio VIII e 1296 teve sua tentativa de intervir na guerra dos dois franceses, e medidas de boicote nas rendas da Igreja na França por Filipe, que o fez retroceder e selar sua reconciliação, declarando em agosto de 1297 santo o avô de Filipe Luiz IX.

“Essas guerras incorreram em enormes despesas aumentando a divida que Filipe herdara da guerra de seu pai contra Aragão – cerca de 1,5 milhão de livres tournois. Todo expediente à disposição do monarca foi usado para angariar fundos. As obrigações feudais foram exploradas ao máximo e a força foi usada para extorquir impostos às cidades. Quando todas as fontes aceitas e legitimas se exauriram, os ministros do rei voltaram-se para minorias ricas impopulares.” Read, Piers Paul, “Os Templários”, Pg. 275.
Filipe perseguiu também os Lombardos, mercadores que viviam em Paris, e que haviam atuado como seus banqueiros, e posteriormente os judeus. Ambos tiveram seus bens confiscados e foram expulsos da França.

Em dezembro de 1305 Filipe o Belo adotara a Cruz, da cruzada proclamada na encíclica do Papa Clemente V dois dias após sua “coroação” com a tiara pontifícia. Adotara o Papa o nome do Papa que trabalhava em harmonia com São Luiz e dizia que uma cruzada bem sucedida só o poderia se liderada pelo rei da França.

“A intenção do rei Filipe nessa conjuntura era cumprir sua promessa não só para conquistar a glória ao livrar os lugares Santos do infiel, mas também para fundar um império francês no Mediterrâneo oriental (...) Isso talvez não tivesse de acordo com o plano de Clemente V, mas a França, Veneza, Aragão e Nápoles ‘estavam claramente comprometidos com a Conquista de Constantinopla. ’” (...) Na mente de Filipe, uma condição prévia para uma cruzada bem sucedida era a fusão das ordens militares. “Ele comandaria a ordem resultante dessa fusão e um de seus filhos lhe sucederia.” Read, Piers Paul, “Os Templários”. Pg. 281.

Propagandas panfletárias advogavam a união das Ordens do Templo e do Hospital e a utilização de seus recursos pelo rei francês, como do que era essencial para a hegemonia francesa sobre o ocidente e o oriente por meio de uma cruzada.
É o caso de um advogado formando Pierre Dubois em sua De recuperatione terre sancte, onde acrescentou que talvez fosse conveniente destruir a ordem do Templo por completo e aniquilá-la totalmente para as necessidades da justiça.
A idéia de fundir as duas ordens era predominante e até mesmo Ramon Llull do que tratamos na parte 3 desse trabalho, partilhava dela em parte, condenando ao inferno os que a este mister se opunham.
Somente um homem praticamente se opunha a esta idéia. O Grão-mestre do templo, Jacques Demolay.


6 – Jacques Demolay e o fim da ordem

“O profeta que profetizar paz, só ao cumprir-se sua palavra será conhecido como profeta de fato enviado do Senhor.” Jeremias, 28,9.

Jacques Demolay nasceu na cidade de Vitrey na França em 1244 e aos 21 anos se juntou à Ordem dos Cavaleiros Templários.
Em 1298 foi nomeado Grão-Mestre da ordem. Jacques Demolay acreditava que a competição entre o Templo e o Hospital era benéfica, que embora seus objetivos fossem semelhantes, cada uma delas tinham um caminha e uma razão de ser distintas, que somente com suas autonomias e independências asseguradas, tinham chance de atingir seus objetivos.
Nadou também contra a maré e mais uma vez foi contra o ponto de vista predominante na época, dizendo que essas operações em pequena escala, a de apoio às forças da Armênia Cilícia em questão, estavam fadadas ao fracasso.
Que a única maneira de reconquistar a Terra Santa era derrotando as forças do Egito em uma cruzada em grande escala como a do Rei Luiz IX.
Em 1307 em Poitiers, além de expor suas idéias sobre uma cruzada, Jacques Demolay suscitou a questão de certas acusações levantadas contra os membros da ordem e pediu ao Papa que instituísse uma investigação e os condenasse se culpados e que os absolvesse se inocente.
Em 13 de outubro de 1307 foi preso por Guilherme de Nogaret e Reinaldo Roy no complexo do Templo nos limites de Paris.
Como o exemplo de Filipe o Belo com relação aos lombardos e Judeus, alguns meses antes toda propriedade do Templo fora seqüestrada.
Sob as acusações de apostasia da fé, crime contra natureza entre outras foram entregues os Templários ao tribunal eclesiástico da inquisição, para através de seus ordálios e torturas autorizadas meio século antes pelo Papa Inocêncio IV para obter a confissão dos crimes.

“Criada para descobrir a heresia no Languedoc, com seu quadro de pessoal formado por frades da ordem de pregadores fundada por Domingos de Gusmão, desde 1234 um santo canonizado, a Inquisição na França se transformara num instrumento de coerção do Estado. O inquisidor – mor, Guilherme de Paris, era confessor do Rei Filipe e, devido à religiosidade do rei, estava sem dúvida a par de seus planos.” Read, Piers Paul, “Os Templários”, Pg. 285.

Em março de 1312 era dissolvida por Clemente IV a Ordem do Templo.
Em 14 de março de 1314, após ter confessado os crimes de que fora acusado, com exceção do de sodomia, sob a coerção das torturas da inquisição, Jacques Demolay, disse que a única iniqüidade de que era culpado, era a de ter mentido sobre a Ordem do Templo para salvar a própria vida de terríveis torturas, e que a Ordem era santa e imaculada, inocente de todas as acusações.
Jacques Demolay foi imediatamente condenado à fogueira como herege reincidente. Dizendo que iria com o espírito tranqüilo alimentar o fogo e que já na fogueira, as pessoas pias que foram recolher seus ossos carbonizados como relíquia de santo, também ouviram que ele convocara o Papa Clemente V e o Rei Filipe IV que comparecesse antes que o ano terminasse, perante o tribunal de Deus.
“(...) a planejada cruzada do Papa Clemente V nunca se realizou. Ele morreu no dia 20 de abril de 1314, pouco mais de um mês após a morte de Jacques Demolay. O Rei Filipe, o Belo, seguiu para o túmulo no dia 29 de novembro do mesmo ano, depois de um acidente durante uma caçada...” Read, Piers Paul, “Os Templários”, Pg.319.

terça-feira, 20 de março de 2007

"Antropiné Sophia"





A tristeza brandi no conhecimento quando revela cada nuance da vida humana!
Quem aumenta sua sabedoria consequentemente aumenta seu pesar.
O conhecimento tira a "magia" das coisas, mesmo que para revelar sua beleza.
És um amante da beleza? Que fizestes para ama-la?
Eu suporto o peso do conhecimento que traz consigo a tristeza e a alegria!
Revelai-me a miséria humana, que eu dançarei sobre vossas agonias.
Já pensastes assim? Já gritastes assim?
Podeis amar a bela forma se conhecer a decadência de suas vísceras?
Poderias falar do elevado amor se ele não viesse das profundezas degradantes dessas vísceras?
Buscai a felicidade em vossos instintos sem questioná-los que te observarei, como à um curioso animal; quando desdenhares de mim em tua alegria inocente e febril te amarei e pensarei: Só haverá tais certezas onde não se enxergar as perguntas.
Não é essa uma dor que perdura até a morte?

Eudaimonia Aristotélica - Dissertação sobre a Ética Nicomaquéia




Ethica Nicomachea

Eudaimonia

I

A investigação acerca do que Aristóteles entende por “Eudaimonia”, tem seu princípio intuitivo na ação, e mais propriamente na ação humana e na sua finalidade.
Todas as atividades humanas visam algum bem, pois “o bem é aquilo para o qual as coisas tendem”.
Mas há uma imensa diversidade de bens, atividades, resultados dessas atividades e justamente por algumas dessas atividades produzirem fins distintos dessas ações, são estes mais excelentes, que as suas anteriores atividades, por estas serem orientadas em função deles.
Esses bens são desejáveis, e as atividades que são orientadas por eles também, em função de adquiri-los.
Todavia sob pena de ser inútil nosso desejar, e um bem ser sempre desejado em virtude do outro, deve existir algo desejado por si mesmo e este serio o “Sumo Bem”.
Pela grande influência que este exerce sobre nossa vida cumpre seu conhecimento, e para o alcançarmos Aristóteles compara o seu conhecimento, com o alvo visível ao arqueiro.
Sendo mister determinar esse bem, seja ele qual for Aristóteles o identifica como objeto do que ele qualifica a “ciência mais prestigiosa e que prevalece sobre tudo” a ciência política.
Esta é a mais prestigiosa das ciências no sentido dela determinar quais ciências se deve estudar nas Cidades – Estado:
Faculdades de grande apreço como estratégia, economia e retórica serem abarcadas nela.
Além de utilizar tais ciências, legislar sobre elas e sua finalidade abranger as das outras ciências.
Mas acima dessas razões, Aristóteles elege a de que a finalidade da política deve ser o bem humano tanto para a cidade quanto para o indíviduo, que ele qualifica de “mais nobre e divino”, atingir o bem de uma nação embora a seja também desejável ao indivíduo. A primeira dificuldade que se levanta é que tanto os bens quanto as ações, belas e justas que investigam a ciência política apresentam imensa flutuação de opiniões, a ponto de se as considerar como que existindo por convenção e não por natureza, por tal razão a metodologia de investigação seguida por Aristóteles na Ética Nicomaquéia é o “Hos epi to polun” (no mais das vezes) isto é, analisando as estruturas de maneira objetiva da complexidade da ação humana sob o prisma casuístico (mais não relativista) da perspectiva do conhecimento possível.
E no livro I, 3, proporá que devemos nos contentar com o conhecimento da ação humana de forma aproximada e com a precisão que lhe cabe, semelhante à precisão da medicina, que difere da Geometria e da Retórica em precisão como que em uma espécie de “justa medida metodológica”, e adverte que o conhecimento, ou a ciência política e sua investigação, gira em torno da experiência e dos fatos da vida, inútil aos que vivem ao sabor das paixões de forma incontinente, sendo a ação o fim que visa a ciência política, seu conhecimento só teria valia, para os que agem de acordo com a razão e o bem julgar da precisão a que este conhecimento nos permite.

II

Com relação a esse “Sumo Bem” tanto homens bem instruídos, quanto o vulgo, ainda que possam divergir acerca do que seja felicidade dizem que o mais alto de todos os bens que se pode alcançar pela ação é a felicidade e que o bem agir e o bem viver a constituem. Sendo os objetos de nosso conhecimento, relativos, na acepção absoluta do tempo: o fato é o ponto de partida e princípio das coisas conhecidas por nós.
Aristóteles diz que o homem educado nos bons hábitos tem mais proveito nas exposições do que é nobre e justo sobre a ciência política.
Já os conhecendo ou podendo vir a conhecê-los com maior facilidade.
Aristóteles examina então as noções de felicidade ou as coisas com que alguns homens instruídos ou do vulgo com ela a identificam, e encontra três principais tipos de vida:


- a dos que identificam a felicidade com prazer, ou seja, a maioria do vulgo que ama uma vida agradável, dos prazeres do sentido, em uma vida comparável a dos animais.


- já algumas pessoas de maior refinamento e índole ativa identificam a felicidade com a honra, dizendo-a objetivo da vida política.


Porém, a honra enquanto bem que depende mais de quem a concede do que de quem a recebe, é vista como coisa superficial para ser tida como “o bem”, algo próprio do homem, que dificilmente lhe seria tirado.
Aristóteles, contudo identifica a virtude, mais que a honra, com finalidade da vida política ao passo que ainda se mostra incompleta, pois ainda é necessário ao ser feliz e virtuoso uma atividade, certa ação, pois não se diria feliz e virtuoso do que dorme sem praticar a virtude e também daquele que vive intempéries de infortúnios e sofrimentos durante a vida.
Por essa razão, Aristóteles considera a riqueza útil mais não o sumo bem, como algumas pessoas que identificam a felicidade com tais noções. A riqueza seria coisa útil, por ser coisa desejada em função de outra e não em si mesma.
A vida dedicada a ganhar dinheiro é uma vida forçada.
Para examinar melhor o que é felicidade, enquanto o sumo bem atingido pela ação, Aristóteles metodologicamente investiga se há alguma ação peculiar ao homem e caracterizadora dessa ação para alcançá-la.
No livro I, 7, encontramos essas premissas.
“Se existe uma finalidade visada em tudo que fazemos, tal finalidade será o bem atingido pela ação, se há mais de uma serão os bens atingidos por meio dela”.
Nem todos os fins serão absolutos, mas o sumo bem é claramente absoluto, no sentido de que merece ser buscado por si mesmo.
Aquilo que é perseguido em função de si mesmo é “mais absoluto” que o que se busca por causa diversa a si, além disso, o que nunca é desejável no interesse de outra coisa, “mais absoluto ainda” que o que é desejável tanto em si mesmo, como no interesse de outra coisa.
Diante desse raciocínio a felicidade é considerada como esse sumo bem absoluto incondicional, isto é por ser buscada e desejada tanto em si mesma e nunca no interesse de outra coisa; como no caso do prazer, a honra e a razão e todas as demais virtudes, pois embora as “escolhemos em si mesmas, mesmo que delas nada decorra, fazemos nossa escolha no interesse da felicidade”.



III

O bem absoluto tem “autarquéia” (auto-suficiência) definido como aquilo em si mesmo torna a vida desejável, por não ser carente de nada, entendida essa auto-suficiência na dicotomia do homem enquanto “animal-político” inserido na cidade a não para um homem isolado, mas também em um necessário limite de seu contexto, para não se estender suas relações aos antepassados, descendentes, amigos de amigos em uma serie infinita.
A felicidade é a mais desejável de todas as coisas e não como um bem entre outros no qual o aditamento de um novo bem constitui um bem maior:
A felicidade é algo absoluto, a auto-suficiência é finalidade da ação.
Sob pena da noção de felicidade do esboço do livro I vir a ser uma “trivialidade” é forçoso explicar claramente o que ela seja e para tanto, Aristóteles procura determinar qual seria a função do homem, sendo para tal a razão, de ser aplicável o critério de que o bem e perfeição residem na função como no caso de um flautista e um escultor ou tudo o que tem uma atividade. Se for verídico que o homem tem também uma função que lhe é própria enquanto homem.
Então Aristóteles se pergunta, da mesma maneira que na cidade, um flautista, um escultor, e etc., possuem uma função específica do qual constituem toda a cidade, cuja função é o bem viver de seus cidadãos (o bem humano, cuja finalidade pertence à ação política); o olho, a mão, o pé e cada parte do corpo possuem uma função especifica.
O homem do mesmo modo não teria uma função independente das partes do corpo?
Se a resposta fosse a vida, a vida também é peculiar às plantas e o homem participa dessa peculiaridade com as atividades de nutrição e crescimento da alma. A percepção no sentido de sensação, distingui-lo-ia dos vegetais, mas também é comum aos animais ao passo que o homem também participa dela; esta não lhe é caracterizadora.
Restaria por tanto de inerente ao homem, a atividade racional da alma (do elemento racional da alma) em duas acepções, de ser obediente a ela, e de o pensar referindo–se a acepção que distingue e é peculiar ao homem; o exercício ativo desse elemento.
“Ação que se faz conhecer”, que é expressa de forma clara inteligível, distinta dos animais, no sentido que não sabemos se esses dispõem de “alguma racionalidade”, pois o que se percebe neles e estes nos expressam, são atitudes sensitivas; nesse sentido a ação do homem é uma atividade racional objetiva.
A atividade racional da alma do homem em suas duas acepções, de ser obediente a ela e de pensá-la, são as partes a que futuramente Aristóteles atribuirá às virtudes intelectuais da sabedoria prática e da sabedoria filosófica, respectivamente, uma para parte racional que coloca o homem diante das contingências, das particularidades e devir, e outra diante da contemplação, verdade e imutabilidade.
A função do homem seria então uma atividade da alma que implica um princípio racional, constituída por porções da alma que a resultam.
A maneira que um tocador de lira e um bom tocador de lira têm lhe acrescentado ao nome da função a excelência com respeito à bondade, a função do tocador de lira é tocar lira e do bom tocador de lira, toca-la com “arethé” (excelência); um homem e um bom homem implicam em certa espécie de vida constituída por uma atividade da alma que implica um princípio racional e uma boa e nobre realização; e uma ação é bem executada estando de acordo com a excelência que lhe é própria.

IV

O bem do homem então, vem a ser a atividade da alma em consonância com a virtude, havendo mais de uma, com a melhor e mais completa entre elas.
Aristóteles considera o tempo dessa atividade, dizendo que deveríamos acrescentar a isso “uma vida inteira”, pois um único dia não faz o homem feliz e venturoso.
Por isso talvez, seja absurda a idéia de felicidade de que se não a atinge enquanto vivo, mas somente após a morte quando livre de males e infortúnios que nos atinge, porque a felicidade é justamente uma espécie de atividade.
Feliz é aquele que age conforme a virtude perfeita e está provido de bens exteriores não durante um período de tempo qualquer, mas por toda a vida, aquele em que tais condições se realizam ou estejam destinadas a se realizar obedecendo às limitações da natureza humana.
Sendo constatada a felicidade enquanto atividade da alma, conforme a virtude perfeita mostra-se necessário uma consideração sobre a natureza da virtude, e esta virtude deve ser aquela que diz respeito à natureza humana, entendida a virtude humana por Aristóteles não a do corpo, mas a da alma do qual a felicidade é uma atividade.
E essa é também a razão pelo qual Aristóteles entende que o político deve ter algum conhecimento da alma, sendo a finalidade da política o bem humano e a atividade virtuosa.
A alma humana é constituída de uma parte racional e outra privada dela, distinta ou irracional.
Nesse elemento ou nessa parte irracional uma subdivisão seria comum a todos os seres vivos e de natureza vegetativa, causa da nutrição e do crescimento sua excelência seria comum a todos os seres vivos, mas o sono seria uma inatividade da alma no que nos leva a chamá-la de boa ou má, e é onde se desenvolve e parece funcionar a excelência do que Aristóteles chama de faculdade vegetativa da alma.
Por isso a faculdade vegetativa não faz parte de excelência humana no sentido de que lhe é peculiar, pois a faculdade vegetativa faz parte da natureza humana.
Um outro elemento irracional que em certo sentido participa do elemento racional da alma, à medida que o escuta e o obedece, mas que está em constante oposição ao elemento racional, mas que pode ser persuadido pela razão é o elemento apetitivo, dos sentidos e desejos, do qual participam os animais irracionais também.
As disposições de espírito louváveis, Aristóteles diz que chamamos virtudes, estas se subdividem em espécies de acordo com as subdivisões da alma, na qualidade de: virtudes morais e virtudes intelectuais, a maneira das partes irracionais e racionais da alma porém não atribuídas de forma temerária e determinante, mas com uma objetiva, “prudente” e detalhada anáalise, das nuances dessa interação.
A virtude intelectual deve em grande parte sua geração e crescimento ao ensino, e requer experiência e tempo, como o uso da razão nas crianças.
A virtude moral é adquirida em resultado do hábito.
Nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza, visto que nada que encontramos na natureza pode ser alterado pelo hábito, e Aristóteles nos exemplifica isso com uma pedra que jamais se acostumaria a ir pra cima; por mais que a jogássemos ela sempre cairia.


V


A virtude moral se relaciona com as paixões e ações e nessas, existe excesso, carência e um meio termo (justa medida).
Sentir de uma forma geral o prazer e o sofrimento em excesso ou insuficientemente é um mal, dirá Aristóteles, mas senti-los no momento certo (“kairós”) em relação aos objetos e as pessoas certas, e pelo motivo e da maneira certa consistem em uma justa medida e a excelência características da virtude.
O mal pertence em certo sentido à classe do ilimitado: é possível se errar de várias maneiras ao passo que os homens são bons de um modo apenas e maus de muitos modos; fácil errar a mira difícil atingir o alvo:
“A arte é longa, a vida é breve, o momento oportuno fugidio, a prova vacilante e o juízo difícil...”.
Nem toda ação ou paixão admite um meio termo, pois algumas dessas ações a paixões já implicam maldade em si mesmas nos nomes que possuem.
Aristóteles cita-nos o despeito, o despudor e a inveja no âmbito das paixões e o adultério.
Sempre haverá erro e nunca será possível retidão nelas.
Em certo sentido Aristóteles reconhece que há entre os extremos o meio termo; do excesso e da falta não há meio termo assim como não há excesso ou deficiência do meio termo.
Porém há casos em que o mais contrário à justa medida é a falta, e às vezes o excesso, como nos casos que Aristóteles analisa onde se confunde um homem temerário com um homem corajoso e um homem insensível com um homem temperante.
Tal se dá por duas razões conclui Aristóteles.
Uma razão inerente à própria coisa, por um dos extremos estar mais próximo da justa medida, no caso do corajoso e do temerário, o excesso e não a falta, a covardia; pois então, os extremos menos parecidos são considerados mais contrários à justa medida.
A outra razão se encontra em nós mesmos, na nossa inclinação natural que nos parece mais contrária ao meio termo, no caso do homem temperante e o insensível tendemos mais naturalmente para os prazeres elevados com maior facilidade à intemperança, então chamamos mais oposto à justa medida o extremo que nos sentimos mais inclinados.
Aristóteles vê que as virtudes morais como que ligadas à parte irracional da alma no caso da temperança e covardia parece nos dominar não como homens mais como animais, e é justamente isso que lhes é condenável.
Porém a virtude moral assim como uma parte irracional da alma participa da razão, como o exemplo do homem temperante onde o elemento apetitivo se harmoniza com o princípio racional, e objetivo de ambos é o nobre, por isso o homem temperante deseja as coisas que deve desejar da maneira e na ocasião certa consoante lhe determina o princípio racional.
Ate mesmo a justiça, examinada no quinto livro da Ética Nicomaquéia que em seu sentido amplo, Aristóteles a vê como toda “a virtude” (moral), não possui a prerrogativa da “autarquéia”, pois a justiça é “o bem de um outro”, pois sua ação e das virtudes gerais em moral não são desejadas em si mesmas.
Aristóteles examina no livro V outros sentidos e formas particulares de justiça, mais nos ateremos à sua definição da justiça em geral, no seu sentido amplo.


VI


“Aquele que governa esta em relação com outros homens e ao mesmo tempo é um membro da sociedade, por essa mesma razão considera-se que somente a justiça entre todas as virtudes é ‘o bem de um outro’, pois de fato ela se relaciona com o próximo, fazendo o que é vantajoso a um outro quer se trate de um governante ou de um membro da comunidade (...), portanto nesse sentido a justiça não é uma parte da virtude mais a virtude inteira, nem seu contrario, a injustiça é uma parte do vicio mais o vicio inteiro. O que dissemos torna evidente a diferença entre virtude e justiça nesse sentido: são elas a mesma coisa, mais sua essência não é a mesma. Aquilo que é justiça praticada em relação ao próximo, como uma determinada disposição de caráter e em sim mesmo é virtude.” Aristóteles, Ética Nicomaquéia, V, 1, [1130 a].

Da parte racional da alma, esta está subdividida em duas: uma pela qual contemplamos as coisas cujas causas determinantes invariáveis e outra pelo qual contemplamos coisas passíveis de variação.
Essas partes se distinguem em espécie relativamente aos objetos que por semelhança e afinidade conhecem.
Aristóteles as denomina de parte científica e parte calculativa da alma, Aristóteles conhece que deliberar e calcular são efetivamente a mesma coisa; mas que ninguém delibera sobre coisas invariáveis, sendo por isso a parte calculativa capaz de conceber princípios racionais.
Com o investigado, Aristóteles conclui que a virtude de alguma coisa está ligada a seu funcionamento apropriado.
Controlariam a ação e a verdade a sensação o desejo e a razão.
A sensação não seria princípio de quaisquer ações refletidas.
As boas e más ações não podem existir sem uma combinação de caráter e intelecto.
A escolha é um desejo deliberado, para ser bem lograda, necessita de um raciocínio verdadeiro e o reto desejo deve buscar o que este determina.
Visto que a virtude moral é classificada por Aristóteles como uma disposição de caráter relacionada com a escolha, tal pensamento e verdade define Aristóteles como de natureza prática, que fazem parte da parte intelectual prática da subdivisão da razão; seu bom estado seria a concordância da verdade com o reto desejo e sua afirmação e negação corresponderiam a repulsa ou à busca na esfera do desejo.
O intelecto contemplativo, nem prático, nem produtivo, encontraria seu bom ou mal estado na verdade ou falsidade, seriam cinco as disposições (ou potências) em virtude das quais a alma possui a verdade, afirmando ou negando: o conhecimento científico, a arte, a sabedoria prática, a razão intuitiva e a sabedoria filosófica.
O conhecimento científico seria aquele que supostamente não pode ser de outra forma.
Longe de nossa observação e podendo ser de outra forma não sabemos se existem ou não, por isso o objeto do conhecimento científico existe necessariamente e é por conseqüência eterno, pois todas as coisas cuja existência é necessária no sentido absoluto do termo são eternas.


VII


Toda ciência pode ser ensinada, esta procede por indução, que é o ponto de partida que é o conhecimento que o universal pressupõe; ou o silogismo, no qual há pontos de partida que ele mesmo não alcança, logo é por indução que os atingimos.
O homem tem conhecimento científico quando tem uma convicção, a qual chegou de determinada maneira e conhece os pontos de partida, pois se esses últimos não lhe são melhor conhecidos do que a conclusão ele terá o conhecimento de modo puramente acidental.
Arte. Na classe das coisas variáveis estão as coisas produzidas e praticadas, a arte é a capacidade de produzir envolvendo o raciocínio reto. Se ocupando em inventar e estudar maneiras de produzir alguma coisa que pode existir ou não e está em quem as produz.
“A arte ama ao acaso”.
A carência de arte implica em uma disposição relacionada com produzir, porem envolvendo falso raciocínio e ambas dizem respeito a coisas que podem ser de outro modo.
Sabedoria práatica. A sabedoria prática deve ser então uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir, no que diz respeito às ações relacionadas com os bens humanos, não é arte porque agir é diferente de produzir, nem ciência porque aquilo a que se refere às ações pode ser de outro modo.
A sabedoria prática é uma virtude e como são duas as partes da alma que se guiam no raciocínio, ela deve ser a virtude que forma opiniões, pois a opinião se relaciona com o variável, mais do que uma simples disposição racional, pelo fato de que se pode deixar de usar uma faculdade racional mais não a sabedoria prática.
Razão intuitiva. A arte e a sabedoria prática tratam de coisas variáveis, o conhecimento científico é um juízo acerca de coisas universais e necessárias e suas demonstrações e conclusões são derivadas dos primeiros princípios (a ciência envolve a apreensão de uma base racional).
Sendo uma característica do filósofo buscar a demonstração de certas coisas, esses primeiros princípios não são objetos de sabedoria filosófica.
Logo a razão intuitiva é que apreende os primeiros princípios.
Sabedoria filosófica. É um conhecimento científico combinado com a razão intuitiva, daquelas coisas que são as mais elevadas por natureza. A sabedoria é atribuída aos seus mais perfeitos expoentes, a sabedoria então deve ser entre todas as formas de conhecimento a mais perfeita.
O homem sábio não apenas terá o conhecimento do que decorre dos primeiros princípios, como também terá uma concepção verdadeira a respeito desses próprios princípios. Uma ciência das coisas mais elevadas, a excelência que lhe é própria.
A “phronesis” (prudência) é pressuposto do político relacionado com a sabedoria prática e a virtude perfeita; é uma reta razão que se relaciona com as demais virtudes enquanto capacidade de... Como diz o Profº Marco Zingano em seu texto “Ethica Nicomachea”:

“(...) a habilidade de encontrar mediante deliberação a solução certa para a ação presente cujo fim é bom, de lograr o justo meio no interior das circunstancias nas quais a ação se produz. Ficara demonstrado que a prudência pressupõe as virtudes morais..”


VIII



O homem prudente é para Aristóteles um homem feliz, que atinge sua função com aquilo que tem de melhor na alma e virtuosamente, no plano do devir e das contingências e das possibilidades humanas, porém a felicidade perfeita é a atividade contemplativa, “o homem que exerce e cultiva sua razão parece desfrutar a melhor disposição de espírito e ser mais caro aos deuses”, pois é natural aos deuses se se importarem com os assuntos humanos amarem e honrarem o que em nos há de mais divino e belo, que é a atividade que mais a eles se assemelha: a contemplação e o amor à razão conduzindo-nos com justiça e nobreza, qualidades, sobretudo do filósofo, o mais feliz dos homens, pois a felicidade do político é plena, mas a do filósofo é mais, enquanto exercita o que há de melhor em nos enquanto imagem do divino.


Bibliografia



Aristóteles, “Ética a Nicômaco”, Tradução Pietro Nassetti.
São Paulo, Ed. Martin Claret, 2006.

Zingano, Marco. Texto “Ethica Nicomachea”.

Aubenque, Pierre. “A Prudência em Aristóteles”, Tradução de Marisa Lopez. São Paulo, Discurso Editorial 2003.

Notas das aulas do curso do 2º semestre noturno de filosofia da Faculdade do Mosteiro de São Bento, dos Profº Cezar e Mauricio nas disciplinas de “Ética” e “História da Filosofia II” respectivamente.